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Bloco de Carnaval Se Benze que Dá (favela da Maré - Rio de Janeiro- Brasil) Esta folia carnavalesca acontece na favela da Maré, Rio de Janeiro. Um grupo de moradores da Maré criou este bloco em 2005. Além da função de diversão o Se Benze também é instrumento de luta política, cultural e educacional.

Primeiro Desfile do SBQD 2019 – concentração do bloco. Rua São Jorge, Parque Maré, Favela da Maré, Rio de Janeiro. 09/03/2019. Foto Fábio Caffé/ Favela em Foco

Este site tem por objetivo reunir os materiais da dissertação O Bloco de Carnaval se Benze que Dá e suas relações de Sociabilidade na Favela da Maré, Rio de Janeiro. Este trabalho vem sendo realizado por Fábio Evangelista (Fábio Caffé) com orientação dos professores Ana Paula Alves Ribeiro e Mauro Amoroso. Caffé é mestrando em Educação, Cultura e Comunicação em Periferias Urbanas na Faculdade de Educação da Baixada Fluminense (FEBF - UERJ)

Dandara durante Concentração para o primeiro desfile do SBQD 2020. Loja Roça, Morro do Timbau, Favela da Maré, Rio de Janeiro. 15/02/2020. Foto Fábio Gama Soares Evangelista (Fábio Caffé/ Favela em Foco). Dandara particopa do Se Benze desde quando era bebê. Seus Pais Jê e Fernanda também participam do bloco.

O bloco de carnaval Se Benze que Dá acontece na favela da Maré, Rio de Janeiro. Um grupo de moradores da Maré criou este bloco em 2005. Além da função de diversão o SBQD também é instrumento de luta política, cultural e educacional.

Um dos objetivos do bloco é ajudar a romper com as “fronteiras” existentes na Maré, convidando os moradores a virem para a rua. As “fronteiras” a que estamos nos referindo são as ruas que dividem as favelas da Maré. A Maré é composta por 16 favelas e algumas destas favelas são dominadas por grupos civis armados rivais, com isso muitas pessoas têm receio de atravessar de uma favela para outra. Assim este deslocamento que o bloco promove pela favela é muito importante. Mesmo que temporariamente o bloco recria um novo espaço, uma Maré que atravessa as “fronteiras”.

O SBQD também luta pelo fim da política de extermínio implementada pelo governo contra os moradores de favelas. Os integrantes do Se Benze têm forte ligação com o território. Para eles a Maré não é um espaço comum de simples passagem, é território de afetos, vivências, de forte valor emocional e de memória, indo ao encontro da ideia de território usado desenvolvido pelo geógrafo Milton Santos (1999).

Abaixo veremos a fotobiografia que estamos realizando com Mariluci Nascimento, integrante do Bloco Se Benze que Dá. No dia 30/04 conversamos através do aplicativo Jitsi, gravei (com a concordância de Mariluci) a nossa conversa em formato de vídeo, o que gerou aproximadamente 2 horas de material. No momento estou transcrevendo este material. Tendo como referência a metodologia desenvolvida pela antropóloga Fabiana Bruno, chamada Fotobiografia, pedi para Mariluci escolher 20 fotos que na visão dela contem a história do bloco.

No início de nossa conversa fui surpreendido porque no dia anterior Mariluci havia compartilhado algumas fotografias no stories do instagram e tinha me marcado, então pensei que estas eram as imagens selecionadas. Mas Mariluci tinha escolhido outras imagens e me enviou pelo Whatsapp. Então como eu estava com o Whatsapp Web aberto, compartilhei esta tela e fomos vendo as imagens. Seguimos a ordem das imagens que o Whatsapp listou.

Foto-01: Desfie do SBQD 2019, Maré, Rio de Janeiro. Foto Diogo Félix
Desfile SBQD 2015, Morro do Timbau, Favela da Maré, Rio de Janeiro. Foto: Ratão Diniz
Ensaio do Bloco Se Benze que Dá, provavelmente 2006, Casa de Cultura - atual Museu da Maré, Rio de janeiro. Autor (a) desconhecido

Mariluci Nascimento (MN): "Ah, essa foto, eu escolhi, acho que ela não tava entre as 20 não. Não. Mas, enfim, eu sei, porque eu escolhi essa foto. Eu escolhi essa foto, porque ela mostra esse período – eu to com agogô – primeiros anos - provavelmente isso deve ter sido em 2006, talvez. E eu acho que eu escolhi essa foto porque ela mostra os ensaios que é uma coisa que aparece pouco, mas que a gente fazia também e que era muito legal. Porque a gente fazia os ensaios lá, a maioria acontecia na Casa de Cultura. Porque os instrumentos já tavam lá, já eram de lá, então era mais fácil. A gente fazia os ensaios pra poder desfilar. E era muito legal esse encontro nos ensaios, a gente aprendendo a tocar, a gente trocando, conversando, tinha um momento de pagode, tinha momento que alguém puxava o pagode, aí a gente começava a tocar pagode, era muito divertido, por isso eu escolhi essa foto."

Fábio Caffé (FC): E vocês começavam a ensaiar, tipo, em janeiro, como é que era, Mari?

MN: "A gente nunca foi muito organizado. A gente tem os ensaios temáticos, acho que até tem uma foto que não se está aí, se não tiver, eu posso falar isso agora. Que a gente faz é uma coisa que eu achava, que eu acho que o bloco era muito legal, assim, de ponto de encontro, que a gente fez os ensaios temáticos. É uma foto muito parecida com essa aí. Que a gente fez dos abortados de Cabral. Você Lembra ?Foi 2007, não lembra? O Cabral deu uma declaração dizendo que a favela era uma fábrica de produzir de marginal, ele estava defendendo o aborto. Dizendo que as mulheres da favela eram fábricas de produzir marginal. E aí, a gente fez um ensaio temático chamado Os Abortados de Cabral. Aí chamamos a galera, veio pouca gente, tava frio, Medo de chover, mas, enfim, os ensaios era um negócio muito mais. A Cleuma era funcionária da Casa de Cultura, a Cleuma que é moradora lá do Morro do Timbau. Amiga da mãe do Rodrigo também, ela era tipo da ala da velha guarda, digamos assim, que era a galera mais séria. Ela fazia sopa de ervilha. Então, nessa época aqui desses detalhes, a gente fazia, a gente fazia sopa de ervilha e vendia pra gente mesmo os cinquenta centavos, que era o valor só pra pagar a mão de obra, a mão de obra, o custo da sopa, sabe? Tipo assim, esse é um negócio barato, né? Então, assim, aí depois a gente começou a por um real, sobrava um dinheirinho, que ajudava a comprar as coisas de adereço. Que a gente meio que ficou mais organizado, digamos assim. Fazem essas coisas. E aí, é muito divertido. Até parecer essa foto por conta disso, porque assim, não é o desfile, é um ensaio galera novinha, né? Eu to tocando agogô, que é o instrumento que eu tocava no início também. Essas fotos que estão embaçadas, eram todas de uma máquina que eu tinha aqui, que não era muito boa? Eu não sei quem fez, mas é uma foto caseira. Geandra, aqui, né, do lado da Guará."

A estética desta imagem escolhida por Mariluci lembra uma imagem antiga, ou que a imagem envelheceu, assim como os integrantes do bloco. E como se a fotografia fosse um vestígio daquele momento, incluindo as vidas das pessoas retratadas na imagem. Ao mesmo tempo podemos refletir sobre a abertura dos arquivos, com isso queremos falar que as imagens de arquivo podem ser interpretadas ou usadas de diversas maneiras, isso pode ser bom e ruim ao mesmo tempo, pois por exemplo, podem ser lidas por óticas progressistas ou reacionárias (sem querer estabelecer um dualismo porque existem diversas camadas intermediárias). Entler (ano) reflete sobre isso ao falar da obra de Chris Marker (continuar).

A pose de Léo na foto indica que alguém conhecido (a) fez esta foto. É muito interessante quando alguém posa para uma foto. Por que ele escolheu aquela pose? Será que todos e todas na imagem estão posando? As imagens possuem lacunas que não podem ser totalmente preenchidas.

Concentração do bloco SBQD ( Autor@ desconhecido)

É muito interessante ouvir Mariluci falando porque a partir da fotografia são despertadas várias de suas memórias (de diferentes anos, sendo o tempo próprio da memória). E indo além, é como se os registros fotográficos abrissem caminho para Mariluci criar um filme mental onde entramos numa outra temporalidade, totalmente diferente da linear, cronológica, do relógio. Isso é muito rico porque amplia nossas percepções sobre o mundo, sobre Mariluci, os demais integrantes do bloco, sobre nós mesmos. A ouvindo criei também na minha tela mental as cenas narradas (em um ano o Se Benze passando no meio do corredor formados por bandidos e noutro o bloco encarando a ditadura do exército). Assim podemos afirmar que uma pauta essencial do Se Benze é a luta pelo direito de ir e vir no Rio de Janeiro.

A fala de Mariluci também aponta para a ligação essencial entre imagem, memória e imaginação. A memória não é algo só do passado mas também do presente e futuro. Acreditamos ser muito importante termos outras possibilidades de temporalidades, de narrativas. Um exemplo é o modelo de fractal desenvolvido por Denise Ferreira da Silva. Segundo o dicionário online Michaelis o significado de fractal é: “Forma geométrica que se autorrepete dentro de si própria e parece sempre igual, independentemente da ampliação da imagem.” E acrescentando a esta definição podemos falar que este padrão se repete infinitas vezes num processo contínuo. No fractal a parte está no todo e vice-versa. Ambas se refletem mutuamente. E indo além de uma figura de linguagem (metonímia) podemos analisar as imagens e processos históricos a partir dos fractais. Assim podemos perceber a história a partir de outros movimentos, rompendo com a suposta linearidade entre os acontecimentos, logo “todo evento é também espelho e ainda mais sob a perspectiva do espelho, é o evento o que lhe reflete. Gênese e reflexos são assim duas qualidades que apesar de distintas se tornam indiscerníveis.” (RIBEIRO, 2020, p.155). A seguir o autor (Ribeiro) fala que concorda com Deleuze (cristal) e Ferreira (fractal) ao mesmo tempo. Onde o primeiro faz as reflexões quanto a estética a partir da análise das imagens e Ferreira parte das intuições, de linhas da imaginação. Assim a arte por meio da estética é um gatilho para o sentir e para as desconstruções das linearidades e determinações históricas. Assim abre -se caminho para o impossível.

Outro ponto é a imaginação, um exemplo é que a fotografia ao mostrar um pedaço do tempo e espaço. A fotografia é bidimensional, ou seja, quando vemos uma fotografia precisamos imaginar que ela é tridimensional. Outro exemplo é o espaço fora da tela, podemos imaginar o que a fotografia não mostrou.

Trabalhadoras interagindo com o bloco SBQD 2019, Vila do Pinheiro, Favela da Maré. Foto Diogo Felix
Desfile do bloco SBQD 2019. Baixa do Sapateiro, Favela da Maré. Foto Diogo Felix
Ato contra a militarização da Maré, ano (?), local ? Autor (a): Desconhecido (a)

Mariluci Nascimento (MN): Eu só escolhi essa foto, porque, de novo, não é no desfile do bloco. Enfim é um evento contra a militarização. Foi quando teve a ocupação (militar – observação nossa). A gente fez uma caminhada e, de novo, tava todo mundo com muito medo de fazer, se ia conseguia fazer, como que ia ser, porque podiam ver como enfrentamento, não sei o que, tal. Mas a gente fez. Não é um desfile do bloco, mas o bloco tá presente. A gente foi da Nova Holanda pro Parque União, a gente tá no Parque União. E aí, eu gosto, porque a gente tá provavelmente gritando, eu não quero Caveirão, alguma coisa do tipo. A gente tem umas fotos aí que eu escolhi, porque eu acho que o bloco tinha e tem ainda também uma função e fortalecer vários movimentos. 

Fábio Caffé (FC): No outro dia eu tava lendo, o livro da Renata, o Cria da Favela. E achei superlindo um trecho de uma fala sua. Que a gente pensa o carnaval, às vezes só no período mesmo de carnaval, né? E na sua fala, tinha isso que é como se o bloco, ele continua na gente, nas diversas atividades que ele faz, seja na militância, no pré-vestibular, no trabalho.

MN: É verdade, é verdade. Continua mesmo, assim, a gente leva o bloco pra todos os lugares. E isso é muito forte. Eu lembro de vários momentos, assim, que o bloco teve junto, em vários momentos. uma foto que eu não botei aí, que eu ia selecionar, mas eu achei a foto ruim, porque tinha poucas fotos daquele evento, mas foi um evento da igreja, que teve uma época que tava tendo muitas operações, tavam morrendo muita gente na favela. Foi quando foi quando morreu o Felipe. E aí a igreja puxou um ato, e aí alguém veio falar com a gente, olha a igreja tá puxando esse ato. E a gente disse que é um evento que tem tudo a ver com as coisas que a gente defende. Então, vamos. E a gente não conseguiu pegar os instrumentos, não lembro o porquê. Tava trancado em algum lugar, não lembro. A gente não conseguiu pegar os instrumentos. Tanto que pegou panela,

Ato contra o Muro na Maré, Praça da Nova Holanda, ano (?). Autor (a): Desconhecido (a)
Bloco SBQD 2019, Loja Roça, Morro do Timbau, Favela da Maré, Rio de Janeiro. Foto: Elisângela Leite
Dandara, filha de Je e Fernanda. Desfile do bloco SBQD 2019, Nova Holanda, Favela da Maré, Rio de Janeiro. Foto Naldinho Lourenço
Foto 20 - Mariluci e eu concordamos em não mostrar esta fotografia em respeito a uma das pessoas que aparece na foto

Nosso trabalho enquanto fotógrafos tem como eixo central a ética pelas pessoas retratadas, tal como nos diz o fotógrafo documentarista João Roberto Ripper: "o mais importante é o respeito pela pessoa fotografada".

Link para acessar a fotobiografia de Mariluci Nascimento realizada no dia 30/04/2021

A seguir vamos ver a fotobiografia realizada com Léo Melo no dia 15/04/2021.

Credits:

Bloco Se Benze que Dá, Morro do Timbau, Favela da Maré, Rio de Janeiro, 2019. Foto Fábio Caffé