Os ingredientes são corriqueiros e não vêm de muito longe:
tainha fresca, pescada geralmente por um membro da família;
e feijão da roça de casa.
Uma combinação que une o peixe símbolo da gastronomia de Florianópolis com um insumo presente no Brasil desde antes da chegada dos colonizadores portugueses, e que já fazia parte da alimentação indígena, o feijão preto.
Um prato manezinho!
Comida do dia a dia, que alimentava as famílias mais simples, ficava cozinhando sozinha na panela de barro enquanto a mulher dava conta dos filhos e dos afazeres da casa.
O professor Sérgio Luiz Ferreira, doutor em História Cultural, diz que era mais comum ver a tainha no feijão na mesa das famílias mais pobres da Ilha de Santa Catarina, pois como tinham dificuldade em comprar carne pra colocar no feijão, acabavam usando a tainha.
Conhecido por ser gorduroso, o peixe, assim, substituía a gordura do porco.
Dona Bertolina Machado Ferreira conta que a mãe dela fazia esse prato com frequência quando ela e seus dez irmãos eram crianças.
Um caldo reforçado que rendia o suficiente para alimentar tantas bocas. No entanto, como a tainha é um peixe de inverno, durante as outras estações do ano ele era trocado pela tainhota, também chamada de parati.
Mesmo na falta da tainha, uma coisa era certa: o peixe no feijão não ia faltar!
Nascida em Ratones, um dos bairros do Norte da capital catarinense, Dona Bertolina lembra que o pai pescava no rio Ratones, e que também fazia farinha de mandioca no engenho da família. E era essa farinha que completava o prato.
“Com o caldo do feijão e a farinha de mandioca, a gente fazia pirão e comia com o peixe”, relata.
Quando tinha oito anos de idade, Dona Bertolina se mudou com a família para Santo Antônio de Lisboa, local que mora até hoje.
Santo Antônio de Lisboa
Era a família Andrade, igualmente numerosa.
Os 14 filhos de Agenor José de Andrade ajudavam na lavoura, na pesca e na produção da farinha de mandioca, atividades comuns entre os imigrantes açorianos que chegaram à Florianópolis no século 18 e firmaram moradia.
O bairro ainda hoje preserva o casario típico do período colonial e mantém as características de vila - pacata, com ranchos de pesca, dando a sensação de volta ao tempo.
É em Santo Antônio de Lisboa que os filhos de Agenor mantêm o engenho mais antigo de Florianópolis ainda em atividade.
Datado de 1860, o Casarão e Engenho dos Andrade faz parte do patrimônio histórico da cidade.
Sua importância vai além do resgate da cultura dos engenhos promovido pelos irmãos Andrade após o falecimento do pai.
Ela se estende até as memórias ligadas à gastronomia da capital catarinense.
Restaurante Samburá
Proprietário do Restaurante Samburá, que fica próximo ao Casarão e Engenho no Caminho dos Açores, Seu Fausto talvez seja um dos únicos donos de restaurante a manter a tainha no feijão no cardápio.
As receitas do restaurante trazem de volta um pouco da infância de Seu Fausto, quando sua mãe colocava alho e temperinho verde no feijão, depois de colocar as postas de peixe já temperadas com sal e limão e seladas na frigideira com banha de porco.
Um aroma que ainda hoje é sentido na cozinha do seu restaurante.
Há 31 anos, o Restaurante Samburá serve pratos à base de frutos do mar, sempre valorizando as comidas típicas de Florianópolis.
Pirão de peixe, peixe assado com pirão d’água e outras delícias dividem espaço no menu com a tainha no feijão que, assim como é feito na casa de Dona Bertolina, é substituída por outro peixe quando a época da tainha termina.
Ele acredita que por ser cada vez mais raro cozinhar em casa e por os cozinheiros dos restaurantes não serem nativos, o prato esteja desaparecendo.
“Só quem é daqui dá valor”, diz.
Uma valorização da cultura de Florianópolis que não se resume à culinária.
Na decoração do restaurante de Seu Fausto estão presentes elementos nostálgicos que simbolizam a vida de moradores nascidos e que vivem na cidade. Entre eles, a primeira canoa da cidade, cavada em 1875, e um engenho de farinha e cachaça.
“São objetos com grande valor sentimental que pertenceram a entes queridos e amigos do coração.”
Uma viagem no tempo, com direito a uma receita que tem gostinho de saudade: a da tainha no feijão.
fotos: Marcelo Feble
Esta história termina aqui.
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