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Missão País: Quando os jovens «tocam o coração» do interior de Portugal

O vento frio sopra na aldeia de Alvoco das Várzeas, concelho de Oliveira do Hospital, numa manhã de fevereiro. Ao longe avista-se o autocarro que traz 50 jovens, encasacados, mas cheios de energia, a cantar e rir, prontos a ajudar e a fazer a diferença naquela semana, naquela aldeia envelhecida no interior do país.

Alvoco das Várzeas, ponte romana e praia fluvial

A primeira paragem foi à beira do autocarro onde um carro parado necessitava de mudança de pneu, o condutor aceitou a ajuda dos jovens de t-shirt azul, nas costas lia-se “Missão País”. Jovens estudantes da Universidade da Beira Interior (UBI) que tiraram uma semana das suas vidas para fazer voluntariado.

“Nós vimos aqui para servir, chegar ao coração das pessoas, estas pessoas estão no dia a dia sozinhas e ver estas caras mais jovens dá-lhes alento”, explica Rui Paixão, chefe de Missão, em declarações à Agência ECCLESIA.

Este jovem, estudante de Ciências da Comunicação, acompanha a reportagem da ECCLESIA, abre a porta dos espaços, chama jovens missionários para dar testemunho e, de olhar atento e sorriso tímido, vai dando alento nos vários serviços.

“Estamos aqui na Biblioteca, anteriormente uma escola, e estes missionários vão dar nova vida ao espaço, arranjar tudo e criar um cantinho de leitura para as crianças”, conta.

Joana Gonçalves é estudante do 4.º ano de Medicina na UBI, veio de Matosinhos e não se importou de envergar um avental, máscara e luvas para “ir raspar uma parede”, antes de pintar a Biblioteca.

“Nunca sabemos para o que vamos, mas quando chego já sei porque estou aqui. No ano passado estava no lar e o resultado era imediato, víamos a alegria deles, este ano aqui na Biblioteca só veremos resultados no fim da semana quando inaugurarmos a biblioteca”, indica.

“Eu não estou de férias, estou em estágios, mas é sempre bom tirar tempo do nosso ano para vir fazer a diferença, faço mais aqui do que no hospital como estudante”. Joana Gonçalves

O sino da Aldeia de Alvoco das Várzeas, no concelho de Oliveira do Hospital, toca sozinho a cada hora na igreja matriz, dedicada a Santo André, padroeiro. A Missão País chegou ali no ano passado e, durante uma semana, consegue aliar os jovens e idosos, fazer do longe perto e dos afetos esquecidos uma realidade.

Inês Pombinho tem 20 anos, estuda Ciências da Comunicação e conheceu a Missão País na sua aldeia e participar, quando fosse universitária, foi um sonho tornado realidade.

“Esta semana está a ser incrível, dá aos jovens uma perspetiva de realidade diferente, habituados a estar em meios maiores e aqui as pessoas estão isoladas e um simples sorriso faz a diferença”, explica a estudante de Ciências da Comunicação.

“Há uns anos a Missão País esteve na minha terra, Galveias, no concelho de Ponte de Sor e disse sempre ‘vou querer fazer’, eu queria perceber a alegria daqueles jovens”. Inês Pombinho

Junto dos idosos

No Centro de Recreio e Convívio de Alvoco das Várzeas residem cerca de 30 idosos a que se juntam mais alguns em centro de dia, um ambiente diferente de descoberta para a estudante de Ciências Farmacêuticas, Mariana Azevedo, a fazer Missão País pela primeira vez, depois de conhecer a experiência da irmã.

“Estar na companhia dos idosos, fazer companhia e ouvir o que têm para contar, estar aqui e animar; eu queria muito aqui estar para vivenciar o dia a dia destas pessoas, na verdade todos nós vamos ser idosos e é importante”, descreve a jovem de 22 anos.

Também a irmã Francisca Dias, religiosa doroteia, acompanha os jovens universitários da Beira Interior e refere que esta experiência traz grande riqueza àquelas vidas.

“Ouço muitas vezes, ‘ó irmã faz-me lembrar o meu avô, a minha avó, quando sair da missão vou estar mais tempo com o meu avô e avó, o sentido de dar do seu tempo a estas fragilidades e aprender a valorizar o que têm”, explica a religiosa.

Em dia de celebrar os afetos os idosos recordam ditados relacionados com o amor, alinham nas cantorias dos jovens e, ao início da tarde, seguem por Alvoco das Várzeas distribuindo abraços.

“Para uma pessoa com fé, como eu, o convite para vir era impossível de recusar, porque é tempo de estar com Deus, de estar com outros jovens, é um pouco de tudo; depois nunca tinha ouvido falar desta aldeia e a primeira coisa que fiz foi ir pesquisar ao Google”. Francisco Venâncio, 18 anos

Os estudantes universitários seguem de braço dado, a dançar ou a empurrar as cadeiras de rodas, os jovens e idosos entram no café da aldeia para um momento especial de convívio, a que se juntou o jovem padre Tiago Carlos, que acompanha esta missão.

“Vivemos numa sociedade em que, às vezes, os afetos causam estranheza e podem transparecer fraqueza e, pelo contrário, significa a humanidade que temos pelas pessoas, aqui acho que se sentem tocados pelo facto de sentirem estes jovens a dizer que não estão esquecidos e que temos muito a aprender com eles, são as nossas memórias e raízes”, indica o sacerdote alentejano.

‘Alegra-te’, os jovens marcam a aldeia

A aldeia é atravessada por várias levadas de água para irrigação das terras, nesta semana as levadas de jovens espalham-se por vários locais desta aldeia de cerca de 300 habitantes, que vão ficar com um mural de recordação.

“Estamos três anos nesta aldeia queremos deixar uma marca, a cada ano pintamos um mural com o nosso lema e cor, cada um dos missionários passa por aqui e é isso que o torna tão especial”, explica Inês Pombinho.

Junto à parede a começar a ser pintada está o futuro médico, Joaquim Araújo, a mostrar o telemóvel a outros jovens. Ali ajuda a definir a elaboração do mural, situado junto à igreja matriz.

“Para ser médico é preciso ter esta veia de estar disponível e dedicar tempo aos outros, estou aqui como chefe de serviço e tentei ao longo dos meses, entre contactos, orçamentos e donativos, ter tudo para nada faltasse aos jovens, desde frutas, legumes, pão ou materiais a utilizar”, refere o jovem natural do Porto.

A aldeia do concelho de Oliveira do Hospital, conhecida pela sua praia fluvial junto à ponte romana, é casa para os jovens estudantes da UBI que tentam fazer a ponte entre a sua vida corrida e o silêncio da aldeia, entre a energia dos seus 20 anos e os cabelos brancos de com quem se cruzam.

Uma equipa de jovens vai percorrendo as pequenas ruas da típica aldeia, concretizando o “porta a porta”, dinâmica de visita aos residentes, contacto com a população e companhia a quem está mais só.

“Venho ao encontro das pessoas, conhecer e perceber o que precisam e descobrir que só querem que estejam com elas, ouvir e fazermos companhia, entregarmo-nos e dar abraços, é o fundamental”, conta Matilde Simões, estudante de Medicina.

É uma das jovens que integrou a equipa que bateu à porta de Isabel André, residente de Alvoco das Várzeas, que agradeceu a visita e enalteceu a presença dos jovens na aldeia.

“A Missão País são as jornadas nacionais, são as missões, porque partimos para todos os locais do país e fazemos o que a JMJ faz ao nível mundial, depois os jovens das missões acabam por ir para a JMJ”. Isabel Praça, chefe de Missão

“São uns jovens fantásticos e toda a minha vida gostei de estar ao pé dos jovens, aprende-se muito com eles… nesta semana isto faz bem à aldeia, dá vida e outra dinâmica à aldeia, por mim podem vir todos os anos, todos os dias e a toda a hora que não me importo”, indica a entrevistada.

A corrente do rio Alvoco segue o seu percurso e a Missão País marca a aldeia de Alvoco das Várzeas neste segundo ano. “Alegra-te, Ele está contigo” foi o tema que mostravam nas t-shirts e cantavam a cada circunstância, num ano especial em que já sonham com a Jornada Mundial da Juventude, em Lisboa.

SN

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Manuel Costa
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Credits:

Sónia Neves