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DESLUMBRE ESTELAR por Susã Garcia

Deslumbre Estelar relata um acontecimento inusitado na vida de Joaquim, um jovem egocêntrico e que detesta qualquer manifestação artística, mas aceita ir a um evento em sua cidade e tem sua essência transformada graças a um encontro inesperado.

Em uma noite de verão no ano de 1954, a pequena cidade de Santa Torre comemorava a inauguração do primeiro Teatro na região. A grande motivação daquela noite era para celebrar a semana de Natal. O teatro era algo nunca antes visto pelos humildes habitantes no interior. Apenas conhecido na cidade do Rio de Janeiro.

Quase todos os moradores da cidade se aglomeraram na Praça do Relógio, que ficava no centro de Santa Torre, onde era o ponto de encontro para o primeiro e exclusivo espetáculo daquela noite. Era algo simples, mas que gerou muita expectativa. O prédio era novo, bem estruturado e com apenas dois andares, mas com a probabilidade de caber um grande percentual da população da cidade. Havia uma fita cor vermelha na entrada indicando que ainda não haviam liberado o acesso. Estavam esperando o prefeito chegar para poder cortá-la e liberar a entrada das pessoas no local. A grande espera se dava por uma apresentação de dança ao vivo, acompanhada de uma Orquestra conhecida no Rio de Janeiro e dito como influentes na música por lá.

O calor da estação deixou a noite mais acomodada ao verão do interior. Estava confortável para a maioria das pessoas que demonstravam isso na euforia dos seus risos. Suas vestimentas também estavam de acordo com o clima: algumas senhoras usavam roupas mais tradicionais como saias bem volumosas, com tons neutros em sua maioria, um tanto extravagantes para a época, enquanto outras desfrutavam de cores mais delicadas, como se estivessem pintadas com aquarelas. Suas filhas pequenas imitavam seus trajes acompanhadas de laços nos cabelos. Como era noite, muitos não usavam chapéus, mas as tradicionais mulheres estavam acompanhadas de luvas brancas até os cotovelos, outras até os pulsos, e umas não aderiram ao uso. Rapazes, como sempre, usando ternos, assim como também de costume, acompanhados de charutos nos lábios.

Enquanto uns se aglomeravam na praça, que estava de frente do edifício, outros aguardavam mais perto da fita, um pouco acima dos degraus. Dentre os que esperavam bem perto da entrada do prédio, estava um jovem, provavelmente o único que não sorria euforicamente como a maioria. Ele já conhecia os teatros, sabia o que esperar, mas estava lá, pacientemente aguardando as portas se abrirem. E é com ele que essa história vai trilhar um formidável caminho.

1954 foi o ano da juventude de Joaquim. Em seus dezessete anos, teve a ousadia de aceitar um convite e ir ao teatro, coisa que desprezava por vontade própria. Dona Alameda, sua vizinha, fizera o convite amigável pedindo que fosse em seu lugar, já que ela estaria visitando sua filha no Rio de Janeiro na semana de Natal e, de acordo com suas palavras, "aquele convite não poderia ser negado por hipótese alguma". Cedeu portanto, depois de muita insistência, abrindo mão do seu ego pela primeira vez e indo sozinho à aquele evento.

Joaquim demonstrava em suas faces um ar sério sobre sua mocidade. Não ousava sorrir e muito menos interagir com sua cidade natal. Ele era visto em Santa Torre como mudo e quase não o paravam nas ruas para trocar palavras, porque com os seus olhos sempre olhando para o chão, o rotulavam como um homem de pouca conversa. O jovem tinha a beleza cobiçada entre as moças. As meninas que frequentavam a mesma escola que ele sempre o admiraram pelos seus destacados olhos cor de âmbar e o cabelo com cachos castanhos. Mas isso nunca teve importância pro menino. Ele nunca deu atenção que não fosse para si mesmo. Era focado no núcleo do seu egotismo e do seu próprio silêncio. Interagia apenas com Dona Alameda, que morava ao lado de sua casa e que cuidava dele a pedido dos seus pais. E também interagia com alguns de seus professores que sempre estiveram atentos ao grande interesse do menino para com leituras.

Ele carregava dentro de seu terno sombrio um livro de bolso para ler caso encontrasse ocasiões, pré-julgadas por si, tediosas. Sua arte, ou seja, aquilo que gostava de gastar tempo, eram os artigos e ensinos sobre Justiça, para poder enfim se mudar e viver uma imaginável independência estudando Direito na cidade grande. Talvez seja essa a justificativa que encontraram sobre sua personalidade antissocial: o desapego por um lugar que não será eterno para ele. Porém, uns suspeitavam de sua criação ser a resposta para a sua frieza. Não se sentia nem um pouco comovido com tanto entusiasmo, sabia que aquilo não poderia ao menos mudar sua concepção sobre as artes. Eram frios todos os seus sentimentos por qualquer manifestação artística, sob influência de seu pai que as desprezava igualmente, assim como também, por conta da criação de seu avô. Era um desprezo sendo repassado de pai para filho. Nunca entendeu o ódio do mesmo, mas após a morte precoce de seu pai, decidiu obedecer sua criação e aceitar que em casa nada daquilo era bem vindo. Menos por sua mãe, que também já não estava mais viva. Do contrário de seu esposo, ela sentiria todas aquelas sensações se estivesse ali com o seu filho. Claro que em discreto, pois só Joaquim sabia sobre as diferenças de sua mãe a respeito do que deveria cumprir na frente de seu marido. Ela era feliz quando se tratava da beleza nas artes. Só de lembrar de seu sorriso, um pouco daquele calor rompeu as barreiras do ego de Joaquim e remexeu com suas sensações.

Esse instante fez com que, por involuntária vontade, olhasse para o céu daquela noite. O que estava em evidência era o oceano de estrelas. O aspecto da lua cheia o seduzira e fizera com que seu silêncio pessoal fosse rompido em fragmentos de admiração. Sua mãe amava a noite e principalmente a luz que era tão brilhante para que toda uma cidade pequena observasse. Às vezes, ele a flagrava pela noite sentada na varanda olhando para a escuridão no horizonte. Era uma arte admirar a paz de espírito vindo dela. Aquelas eram lembranças vivas apesar de tão antigas. Deixou-se pelo menos curvar a sua memória só pra admirar a peça cósmica brilhante no céu.

Atentou-se ao seu forte brilho até se distrair com uma surpresa em movimento. "Uma estrela cadente" pensou, que acabara de deslizar no oceano marinho banhado de luzes. Se sentiu como uma criança naquele momento, como se descobrisse que o céu estivesse sempre lá e fosse algo constante sobre sua cabeça. Piscou e percebeu que realmente havia passado pelos seus olhos algo que só ele conseguiu admirar, portanto, ninguém havia visto o mesmo fenômeno que ele. Todos ainda estavam distraídos com suas próprias falácias e nada daquilo tinha sido captado, além de Joaquim que teve um lapso de emoção enquanto processava o que acabou de presenciar. Um evento singular para o adolescente e ele se sentiu exclusivamente fascinado.

Não durou muito até que o prefeito aparecesse para cortar a fita. Joaquim retomou seu silêncio facial rapidamente e se lembrou do convite que aceitou, porém, a voz de seu pai sobre os julgamentos de tudo aquilo entoaram feito ruído em sua mente. Ele retornou a sua essência de anos e se via novamente obrigado a estar ali. Esqueceu da fascinação recente.

A fita foi cortada e os flashes das câmeras estrondosamente brilhantes iluminavam a face do prefeito, assim como também a fita que se encontrava no chão. Aplausos e sorrisos cantavam junto do relógio da praça que entoava um sonido clássico. Eram oito horas da noite.

Todos já estavam sentados em seus lugares. Alguns ainda transitavam pelos corredores para procurar companhia, ou parentes que não moravam em Santa Torre e estavam de turismo numa cidade pouco conhecida na década de 50. Mas era Natal, tudo poderia acontecer. As luzes estavam acesas e o palco vazio.

Joaquim estava no meio da plateia, solitário, mas com a brecha de uma poltrona que o separava de um casal de senhores à sua esquerda, que discutiam em sussurros coisas que ele não era capaz de entender. Segurava em suas mãos um panfleto dobrado. Enunciava em letras minúsculas que tudo aquilo era um oferecimento da prefeitura, como um presente de Natal para Santa Torre. Estava preenchido por uma fotografia de uma orquestra e um maestro de costas segurando a sua vareta de frente para as partituras.

Os dedos do adolescente tocaram o livro que estava em seu bolso, esperando ser usado, mas ao mesmo tempo o prefeito estava se anunciando no microfone. O discurso de Natal não chamou a atenção de Joaquim como chamou em todos naquele teatro. Sabia que se tratava de um breve anúncio da apresentação e que aquilo tudo era um presente de natal para os moradores daquela cidade, assim como descrito no panfleto. Nada importava toda essa comemoração junto das famílias, não sentiu falta de estar em família. Sua própria companhia era a sua âncora e sua suficiência naquele instante.

Um último coral de aplausos ecoou no teatro antes do prefeito descer do palco e sentar na primeira fileira com sua esposa. As luzes tornaram o ambiente totalmente focado para o que estava por vir. Apenas dois holofotes nas laterais do espaço iluminavam o piso de madeira polida. A orquestra, que se encontrava no proscênio um pouco abaixo do palco, se posicionava para executar as primeiras notas. Uma melodia como canção de ninar vinda do piano inundou o ambiente, fazendo com que os sussurros que ainda restavam desaparecessem por completo. Em questão de segundos, uma jovem bailarina surgiu pela coxia direita e introduziu sua valsa solo. Ela brincava nas pontas dos pés encostando delicadamente no piso e suas mãos conduzindo o ar como se pudesse acariciá-los. Seu tronco que antes estava ereto, se inclinava para baixo quando a música tendia a crescer, em sincronia de sua cabeça que sempre se mantinha erguida. Sua dança estava delicada em harmonia com o violino que entrava logo em seguida.

Seu vestido era leve como uma pétala, branco, quase da cor de sua pele, e estava agarrado em seus pulsos um pano delicado, que era a representação de um véu e de asas. Seus cabelos presos em um coque na nuca eram firmes a cada movimento de sua cabeça. Sua franja convidava a olhar sua íris azul-esverdeada. Seus lábios rosados estavam entre abertos para respirar, expondo delicados dentes. Sorria de vez em quando, principalmente quando se encontrava imersa na sua missão.

Ela conduzia toda uma admiração por parte do público, que ficava em silêncio apenas vislumbrando toda a linda expressão vinda da bailarina. O humor de euforia desapareceu e tudo se tornou épico, clássico, calmo, como se estivessem deitados admirando o céu e ela fosse um pedaço da lua. Era como se em cada movimento, fosse possível ler as partituras, como se seus pés pudessem transmitir, de maneira viva, o som de cada nota.

Joaquim não tocou, ou pensava em tocar novamente, no seu livro de bolso para o seu suposto tédio, pois se encontrava hipnotizado outra vez, consumido pelo deslumbre, assim como estava a pouco tempo fora do teatro, quando admirava a estrela cadente. Sua atenção não se desviaria um milímetro nem se tentasse, pois encantado estava em contar com as sensações para admirar aquele encanto magnético. Seu coração era quente, desperto, corado com tamanha beleza da jovem moça.

Já ela, a bailarina, conduziu toda a sua formosura em giros calmos e precisos. Nada poderia se decifrar vindo dela a não ser seus movimentos. Sua coreografia era a reflexão do vento, do leve, daquilo que não se pode prender, porque sempre estará voando. Tão leve como o nada e tão caloroso como o tudo. Já o jovem rapaz, estava perdidamente apaixonado. Sentia-se sortudo e lúcido do convite de dona Alameda para ser um telespectador daquela envolvente dança. Não prestou lembranças do seu preconceito e rompeu com o muro que o impedia de ver a beleza disso tudo. Estava mais do que atento a cada movimento, vidrado com toda a perfeição.

Por um instante, tudo se cegou. O teatro, que antes estava lotado, para o campo de visão de Joaquim estava vazio. Uma espécie de distinção dominou toda a sua vista e entrou em estado de ilusão forjado por sua própria mente, sem ao menos ter ciência disso. Mas a música e a dançarina ainda estavam lá, conduzindo o som para passos mais leves a ponto de parar e encarar o jovem menino de cima do palco. Ela não piscou. A troca de olhares foi significativa para Joaquim memorizar seus detalhes em pessoa. Sua pele agora brilhava e uma luz a cercava por detrás do véu, mesmo não tendo holofote algum ali. Mãos delicadas inclinadas ao horizonte desciam levemente pelo seu tronco e logo apontavam em direção do adolescente. Parece que ela também se esquecera do que deveria cumprir, pois seus movimentos já não estavam mais sendo executados.

A bailarina desceu do palco e em pequenos passos flutuava na direção do jovem. Enquanto que ele não se questionava pelo o ocorrido, pois estava imerso e cedido pelo encantamento. Antes ele só olhava para o chão, agora seus olhos estavam em destaque na direção da menina envolto do véu. O holofote, que antes brilhava apenas a moça, agora iluminava o jovem casal unido. Ele se colocou de pé, comovido, mas não sentia os seus tornozelos.

Ela fez uma movimentação com o braço de modo que o ar estremeceu e o convidou para segui-la. Sua voz ecoava um “venha comigo” em forma de sino. Explodiu a atmosfera do ego na mente do menino e agarrou-se ao convite, sem hesitar. O chão deixou de existir no momento em que seus dedos encostaram nos da bailarina. Sentiu a fina textura desconhecida e um frio convincente. O sorriso que ela transbordou também deixou o garoto desconhecido do que sentia e seu estado era de êxtase absoluto. Não estavam mais os dois sob um teto, agora seu novo céu era infinito. Eles se transportavam em uma velocidade indiscutível. Nada podia mantê-los no chão, se é que havia aonde pisar, e estavam os dois envoltos daquele flutuar. As estrelas eram a plateia daquele espetáculo e a lua o grande farol.

Era possível olhar lá de cima toda a cidade de Santa Torre. Nunca passou pela cabeça de Joaquim o quão grande era a torre do relógio que ficava na praça. Era alta, mas não tão alto quanto eles. A cidade parecia dormir com as luzes apagadas, mas na verdade era porque todos estavam no Teatro, um dos únicos edifícios com luzes acesas além dos postes na praça. Dali era possível ver a Baía de Guanabara que os separavam do Rio de Janeiro, mas eles não tinham a dimensão do quão perto estavam da cidade grande.

Parecia um sonho. Joaquim não pensava em perguntar como estava longe do chão, como poderia não ter asas e fazer parte do ar. Mas ficava fascinado com a sua capacidade de ir sempre mais longe.

Pela primeira vez, o menino sorriu. Seu doce sorriso deixou leve não só os seus pés, mas toda a correnteza do ar que o sustentava. Sorria porque estava imerso no seu sonho mais secreto, tal qual ele ainda não descobriu, porque nunca se perguntou sobre. Mas estava realizando todos os seus desejos, desde de pedidos para as estrelas quando criança até os pensamentos mais secretos e bobos que escapavam por sua dureza. Era possível enxergar a bailarina através do âmbar, agora vivo mais do que nunca, dos olhos de Joaquim. Pareciam fogos de artifícios nas nuvens.

A melodia ainda os perseguia e estava cada vez mais próxima deles. Ela ousou saltar no ar com a sua dança. O véu de seus pulsos fazia contato com o vento e voava atrás dela como cortinas. Ela voltou a dançar em passos mais passivos, poucos giros e mais movimentos mensageiros ao vento. Sempre que conseguia, apontava a cabeça para a lua. O jovem Joaquim estava apenas flutuando, sem sentir seu corpo, admirando ela se expressar da forma como queria. O espetáculo agora era exclusivo dele.

Pedaços das estrelas que estavam no céu começaram a se aproximar do menino e o empurraram em direção à moça. Ele hesitou um pouco porque tinha a lucidez da sua falta de talento para dançar. Por conta dessa consciência teve medo de ser derrubado pelo vento, mas conseguiu chegar próximo da moça e de imediato o incerto desapareceu. Ela colocou seus braços em volta de seu pescoço e ele forçava a se lembrar do que poderia fazer em seguida. Mais uma vez teve de ter ajuda das estrelas, que pinicavam em seus dedos e os posicionavam na cintura da bailarina. Ele estremeceu pois nunca havia tocado em uma garota antes, não sabia como agir ou respirar, principalmente perto dela. As estrelas o ajudaram a movimentar seus pés numa valsa tão simples e ela o seguiu sendo conduzida. Joaquim descreveu aquele momento em sua mente como um deslumbre estelar. Eles dançaram a mesma música de ninar que havia tocado no início da apresentação. Trocavam olhares e não os desviavam nenhum centímetro. Não queriam sair daqueles compassos. E absorveram todos os incontáveis minutos diante daquela noite de verão.

O abafado som de aplausos fez com que Joaquim abrisse os olhos e fosse abatido pela luz ambiente. Seus braços pareciam se remexer em euforia e seus pés não estavam prontos para sustentar seu corpo. Um ponto de sua visão estava em desequilíbrio, a sensação era como se estivesse de cabeça pra baixo por muito tempo. Seus lábios formigavam de sede e sentia frio na nuca. Também sentia seus ossos tremerem, mesmo sendo verão. Chegava a ser incompreensível.

Não havia mais música, apenas aplausos e pessoas em pé, sorrindo em direção às cortinas vermelhas posicionadas em cima do palco. Não tinha nada além disso. A orquestra fazia reverência mais do que o recomendado e as palmas prolongavam-se. Joaquim se sentia tonto e com a cabeça latejando. Ele nunca embebedou-se, então não podia compreender o que teria acontecido. Tentou se levantar, mas precisava se apoiar na poltrona à sua frente, onde estava uma criança sentada mordendo os dedos. Ele era o único que não estava aplaudindo e não conseguia, porque ainda estava se recuperando de uma recaída que seu corpo sofreu. Era jovem demais para infartos, foi o que passou rapidamente pela sua cabeça. Mas não foi infarto, Joaquim era saudável.

Alguns minutos depois, os habitantes de Santa Torre saíram moderadamente do teatro. Joaquim permanecia mais alguns minutos sentado tentando se recuperar e respeitava seu próprio limite, afinal não teria a quem pedir ajuda já que não falava com ninguém na cidade. Quando passou cerca de trinta minutos, o teatro só tinha a presença de alguns homens da orquestra e do prefeito. Ele confiou em seus sapatos para se levantar e se firmar, conseguiu por fim. Já não tremiam mais seus ossos, mas fragmentos do êxtase ainda estavam em suas veias. Tomou coragem para ir até os músicos e perguntar pela bailarina, mas sua dureza também exalava timidez. O prefeito viu o rapaz se aproximando e o cumprimentou antes que Joaquim tivesse a coragem de falar com ele.

"Como vai, Joaquim? Gostou do espetáculo?" Perguntou o homem sendo atencioso com o menino. Joaquim apenas acenou com a cabeça e pôs as mãos em seus bolsos da calça. "Queres que eu o acompanhe até sua casa?" Perguntou novamente.

"Agradeço, mas não, vou caminhando" Respondeu firme, mesmo sem exigir isso de si. Tomou coragem: "Devo perguntar, como se chama formosa dançarina de hoje?"

"Não me preocupei em saber, ela estava acompanhando a orquestra. Acho que já partiu de volta para o Rio de Janeiro. Encantadora ela, não?" O prefeito permaneceu com os punhos posicionados atrás das costas e arqueou as sobrancelhas quando olhou pro menino. Ele agora também estava firme em seu olhar. Acenou concordando. O menino sabia que não poderia revelar o que sofrera agora pouco, mesmo se quisesse, mas as palavras estavam faltando em sua língua toda vez que tentava rememorar tudo aquilo. Não sabia o que fazer com essa experiência e duvidara se fora real. Então partiu, decepcionado:

"Boa noite, senhor prefeito. Obrigada pela noite!" Disse já caminhando em direção a saída do teatro.

Os moradores ainda estavam por lá. Havia um rádio pequeno pendurado dentro da torre que soltava umas músicas da época. Alguns esbravejavam risos com as fofocas e outros dançavam, como se estivessem em um carnaval. Todos estavam felizes, menos Joaquim. Se sentiu por um momento desolado por não encontrar o porquê do que acabou de viver, toda a sua dureza entrava em conflito com a sua nova pessoa. O seu eu de sempre talvez estivesse sempre por lá, só precisava ser desencadeado. O eu-sonhador que nunca conheceu e que hoje presenciou o seu nascimento.

Olhou para o céu e se sentiu pela primeira vez em casa, pertencido e acolhido, mas não totalmente contente em estar pisando no chão outra vez. Alguns instantes depois foi até os fundos do teatro para ver se poderia encontrar a bailarina, mas foi barrado por uma porta de aço trancada a três cadeados resistentes. Pensou em esperar nos degraus do teatro, mas uma hora depois de espera, o trancaram por dentro. As pessoas que agrupavam em frente ao edifício logo começaram a se retirar para as suas casas e a Praça do Relógio ficava cada vez mais deserta. O prefeito saiu pelos fundos ainda conversando com alguns músicos e encontrou o menino nas escadas. Pensou que estava bêbado, mas na verdade estava frustrado. Ofereceu novamente uma carona e o menino aceitou por fim. Não sabia se estaria disposto a caminhar com toda angústia se alastrando por todo o seu eu.

Naquele mesmo dia, não dormiu, ficou na sua varanda olhando para o céu da mesma forma que sua mãe tinha o hábito de admirar a noite. Já era de madrugada e não jantou. Dona Alameda só retornaria a Santa Torre após o natal e sua casa ao lado estava trancada. Para se virar, comeu as quentinhas que ela deixou quando sentiu seu estômago roncar. A cidade dormia em silêncio enquanto ele permanecia acordado. A noite de verão era a sua única amiga e ele tentava retomar toda aquela experiência, mas fracassava quando não enxergava com clareza os olhos marcantes e de cor esverdeada na sua imaginação. Ele sabia que tudo tinha sido real, mas não sabia como provar isso a si mesmo.

Quando conseguiu dormir, sonhou com todas aquelas memórias e agarrou-se a elas com a esperança de que a encontraria outra vez. Mas infelizmente, não conseguiu. Meses mais tarde, se mudou, por fim, para o bairro de Vila Isabel, no Rio de Janeiro, junto de Dona Alameda, que precisou estar mais próxima da filha por questões financeiras. Em 1956, conseguiu estudar Direito na universidade e trabalhava temporariamente em uma padaria. Aprendeu a fazer pão em forno e alguns bolos para confeitar. Em seu tempo livre, ia aos teatros, nos mesmos em que os músicos daquela noite se apresentavam, para ver se a encontrava e não obteve sucesso. Não era a mesma dançarina em todos os espetáculos e não reavivou encantamento algum.

Todas as noites as memórias daquela noite de verão o perseguiam e o deixava mais emotivo a cada dia. Consequentemente, passou a ser mais atencioso e sociável. Estava mais aberto para conversar com os rapazes das ruas de Vila Isabel, o que foi de grande influência para estagiar em empresas mais tarde. Mas ainda queria olhar pro céu e encontrar aquele conforto outra vez. Desejava mais que tudo.

Quatro anos mais tarde conheceu uma moça com o status elevado e se casou. Ela era bonita, elegante e transmitia um pouco de egotismo, algo familiar para ele. Se reconheceu um pouco na frieza do passado e se agarrou a ela novamente, mas sempre permanecia em embate com a sua nova pessoa. Existia um rosto mais corado pela vida em Joaquim. Ele não se via totalmente feliz ao lado dessa moça, mas aceitou para que desse um fim a sua incansável busca por aquele desejo. Teve dois filhos e permaneceu fiel e atento com a sua família. Dona Alameda morreu de velhice nos anos 70 e deixou marcado no rapaz todo o carinho materno que ele colheu vindo dela.

Nos anos 90, pensou em retomar a sua busca, mas sua esposa estava doente e ele teve de permanecer ao seu lado. Seus filhos se casaram e se mudaram para Portugal. Ficou sozinho com sua esposa até o fim. Ela morreu por conta de um tumor bem perto da noite de Natal. Ele se via de meia idade e sozinho, vivendo de forma dedicada à Advocacia. Se tornou Juiz no Tribunal no Rio de Janeiro e só veio a se aposentar aos seus setenta anos de idade.

Hoje, sentado na varanda de seu apartamento, em frente a uma praia não tão povoada, bem longe da cidade do Rio de Janeiro, outra vez em uma noite de verão, buscou novamente o melhor momento de toda a sua vida. Trouxe o conforto do único instante de êxtase que viveu e nunca se esqueceria. Não se preocupou mais em procurá-la, porque finalmente tinha a encontrado e soube que o tempo todo estava com ele. Era seu maior sonho, sua maior realização e sua melhor amiga. Joaquim sorriu, olhando para o céu, confortando-se. Acenou com faíscas, a formosa estrela cadente no céu que deslizava de encontro com o infinito.

AGRADECIMENTOS

Em primeiro lugar, Aquele que me guiou para que esse sonho fosse realizado e será para sempre o meu sustento para todas as situações: Jesus, eu te agradeço! Agradeço a minha mãe por ter sido a primeira pessoa que leu esse conto com um sorriso no rosto e sempre apoia qualquer sonho meu com orgulho no peito. E por ultimo e nem por isso menos importante, a pessoa que foi necessária nesse processo e revisou todo esse conto com muita alegria: Ayane Luiza, minha amiga e parceira de profissão, obrigada por ter aceitado esse desafio de coração aberto.

Susã Garcia

Susã Garcia é uma jovem estudante carioca de Letras-Literaturas (recém ingressa na UFRJ) e escritora nas horas vagas. Se considera uma "pessoa pensante demais" e aproveita da escrita para dar um lar a cada pensamento seu. Além de leitura, gosta de música e cinema, e desfruta disso como inspiração para criar. Descobriu que queria ser escritora quando um professor a elogiou, reconhecendo em suas aptidões fortes traços literatos. Longe dos estudos e da escrita, a sua atenção vai para os instantes relaxantes: podendo ser com amigos quando estão por perto ou apenas sozinha com uma xícara de café com leite, considerando esses como seus "momentos de ouro".

Created By
Susã Garcia
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Credits:

Criado com imagens de Vladislav83 - "ballet girl dance" • rkarkowski - "moon full moon sky" • sebastiangoessl - "theater chairs red" • Vladislav83 - "ballet flight dance" • barkuk - "skyscape night time stars"