Esse relatório tem como objetivo sistematizar os conhecimentos gerados pelos Projetos Referência dos grupos que passam pela Formação Integrada para Sustentabilidade no contexto do Mestrado Profissional em Gestão para Competitividade da FGV EAESP.
Formação Integrada para Sustentabilidade
MISSÃO . criar condições para fazer emergir um sujeito consciente e engajado consigo mesmo, na relação com os outros e com o todo, com sensibilidade, inteligência prática e fundamentação teórica em sustentabilidade.
Como a Formação Integrada funciona na prática?
Compreendemos que aprender é uma capacidade intrínseca e constantemente presente em nossa vida. Estamos sempre, como aprendentes, nos desenvolvendo, em constante processo de produção de nós mesmos num processo que se dá de maneira integrada: pelo o que nos acontece de fora para dentro, e pelo que percebemos, sentimos e compreendemos de dentro para fora. Visando a emergência deste sujeito mais integrado, nos baseamos em em princípios da Transdisciplinaridade, buscando combinar conteúdos e atividades que promovam:
Espaços para o processo pessoal de produção de sentidos de cada sujeito (autoformação), para troca e aprendizagem pelas relações do grupo (heteroformação) e para aprendizagem pelo contato com o ambiente e o conjunto de relações complexas que nele acontecem (ecoformação).
Condições para a vivência e a expressão do conhecimento por meio não apenas de conceitos e teorias (razão formal), mas também por meio de projetos aplicados, viagens de campo e outras experiências práticas (razão experiencial) e atividades de cunho corporal, artístico, reflexivo e contemplativo (razão sensível).
Nosso processo estrutura-se ao redor de dois eixos:
Projeto de Si Mesmo: atividades, vivências e conceitos que buscam provocar nos alunos uma percepção ampliada de si mesmos, dos outros e da realidade, ativando, expandindo e contribuindo com a apropriação do seu potencial sensível/perceptivo, reflexivo e criativo. Ao longo dos três semestres da Formação Integrada esperamos que os alunos possam:
- Desenvolver linguagem para perceber, abordar e atuar numa realidade complexa (multirreferencial e muldimensional);
- Integrar a dimensão subjetiva e sensível como fonte de conhecimento;
- Incorporar o diálogo como atitude de abordagem ética;
- Reconhecer a complexidade da realidade e identificar seus diferentes níveis e perspectivas/paradigmas.
Projeto Referência: projetos voltados a desafios reais, onde conhecimentos de gestão possam ser ampliados e aplicados sob a ótica da sustentabilidade. Os semestres I e II terão um Projeto Referência diferente, o qual será proposto e selecionado pelo próprio grupo. De maneira geral, o tema do PR deve estar relacionado à dimensão trabalhada no semestre e oferecer uma entrega prática e aplicável. Por seu caráter altamente prático e experiencial, o PR oferece uma oportunidade singular para o grupo entrar em contato direto com situações complexas, que envolvem diversas realidades, atores e variáveis, e onde não há respostas óbvias e prontas. Ao final do semestre, a entrega do projeto é apreciada por convidados externos e avaliada pelo próprio grupo e pelos professores da disciplina, conforme critérios de avaliação detalhados abaixo. Por meio do PR, esperamos que os alunos possam:
- Ampliar sua percepção sobre a realidade e suas relações, por meio do entendimento e da busca por soluções práticas a desafios reais da sustentabilidade;
- Conectar os conceitos e ferramentas que estão na fronteira do conhecimento em Sustentabilidade com suas práticas de gestão;
- Integrar conhecimentos dos diferentes temas da sustentabilidade e da gestão, com visão crítica e sistêmica.
- Atuar como agentes de mudança e transformação rumo ao desenvolvimento sustentável.
O percurso para este processo de trabalho é baseado na Teoria U: desenvolvida por Otto Scharmer e outros pesquisadores da área de Aprendizagem e Mudança Organizacional do MIT, “a Teoria U propõe que a qualidade dos resultados que obtemos em qualquer sistema social é consequência da qualidade de percepção e consciência a partir da qual operamos nestes sistemas.” (Presencing Institute) Trata-se de um framework; um método para liderar mudanças profundas; e uma maneira de ser – conectando aos aspectos mais autênticos e elevados do indivíduo.” Como processo, a Teoria U propõe três macro etapas: (i) Observar, observar, observar ("descida do U"): investigar e compreender um sistema de dentro dele, interagir com os stakeholders chave, abrir-se à escuta, sentir; (ii) Retrair e refletir ("meio do U"): silenciar para conectar-se consigo mesmo e com sua fonte sensível de percepção e criatividade (Presencing); e (iii) Agir em um instante ("subida do U"): deixar emergir resultados inovadores colocando em prática as soluções possíveis - ainda que em forma de protótipos - e aprendendo com elas.
SAIBA MAIS ACESSANDO NOSSOS VÍDEOS
Investigação e escuta
“Há um véu entre as classes, entre as casas, entre os bancos.
Há um véu, uma cortina, um espanto que, para atravessar, só rasgando.
Atravessando a parede, a invisível parede, apareço no palácio, na tela, na janela da celebridade, mas minha palavra não sou só eu, minha palavra é a cidade.
Mundão redondo, capão redondo, coração redondo na ciranda da solidariedade
A rua é noiz, cumpadi
Quem vê só um lado do mundo só sabe uma parte da verdade
Inventando o que somos, minha mão no jogo eu ponho, vivo do que componho, sou milionário do sonho”
Emicida - “Milionário do Sonho”
Questões e inquietações iniciais
- Qual é o perfil de diversidade racial em instituições de ensino superior no Brasil?
- Qual a correlação entre exclusão racial e renda?
- Quais elementos envolvem a inclusão racial nas universidades a, partir do olhar do negro?
- Como o negro se enxerga como parte integrante e frequentadora de uma universidade?
- Como brancos, quais são nossos privilégios? O que é branquitude?
- Como se dão as trajetórias acadêmicas e profissionais de lideranças negras?
- Em que aspectos a inclusão racial pode gerar valor no ambiente universitário, tanto em relação ao aprendizado formal quanto no informal?
- Como lidar com o tema de maneira propositiva, considerando as oportunidades?
- Quais são os argumentos pró e contra dos mecanismos de cotas raciais nas universidades;
- Quais são os principais aspectos racionais e subjetivos, como o preconceito racial, que geram sub-representação das pessoas negras nas universidades?
- Na FGV, qual é a realidade de diversidade étnico e racial? Quais os mecanismos que estão contribuindo para um aumento ou diminuição da diversidade?
Fontes de investigação (stakeholders envolvidos, bibliografias, dados secundários etc) e Formas de coleta de dados (kick off, entrevistas, observações)
Atores/stakeholders envolvidos
- Alexandra Loras - Negra, Consulesa da França, apresentadora de TV e jornalista
- Alessandra de Cássia Laurindo - Negra, Coordenadora de Promoção da Igualdade Racial do Município de São Paulo
- Anderson Carvalho* - Branco, Empreendedor Social e fundador da Protagonizo.com
- Danilo Santos* - Negro, Administrador, recém-formado pela FGV
- Dr. José Vicente* - Negro, Reitor da Universidade Zumbi dos Palmares
- Patrícia Santos* - Negra, Sócia fundadora da Empregueafro
- Rodrigo Santos Fernandes* - Negro, Consultor de Marketing, Diversidade e Responsabilidade social
- Mariana Rocha* - Negra, pesquisadora do CEDEA-FGV
- Marcio Macedo - Negro, professor da FGV
- Fernando Luiz Abrucio - Branco, Coordenador do Curso de Graduação em Administração Pública, FGV EAESP
- André Carvalho - Branco, Vice-coordenador do Curso de Graduação em Administração, FGV EAESP
- Camila Soueneta, Negra, integrante do Núcleo de Pesquisa em Gênero, Raça e Sexualidade da USP (Genera)
- Reinaldo Bulgarelli, Branco, pesquisador e consultor em diversidade
(*) Estes atores também estiveram presentes no kick-off.
Atores/stakeholders do sistema investigado:
Beneficiados:
- Alunos negros de escola pública, próximos ao período do vestibular
- Alunos brancos FGV
- Alunos negros FGV
Viabilizadores:
- Coordenadores dos cursos de graduação e pós-graduação
- Fundo de Bolsas FGV
Influenciadores/Apoiadores:
- Lideranças negras com carreira consolidada
- Professores influenciadores
- Coletivos de alunos negros
Principais aprendizados e insights
A partir das entrevistas individuais realizadas, kick-off do projeto e materiais lidos/assistidos, o grupo pôde perceber diversas questões sobre o sistema. A aula ministrada pelo professor Wilson Nobre foi um momento fundamental para o grupo refinar e consolidar todos os insights obtidos na descida do U.
O principal insight obtido ao observar o sistema, muito relacionado com o poema “Milionário do Sonho”, exibido no início deste texto, é que: existem barreiras visíveis e invisíveis em nossa sociedade, fazendo com que grupos sociais tenham uma visão apenas parcial da realidade e não consigam vislumbrar “o outro lado do muro”.
Neste sentido, podemos observar isso por meio de uma enorme desigualdade social em nosso país. O Brasil, é o décimo país mais desigual do mundo, segundo o Relatório do Desenvolvimento Humano, das Nações Unidas (2016). E, devido às questões históricas de formação econômica por meio de um regime de escravidão, essa desigualdade é refletida e reforçada no quadro racial.
Segundo Horácio (2014), “a discriminação a partir das definições de ‘raça’, passou a contribuir com a desigualdade econômica do negro, de forma objetiva, se tornou ferramenta essencial para proliferação da desigualdade econômica.”
Podemos notar esse fato por meio de uma série de indicadores sociais. A renda média de uma pessoa negra no país, por exemplo, é ainda a metade da renda média do branco. Desdobramentos em outros setores, como segurança saúde e educação, reproduzem essa lógica perversa no país. A tabela abaixo, contendo dados de 2017 do PNUD, apontam algum deles:
Dados alarmantes do Índice de Vulnerabildade Juvenil à Violência e Desigualdade Social (2014) apontam que os jovens negros no Brasil são duas vezes e meia mais vítimas de homicídio do que o jovem branco. Podemos observar a gravidade deste dado, ao perceber que o número de homicídios está aumentando no país e que o Brasil tem a sétima maior taxa de homicídios de jovens.
No caso específico de educação, recorte objeto de nosso estudo, as desigualdades sociais ligadas à etnia estão muito presentes. A proporção de brancos com mais de 18 anos com ensino fundamental completo é de 62,14%, enquanto que, para negros, é de apenas 47,78% (PNUD, 2017).
No caso do ambiente universitário, pudemos observar um aumento do acesso da população negra. Apesar disso, a proporção de negros em universidades é ainda menor, mesmo que represente a maioria da população.
Em 2000, havia apenas 6,3% de estudantes pretos e 8,4% pardos entre 18 e 24 anos frequentando universidades; em 2010 esses percentuais saltaram para 30,4 % (pretos) e 27,8% (pardos) – mas a prevalência de estudantes brancos no ensino superior é 60,7%. No caso de faculdades mais caras, ou de difícil acesso devido à alta concorrência, o acesso à população negra é muito restrito. No caso da Universidade de São Paulo (USP), por exemplo, o número de pretos ou pardos matriculados em 2016, era de apenas 14%.
Por meio das entrevistas e conversas realizadas, podemos observar como essa realidade afeta subjetivamente jovens negros e brancos.
Danilo Santos, ex-aluno negro da FGV, que vivenciou e estudou a baixa presença de negros na EAESP, nos forneceu um relato impactante sobre a subjetividade de alunos brancos e negros em escolas públicas. Ele realizava visitas para incentivar alunos a entrarem na FGV e publicou um vídeo no Youtube, como iniciativas com o objetivo de fazer com que estes estudantes tomassem conhecimento da universidade, da possibilidade de acessar o Fundo de Bolsas e mesmo desmistificar um ambiente que ainda não é visto como “um lugar para eles”:
“Ao perguntar para um aluno branco pobre de escola pública o que ele quer fazer quando crescer, eles respondiam “quero ser médico, ator, empresário”, ao realizar a mesma pergunta para um aluno negro, eles diziam “pedreiro, mecânico, porteiro”.
Outro relato importante, foi quando Danilo foi aos Estados Unidos e viu, em Washington, negros e negras bem vestidos, dirigindo carros de luxo. “Aquilo foi muito impactante pra mim. Ficava impressionado com a quantidade de negros dirigindo carrões e com mulheres negras ao seu lado. Coisa que no Brasil é inimaginável.”
Segundo Danilo, até 2000 a FGV não formou um único estudante brasileiro negro em seus cursos de graduação. Adicionalmente, a FGV nunca formou uma mulher negra. O que nos chama a atenção é a dificuldade de se obter este tipo de métrica na FGV. Não encontramos dados para analisar o número de negros que entram, desistiram ou concluem a graduação, o que mostrou-se ser uma dificuldade comum no tema, conforme relataram stakeholders ouvidos que já se debruçaram sobre o tema Mesmo a coordenação da graduação, quando procurada pelo grupo, informou que não possui os dados, mas pareceu disposta a contribuir para a pesquisa.
Na roda de conversa do kick off do projeto, ficou muito clara a responsabilidade de se realizar uma intervenção que possa causar impacto. Segundo o Dr. José Vicente: “Enquanto estamos aqui sentados, há crianças nas ruas passando fome e há crianças e jovens negros sendo vítimas de uma guerra que ocorre agora na favela da Rocinha. Temos que tomar nossa responsabilidade por todos os brasileiros e brasileiras. Os jovens são a esperança para o nosso futuro e estamos desperdiçando este recurso. Temos que tomar a nossa responsabilidade para construir um mundo melhor. É preciso mudar a cabeça e sair do mito.”
A participação dos brancos em movimentos de transformação desta realidade foi outro tema abordado no kick-off e que se destacou muito para o grupo, desde o momento inicial desta jornada, quando o fato de sermos um grupo de cinco brancos e um amarelo contrastava com o tema que havíamos escolhido. Como essa inquietação emergiu desde o início e de forma muito natural, transformamos isso em perguntas aos stakeholders que consultamos ao longo do processo de descida. De maneira geral, ficou clara a importância da participação do branco nesta luta, porém reconhecendo seu papel e lugar de fala. No kick-off, o assunto voltou a ser abordado: “Quem fez diversas mudanças que permitiram maior inclusão foram brancos, como as leis de cotas no Brasil, a eleição de Obama nos EUA foram brancos e eles têm que assumir também o papel de protagonistas.”, abordou Dr. José Vicente. Ou seja, a partir do reconhecimento que a desigualdade étnico-racial coloca brancos em posição privilegiada, podemos e devemos ter o papel de nos articular a partir desta posição para contribuir com a mudança deste cenário.
Essa percepção alinha-se muito ao que foi levantado por Mariana Rocha, a respeito do privilégio que os brancos não percebem ou não fazem questão de perceber: “Racismo é uma moeda de duas faces. Se há desvantagem para os negros é porque na outra face está a vantagem para os brancos. O tempo todo esta dicotomia é levantada mas não se discute o privilégio dos brancos. Os brancos podem falar disto (preconceito) no seu lugar histórico de vantagem. Ver sob o aspecto da branquitude com um ponto. Não é correto falarmos que não há negros na GV. Há negros na limpeza e precisamos fazer com que eles tenham condições mínimas, como um salário justo, para seus filhos possam estudar aqui (FGV).”
Através da lente do privilégio, notamos que a visão é distorcida pela lentes da branquitude, que pode ser assim definida: “a branquitude como um lugar estrutural de onde o sujeito branco vê os outros, e a si mesmo, uma posição de poder, um lugar confortável do qual se pode atribuir ao outro aquilo que não se atribui a si mesmo”. (Frankenberg, 1999b, pp. 70-101, Piza, 2002, pp. 59-90). Pode-se inferir que o privilégio é uma das causas da baixa diversidade nas universidades.
Encontramos também pesquisadores que levantam a questão de que, até certa época, o racismo no Brasil era abordado apenas como uma questão dos negros, posição que predomina ainda hoje, mas com uma mudança em curso. Ou seja, os brancos, incluindo pesquisadores do tema, reconhecem a questão do racismo, mas não enxergam, ou ao menos não comentam, que além das vítimas do preconceito racial também é preciso abordar esta questão entre as pessoas brancas e discutindo o papel dos brancos no racismo. Inclusive, tanto pesquisadores acadêmicos quanto pessoas com quem conversamos levantam a questão de o branco no Brasil ser “desracializado” -- ou seja, uma pessoa negra é um indivíduo negro; uma pessoa branca é apenas um indivíduo.
Em artigo em que relata experiências de formação a respeito de raça em sindicatos em São Paulo, Maria Aparecida Silva Bento levanta questões relevantes acerca da percepção diferenciada de negros e brancos sobre o tema. “Para vítimas de racismo, a consciência do impacto do racismo nas suas vidas é dolorosa e, frequentemente, gera raiva. Para brancos beneficiados pelo racismo, uma consciência ampliada disto gera raiva ou sentimentos de culpa. Evitar a questão racial é uma maneira de evitar estes sentimentos de desconforto.”
Ainda analisando a experiência dessa formação, Bento conclui: “Não apenas negros devem fazer palestras, mas também pessoas brancas que fizeram um compromisso de ruptura com o abandono do racismo. Estas pessoas poderiam oferecer um modelo para outros brancos, em busca de novas maneiras de entender a sua própria branquitude.”
Ou seja, é preciso racializar as pessoas de pele branca (ou que se autodenominam brancas), além de abordar a questão das diferenças, diversidade e racismo falando de todos os seus “lados”, e não apenas do indivíduo negro como vítima do sistema por herança da escravidão.
Também há pesquisadores que rechaçam a suposta “democracia racial” brasileira, muito defendida por obras basilares para o estudo de História do Brasil, como “O povo brasileiro”, de Darcy Ribeiro, e “Casa Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre, e consideram esta questão como primordial para analisar a permanência da desigualdade racial e de sua análise rasa: “Esse mito, ao longo da história do país, vem servindo ao triste papel de favorecer e legitimar a discriminação racial” (BENTO, 2016).
Patricia Santos, diretora da EmpregueAfro, defende a busca da objetividade através das coletas de estatísticas que permitam embasar um diagnóstico. Segundo ela, é fundamental entender quantos negros entram nas universidades, quantos desistem, quantos prestam vestibular, quantos se formam. “Os métricas ainda são muito pobres e é importante entendê-las para estimular outros jovens utilizando caso de pessoas negras de sucesso.”
Alessandra reforçou a necessidade dos brancos assumirem seu papel e responsabilidade para mudar esta condição. Fica novamente clara a necessidade de se realizar uma intervenção que tenha um impacto relevante, continuado e sustentável: “O negro virou um mero objetivo de estudo. O que fica para dar a contribuição? O que fica para depois que o estudo acabar? Quando o negro fala é afro ativismo, quando o branco fala ele tem a capacidade de ser mais ouvido.”
No caso dos brancos, como nós, também é muito difícil entender essa realidade. Hoje, temos a consciência que, mesmo com todo tipo de informação, jamais poderemos entender o que é sentir na pele o racismo em suas mais diversas expressões.
Esse sistema afeta e muito as ambições e aspirações de cada grupo social. E por esse motivo, visualizamos a existência dessa barreira, que por vezes é visível ou por vezes invisível.
No sistema construído por meio da maquete, podemos observar um ambiente separado por duas realidades distintas: um lado mais harmônico, rico e de benefícios explícitos e outro [enxergado como] de caos, desordem e pobreza. A existência do muro fazia com que os habitantes de cada lado não enxergassem o outro. Era, ao mesmo tempo, um cenário de conflito e busca por maior integração ou “destruição do muro”, algo que nos dá esperança em buscar maior integração.
Como propósitos expressados pelo grupo, perante a observação do sistema e do desafio elencado, podemos listar:
- Contribuir para Ampliar a visão de todos presentes no sistema
- Contribuir para Eliminar ou diminuir a “barreira”
- Contribuir para Diminuir as “distrações”, que impedem uma visão ou consciência sobre a configuração do sistema
- Contribuir para Negros serem vistos como exemplo ou referência
Presencing: retrair e refletir
Sentimentos, sensações e insights individuais
Após a descrição dos insights e percepções que tivemos como grupo, também consideramos importante trazer voz individualmente àqueles sentimentos e sensações que emergiram em cada um de nós. Pela questão racial ser um tema que toca o indivíduo antes mesmo que ele se reconheça como tal, achamos essencial incluir aqui estas percepções individuais, indo além da sistematização da descida que fizemos nas seções anteriores. Assim, os relatos abaixo foram elaborados de forma livre, sem nenhum framework pré-estabelecido:
“Todas as vezes que eu tinha que preencher algum formulário em nome das minhas filhas, eu ficava incomodado com o fato de ter que responder o campo relacionado à raça. Eu sempre respondia como Amarelo Claro, e eu me perguntava como é que existia este campo em pleno Século XXI. Eu tinha uma visão de um Brasil diverso e elas eram exemplo claro desta diversidade. Meu erro é que a diversidade sem inclusão não é nada. Eu não ficava incomodado com o fato de não ver negros em várias locais que eles deveriam estar. Assim, eu não percebia como o meu próprio privilégio influenciava esta situação. Todas as conversas serviram para mostrar muito do que já estava escancarado na minha frente. Acho que um momento de epifania coletiva seja necessário para que esta percepção seja mais ampla. Foi incrível como o exercício da Teoria U demonstrou tão bem a situação que estamos vivendo. Não se pode desprezar a complexidade deste tema, mas o que se tornou forte dentro do meu peito, como um grande grito de tambor, é que precisamos tomar responsabilidade sobre nossos atos e atuar na criação de algo que perdure. Precisamos criar uma intervenção que busque deixar mais pessoas incomodadas com a baixa inclusão para criar um mundo com mais equidade para os negros”. “Lágrimas não são argumentos” (Machado de Assis).
Edson Matsuoka
“Este trabalho me veio com um chamado, uma convocação.
As conversas que tivemos durante a descida do U foram muito profundas me causando sentimentos dos mais diversos tipos. Alguns deles, ligados à raiva, tristeza e indignação e outros, muito bonitos, ligados à humanidade, irmandade e compromisso.
Pude notar uma grande abertura das pessoas negras em debater o tema e, mais do que isso, senti que em diversos momentos um convite foi estendido a nós: um convite a lutar, lado a lado com eles, por um mundo melhor para todos.
A fala do Dr. José Vicente, Reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, olhando para cada um de nós, onde foi explicado sobre nosso papel e responsabilidade para a construção desse mundo melhor, foi muito tocante para mim.
Hoje, independente deste trabalho, me sinto comprometido com essa causa, que envolve humanidade, amor e justiça.”
Bruno Barbosa
“Entre as diferentes experiências ao longo dessa descida, acredito que as falas de dois estudantes negros (um do passado e um do presente) estabeleceram as maiores conexões comigo - estudante branco neste mestrado sem estudantes negros. Por um lado, um estudante negro do presente - Danilo, recém-formado, falando das experiências recém-vividas por ele em uma universidade predominantemente branca e mostrando como situações de exclusão estão vivas para ele e para outras pessoas que ali convivem ou que nem tiveram a oportunidade de ali conviver. Do outro lado, no momento do kick-off, Dr. José Vicente relembrou o tempo em que era estudante para ilustrar o poder (e a responsabilidade) de transformação que nós temos: ‘Foi como estudante, incomodado com o pequeno número de negros na faculdade, que me veio à mente a semente da ideia de uma faculdade como a Zumbi dos Palmares.’”
Guilherme Teixeira
“O percurso mexeu comigo em tantos pontos que talvez ainda não tenha sequer percebido todos. Neste momento em que vivemos uma polarização em qualquer que seja o tema, o receio inicial de entrar num tema complexo e ainda estranho a nós, brancos, foi enorme, mesmo já tendo lido, ouvido e perguntado sobre esta questão antes. Parecia que antes era só uma indignação no sentido de perceber uma injustiça e desigualdade, que eu só precisava ouvir que isso existia e não tomar nenhuma atitude além da individual. Mas agora se tornou mais forte a percepção de complexidade, de que estou no mesmo sistema que acho injusto e, portanto, tenho enorme responsabilidade em transformá-lo. Todas as músicas que ouço, os ambientes que participo, eventos culturais, conversas sobre privilégios ganharam novo significado após as conversas e leituras. O sentimento de vergonha e até culpa deu lugar a um novo “lugar de fala”, que não quer roubar protagonismo em lutas, mas espalhar que as lutas existem e fazer parte delas do meu espaço; isso sem perder de vista o contexto histórico e os privilégios conferidos a mim ao longo de vários anos, mesmo com ascendência negra e indígena. Ubuntu. Eu sou porque nós somos.”
Cíntya Feitosa
“Não sei ao certo quando isso começou, mas por trabalhar com sustentabilidade e questões sociais, há alguns anos venho fazendo a pergunta ‘quantos negros e negras têm nos lugares aonde vou ? E se há negros ou negras, eles ocupam, qual posição de poder neste local?’ Quantos negros e negras estudaram comigo no colégio e na universidade? Quantos negros e negras eu tenho no meu círculo de amigos? Quantos negros e negras estão em posições de poder nos lugares aonde trabalho e trabalhei? Quantos negros e negras há no meu bairro, nos restaurantes que vou, nos lugares que frequento e nos cursos que me matriculo? Considerando todos os meus privilégios de ser branca, ter nascido no bairro que nasci, estudado em instituições de ensino particulares, a resposta é sempre parecida. Nenhum ou muito poucos negros e negras. E se há, estão em posições de servirem aos brancos. Algo está muito errado e é urgente que possamos falar disso explicitamente em todos os ambientes, não só nos ‘movimentos sociais’. Ao mesmo tempo, também confesso a minha ‘acomodação em meu privilégio’ de ter ficado muito mais no lugar de observadora.
Quando o Bruno lançou este mesmo incômodo dele no mestrado, fiquei feliz de saber que teria companhia nesta investigação do outro, de nós e de mim mesma. E a companhia do grupo tem sido muito gratificante e prazerosa.
O dia do kick off foi extremamente marcante e emocionante. Senti algo novo, de muita conexão e profundidade. O olhar profundo do Dr. José Vicente olhando fundo no meu olho, me trouxe algo de ancestral, que nos humaniza e nos conecta. A beleza das mulheras negras que estavam lá também me trouxe mais vontade de estar mais ‘misturada’. Confesso que independente da entrega do trabalho, algo dentro de mim aconteceu e vem acontecendo.
Que nós como grupo consigamos caminhar das transformações internas para as transformações concretas.”
Mariana Rico
"Me lembro exatamente do dia em que vi pela primeira vez uma das raríssimas fotos de um navio negreiro. Lembro da sensação que tive quando aquela imagem traduziu tudo que antes eu só tinha ouvido e lido nas aulas de história, onde praticamente só se falava da abolição, da Lei Áurea, e nunca da tragédia social que a escravidão foi de fato. Ver aqueles cerca de 200 homens negros vestindo trapos e imaginar o que viveram, do nascimento à morte, me deu arrepios.
Muito pouco ainda se fala sobre a dívida social que a população branca tem com a população negra. O racismo existe e é muito mais forte do que gostamos de pensar.
Participar deste Projeto de Referência está sendo uma experiência transformadora e agradeço pela oportunidade de me conectar com esse grupo e com todas as pessoas que conversamos nessa jornada. Muitas coisas foram marcantes, o dia do kick-off foi arrebatador.
O que mais me impactou foi uma conversa com Alexandra Loras, ex-consulesa da França no Brasil que, como negra, desde que chegou aqui se indignou com a condição do negro neste país. Segundo ela, o racismo é um monstro e no Brasil ele é velado e muito mais grave do que em outros lugares que conheceu. Ver a indignação daquela estrangeira, que teve acesso a uma boa educação e que sabe do quanto precisamos ainda evoluir para ter alguma coisa próxima de uma democracia racial foi extremamente impactante.
Sabemos que há muito o que percorrer, mas ter a oportunidade de enxergar com mais clareza esse caminho é algo que levarei comigo para o resto da vida."
Thiago Godoy
Desenvolvimento do produto final: agir em um instante
Processos de prototipagem
O “Golden Circle”, metodologia criada por Simon Sinek, do grupo para esse desafio é:
POR QUÊ?
- Percepção moral, de justiça
- Dívida
- Desequilíbrio de ocupação de brancos e negros no espaço acadêmico traz inquietação: tem algo errado
- Descolamento de contextos
- Fazer diferente: onde chegamos não está bom
COMO?
- Dar destaque ao tema
- Dar protagonismo a outras pessoas
- Reconhecendo privilégios: falar na condição de privilegiado
- Aceitar protagonismo
- Por meio de olhar diverso
- Por meio de dados concretos
O QUE?
- Fazer a diferença por meio de ação prática
- Perenidade
- Causar impacto
- Causar inspiração para futuro melhor
- Mover para ação e mudança de estrutura
- Criar referências inspiradoras
- Ressignificar
- Sensibilizar tomadores de decisão
Parte da apresentação utilizada no Workshop:
Golden Circle
Produto Final
Ao longo do percurso, identificamos que no ambiente universitário na FGV EAESP já havia iniciativas fragmentadas que buscam incentivar e sensibilizar para a questão da diversidade racial; nem todas efetivas, mas o tema de fato tem ganhado relevância e espaços começaram a ser criados para endereçar algumas das questões.
Diante do desafio de perenidade da entrega, além de protagonismo de estudantes negros, emergiu a necessidade de um produto final que auxiliasse o agrupamento e fortalecimento dessas iniciativas já existentes. Pela complexidade do tema e pela necessidade de reunir pessoas com protagonismo na causa, as possibilidades de entrega levantadas foram muitas, mas poucas nos deixaram confortáveis para seguir a partir do nosso lugar de fala, das nossas possibilidades de realização e da possibilidade de perenidade.
O produto final foi a facilitação da criação de uma coalizão que atue em questões de equidade racial na FGV, por meio da metodologia do Golden Circle (Simon Sinek) e que congregasse, além de alunos e professores da FGV, membros de empresas e outros interessados no tema, para que fosse um comitê que de fato engajasse atores influentes na questão e mobilizasse para ações em curto, médio e longo prazos.
Para constituição do grupo, realizamos no dia 10 de dezembro de 2017 um workshop que reuniu membros do coletivo negro da FGV (Coletivo 20 de Novembro), representante da Faculdade Zumbi dos Palmares, um aluno negro do Mestrado em Gestão para a Competitividade da FGV EAESP, um representante da EmpregueAfro e um representante da Protagonizo (consultorias especializadas em colocação profissional de negros) e membros de fundos alternativos que têm como objetivo manutenção de alunos bolsistas na FGV (GV Giving e Fundo Realiza). Outros interessados foram convidados e manifestaram interesse, estão engajados no projeto, mas não puderam participar das atividades por incompatibilidade de agenda, dentre eles o professor Marcio Macedo, da FGV, e Mariana Rocha, do CEDEA-FGV e representantes de várias empresas. Foram feitas diversas tentativas de contato com a Coordenadoria de Diversidade da FGV, sem qualquer retorno.
Resultados do Workshop e Golden Circle:
Apesar da ausência de representantes formais da FGV, consideramos que o objetivo final foi atingido, uma vez que nossa principal preocupação era ter adesão de coletivos de alunos da instituição. Tanto o Diretório Acadêmico quanto o Coletivo 20 de Novembro tiveram participação primordial na articulação para a formação do grupo e estiveram presentes nas dinâmicas para consolidação da proposta. Também estão engajados nos próximos passos e agenda de trabalho do grupo constituído no workshop realizado pelo Universalidade.
Seguindo a metodologia do Golden Circle, o objetivo final do Workshop era chegar ao propósito de atuação do grupo, além de próximos passos para sua efetiva implantação. Para isso, nós, do Universalidade, apresentamos aos participantes do processo o diagnóstico percebido por nós na trajetória da descida do “U” e, após as discussões, propusemos também uma estrutura de governança para a atuação do comitê (parte da apresentação utilizada no evento pode ser encontrada anexa a este documento).
Os participantes da conversa permaneceram engajados do início ao fim da atividade, em que buscamos colocar em prática também aprendizados e etiqueta relacional praticada na disciplina Formação Integrada, para garantir que todas as vozes fossem ouvidas e o resultado fosse alcançado de forma harmônica, conciliando conflitos e buscando consensos.
Ao final do dia, o resultado alcançado foi:
senha: universalidade
A estrutura de governança proposta:
Entendendo que o grupo precisará de apoio para firmar os primeiros passos e executar algumas ações, nos comprometemos, enquanto grupo, a participar do primeiro ano da coalizão como mentores dos alunos de graduação, mas também como articuladores para que as ações sejam executadas (atuando, por exemplo, como ponte para contatos que consultamos ao longo do projeto).
Também já foram iniciadas as conversas para formação do Conselho da coalizão e já há membros da FGV (não tomadores de decisão), de empresas, poder público e ativistas dispostos a participar das atividades do grupo, além de assumir papéis de mentoria e ponte para o mercado de trabalho para os alunos (necessidades levantadas ao longo do percurso e também durante o workshop).