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A depressão numa cultura de cuidado POR dionísia tavares

A intenção de oração universal do Papa Francisco para este mês de Novembro: “Rezemos a fim de que as pessoas que sofrem de depressão ou de esgotamento encontrem em todos um apoio e uma luz que as abra para a vida”.

A depressão é, de facto, um problema crescente na nossa sociedade. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que 3,8% da população mundial sofre de depressão. Portugal é um dos 10 países com maior taxa de prevalência de depressão no mundo, sendo que cerca de 500 mil portugueses sofre, atualmente, com esta doença mental.

É importante termos consciência de que a depressão é mais do que tristeza. As pessoas que sofrem de depressão podem experienciar, de modo persistente, um conjunto diversificado de sintomas tais como humor deprimido, falta de interesse ou prazer em atividades da vida diária, falta de apetite, problemas de sono, dificuldades de concentração, falta de energia e cansaço, sentimentos de culpa excessiva e pensamos recorrentes sobre morte ou suicídio. De facto, a depressão pode comprometer de forma significativa o funcionamento da pessoa nos seus vários contextos de vida – trabalho, escola, relações sociais e comunidade. Além do sofrimento que acarreta para a pessoa e para a família, nos casos mais graves, a depressão pode atentar contra a própria vida humana.

Mas como nos devemos posicionar perante a depressão numa cultura de cuidado?

O Plano Pastoral da nossa Arquidiocese 2020/2023 coloca a caridade no epicentro da nossa ação cristã, defendendo uma cultura que incentiva o olhar, o cuidar e o amar o próximo. Esta cultura de cuidado é uma cultura que aceita e valoriza o sofrimento do outro, abraçando as singularidades e transformando-as em responsabilidade comum. Aceitar fazer parte desta cultura de cuidado compromete-nos a cuidar do outro, neste caso, cuidar da pessoa que sofre com depressão.

Isto implica, em primeiro lugar, um olhar genuíno para o sofrimento do outro - Onde há amor, há um olhar. É essencial não discriminar e não estigmatizar a pessoa que experiencia uma doença mental como a depressão. Aceitar a possibilidade de existência da doença é o primeiro passo a dar, pois qualquer um de nós pode vivenciar episódios depressivos com maior ou menor gravidade, em algum momento da nossa vida. Falar abertamente sobre o tema da depressão aos outros contribui para a normalização da doença, quebrando o estigma e encorajando as pessoas a procurar ajuda quando precisam.

Cuidar da pessoa que sofre com depressão implica, ainda, ter gestos concretos de cuidado – Onde há amor, nascem gestos. Pequenos gestos diários como conversar, apoiar, acompanhar podem fazer a diferença na vida da pessoa que sofre uma doença tão incapacitante, proporcionando-lhe “apoio e uma luz que a abra para a vida”, como sugere o Papa Francisco. No entanto, em situações em que os sintomas de depressão são persistentes, causam grande sofrimento e incapacitam significativamente a pessoa, é essencial que a pessoa seja encaminhada para profissionais especializados, os quais irão avaliar a situação, fazer um diagnóstico e propor o tratamento mais adequado.

Esta atenção ao outro, concretizada em gestos reais de caridade e amor, requer, no entanto, uma condição prévia, como refere o nosso Arcebispo D. Jorge: “cuidar de nós mesmos em gestos de verdadeira auto-estima”. O autocuidado é, assim, um aspeto central na forma como lidamos com a doença mental, quer sejamos a pessoa que sofre com depressão, quer sejamos o/a cuidador/a da pessoa que sofre com depressão. O autocuidado segue uma lógica de prevenção: tal como nos alimentamos bem para não adoecermos fisicamente, também devemos cuidar da nossa saúde mental todos os dias, ao longo da vida, para não adoecermos mentalmente. Como o podemos fazer? Reservarmos um pouco de tempo para nós, para fazermos pequenas coisas que nos interessam e nos trazem bem-estar. Por exemplo, conversar com família e amigos, participar em atividades de lazer e na comunidade, rezar, meditar, relaxar, fazer voluntariado, partilhar sentimentos com pessoas próximas…

Vemos, assim, que este posicionamento numa cultura de cuidado se traduz numa proposta de um caminho sinodal e samaritano onde abandonamos a indiferença à pessoa que sofre com depressão e passamos a caminhar juntos, numa atitude de atenção plena e fraterna ao outro. Ou, dito de outro modo: “A vida tem este jeito de ser dura às vezes, por isso é que Deus nos fez em grupo. Para que o fardo não seja só nosso…” (Carolina Deslandes, 2021)

Dionísia Tavares
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Paróquia de Fafe Santa Eulália
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