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Mani Ester Corrêa

Este é um projeto artístico-antropológico fotográfico desenvolvido no ano de 2021, na comunidade de Tatuaia, município de São Miguel do Guamá, no interior da Amazônia paraense, Brasil. Comecei a percorrer o caminho desse roçado no final do ano de 2020, quando fiz um retorno à comunidade rural que nasci, e que passei toda a minha infância. Nessa espécie de retorno temporário, iniciei outro tipo de relacionamento com minha mãe, que tinha um interesse um tanto quanto antropológico, e acabou se direcionando também para o campo artístico.

Faz um tempo que comecei a demonstrar efusivo interesse pelos saberes de Dona Rita, minha mãe. Meu plano era registrar as memórias dela, capturar imagens e escrever histórias. Durante o ano passado, convivi por um tempo prolongado com ela, nas quais as incursões na mata e no roçado era parte dessa espécie de etnografia dos saberes familiares. Foi no roçado que minha mãe havia plantado, nos arredores da casa, que um mundo de aprendizados se abriu para mim. Aquele roçado virou meu campo de pesquisa, um mundo inventado, um jardim plantado e cuidadosamente cultivado pelas mãos de uma senhora aposentada de 74 anos que nunca conseguiu largar o terçado das mãos.

Registrar e participar desse processo do plantio de mandioca, significou ver as plantas de maniva crescerem, e tempos depois, comer a macaxeira que nós duas havíamos plantado juntas, teve um sabor diferente. Muitas metáforas se formavam na estrutura de um pensamento interiorano e rural. Abri-se um portal para algumas reflexões sobre o que “torna eu, eu!”. Fez-me recordar que nossas formas de sobrevivências desde muitas gerações sempre esteve relacionada à pesca, à caça, à coleta e ao cultivo da mandioca e os seus derivados, primordialmente, a farinha de mandioca. É isso que me sustenta.

Recentemente, a mandioca foi considera como o alimento do século XXI pela ONU. Segundo a organização, esta é responsável pelo “futuro” do planeta. No Brasil, a importância do tubérculo também é demonstrada, por exemplo, por meio do Iphan, que classifica o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro, como um bem cultural ancorado no cultivo da mandioca brava. O cultivo abrange uma série de elementos que se relacionam: desde os saberes até os espaços. Dessa forma, objetivo mostrar um conjunto de saberes e práticas relacionadas ao cultivo da mandioca, que relevam as particularidades dos modos de “fazer farinha” na comunidade do Tatuaia.

As fotografias apresentadas dão conta de uma experiência etnográfica, se tornando parte de um artesanato intelectual por meio do qual o trabalho antropológico é construído (Mills 2009; Ingold 2015). Durante essa experiência fiz uma série de registro fotográficos, audiovisuais e textuais, ao mesmo tempo em que, meus registros fotográficos apontavam para registros sucessivos do tema, em períodos diferentes da minha trajetória. Dessa forma, selecionei fotografias digitais que tratam do cultivo da mandioca, feitas durante essa visita, e também algumas fotografias feitas em visita anterior, no ano de 2019.

A cianotipia me apareceu como um convite ao artesanal. É uma forma criativa de inventar cultura, juntando digital e artesanal. Essa técnica fotográfica de impressão artesanal, inventada em 1842, na qual se utiliza de produtos químicos e exposição ao sol na produção, me possibilitou reinventar e adicionar uma camada azul de poesia a um conjunto de saberes que é percebida como ‘trabalho pesado’, sempre em sentido negativo nesse jogo de dualidades do mundo. Outra camada poética fica por conta do ‘abre caminhos’ que a farinha de mandioca foi na minha própria trajetória.

Dessa forma produzi 13 fotografias, a partir de negativos digitais, impressas artesanalmente em papel encorpado para desenho Canson, 200g, sendo duas fotografias em tamanho A6 e onze em tamanho A5.

Referências

IPHAN. Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro. Disponível em: http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/75. Acessado em agosto de 2022.

INGOLD, Tim. Antropologia não é etnografia. In: Estar vivo: ensaios sobre movimento, conhecimento e descrição. São Paulo: Vozes, 2015, p. 327-347.

MILLS, Charles Wright. Sobre o artesanato intelectual e outros ensaios. Rio de Janeiro: Zahar. 2009.

Nasci na comunidade de Tatuaia, na Amazônia paraense, sou mestra e doutoranda em Antropologia Social. Atualmente vinculada ao PPGAS/UFRN. Pesquisadora, artesã, fotógrafa e escritora amazônida, integro grupos de pesquisa (GATA/UFPA; GCS/UFRN; GUETU/UFPB) e coletivo de arte (Coletiva Feminart). Pesquiso sobre Gênero, Mulheres, Fronteiras, Viagens, Cultura popular, Antropologia Urbana, ruralidades e Relações étnico-raciais. Interesso-me especialmente pela perspectiva da Antropologia Feminista, da Antropologia Visual e do Pensamento des/decolonial.