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O tempo da criação: um estilo de vida sóbrio e ecossustentável POR Ricardo

O tempo da criação é uma iniciativa de várias confissões cristãs para a celebração, conversão e compromisso no cuidado da nossa casa comum, o planeta Terra. A provocação destas confissões religiosas para este mês de setembro não poderia ser mais interpeladora: para além da oração e da contemplação, desafia cada um de nós a iniciativas concretas de mudança da nossa relação com o mundo natural.

O leitor mais desatento da produção literária que o Papa Francisco tem vindo a publicar poderá perguntar-se qual a relação do catolicismo com as questões ecológicas. Em 2015 o Papa Francisco publicou a encíclica Laudato Si’ – sobre o cuidado da casa comum (LS), uma carta dirigida a todas pessoas de boa vontade, onde o Papa aprofunda a reflexão teológica sobre a relação do ser humano com o mundo natural e aponta caminhos de mudança para o cuidado desta casa comum. Este documento teve um impacto enorme na sociedade civil e influenciou de forma bem marcada o Acordo Climático de Paris de 2015, onde pela primeira vez na história a China e os Estados Unidos da América se comprometem com medidas concretas para combater o flagelo ambiental que atravessamos.

Mas afinal qual a novidade desta interpelação do Papa Francisco?

Todos nós estamos habituados a ouvir alguns chavões quando se fala de cuidado do meio ambiente, como sejam as energias renováveis, a diminuição da emissão de gases poluentes ou mesmo a política dos 3R’s: reciclar, reduzir e reutilizar. A mensagem do Papa Francisco vai para além de uma ação meramente ambientalista. O Papa percebeu que muitos dos problemas humanos são causados por problemas ambientais e, em sentido contrário, muitos problemas ambientais são causados por problemas humanos, como a pobreza. Assim, propõe uma ecologia integral, que considere questões ambientais e todas as dimensões do ser humano, pelo que a problemática ambiental tem de ser pensada e resolvida como parte de nós, uma vez que nos relacionamos constantemente com o mundo natural, quanto mais não seja pelo que comemos, bebemos ou respiramos. Assim, pensar a ecologia integral é perceber que esta crise ecológica é uma crise de relações: a forma como nos relacionamos entre nós, com o mundo natural e, em última (ou primeira) instância para os crentes, com o Criador que ama e sustenta tudo.

Para além deste olhar global da problemática ecológica, Francisco aponta caminhos concretos de conversão ecológica. Um deles, e talvez o mais difícil para as sociedades ocidentais, é a procura de um estilo de vida sóbrio. Esta forma de viver implica uma mudança no paradigma consumista das sociedades hodiernas. Viver com menos conforto, menos comodidades, cingirmo-nos ao que é essencial e assim sermos felizes, é a interpelação que nos é apresentada. Este desafio do Papa inspira-se na vida monástica beneditina. A vida comunitária dos monges beneditinos, ao seguir a regra de S. Bento, interpela-nos a viver uma sobriedade feliz, onde diariamente somos desafiados a reconhecer a beleza e bondade da natureza e a romper com o uso desmedido dos recursos naturais. Procurar viver na “sobriedade feliz” é uma exigência forte para os tempos atuais, pois exige perceber que a felicidade não reside no ter, mas no ser e no “regresso à simplicidade que nos permite parar e saborear as pequenas coisas” (LS 222).

Este tempo da criação, que se prolonga até dia 4 de outubro, dia de S. Francisco de Assis, padroeiro da ecologia e protetor dos animais, é por isso um tempo de reflexão sobre que estilo de vida impomos no nosso quotidiano, as opções que fazemos no supermercado, a forma como respeitamos a vontade do Criador e reconhecemos o valor próprio da natureza, independentemente da sua utilidade para nós, humanos.

“A sobriedade, vivida livre e conscientemente, é libertadora. Não se trata de menos vida, nem vida de baixa intensidade; é precisamente o contrário. (…) É possível necessitar de pouco e viver muito, sobretudo quando se é capaz de dar espaço a outros prazeres, encontrando satisfação nos encontros fraternos, no serviço, na frutificação dos próprios carismas, na música e na arte, no contacto com a natureza, na oração.” (LS223)

Ricardo Cunha
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Paróquia de Fafe Santa Eulália
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