MISSÃO. criar condições para fazer emergir um sujeito consciente e engajado consigo mesmo, na relação com os outros e com o todo, com sensibilidade, inteligência prática e fundamentação teórica em sustentabilidade.
Como a Formação Integrada funciona na prática?
Compreendemos que aprender é uma capacidade intrínseca e constantemente presente em nossa vida. Estamos sempre, como aprendentes, nos desenvolvendo, em constante processo de produção de nós mesmos num processo que se dá de maneira integrada: pelo o que nos acontece de fora para dentro, e pelo que percebemos, sentimos e compreendemos de dentro para fora. Desta forma, buscamos combinar conteúdos e atividades que promovam:
Espaços para o processo pessoal de produção de sentidos de cada sujeito (autoformação), para troca e aprendizagem pelas relações do grupo (heteroformação) e para aprendizagem pelo contato com o ambiente e o conjunto de relações complexas que nele acontecem (ecoformação).
Condições para a vivência e a expressão do conhecimento por meio não apenas de conceitos e teorias (razão formal), mas também por meio de projetos aplicados, viagens de campo e outras experiências práticas (razão experiencial) e atividades de cunho corporal, artístico, reflexivo e contemplativo (razão sensível).
Nosso processo estrutura-se ao redor de dois eixos:
Projeto de Si Mesmo: atividades, vivências e conceitos que buscam provocar nos alunos uma percepção ampliada de si mesmos, dos outros e da realidade, ativando, expandindo e contribuindo com a apropriação do seu potencial sensível/perceptivo, reflexivo e criativo. Ao longo dos três semestres da Formação Integrada esperamos que os alunos possam:
- Desenvolver linguagem para perceber, abordar e atuar numa realidade complexa (multirreferencial e muldimensional);
- Integrar a dimensão subjetiva e sensível como fonte de conhecimento;
- Incorporar o diálogo como atitude de abordagem ética;
- Reconhecer a complexidade da realidade e identificar seus diferentes níveis e perspectivas/paradigmas.
Projeto Referência: projetos voltados a desafios reais, onde conhecimentos de gestão possam ser ampliados e aplicados sob a ótica da sustentabilidade. Os semestres I e II terão um Projeto Referência diferente, o qual será proposto e selecionado pelo próprio grupo. De maneira geral, o tema do PR deve estar relacionado à dimensão trabalhada no semestre e oferecer uma entrega prática e aplicável. Por seu caráter altamente prático e experiencial, o PR oferece uma oportunidade singular para o grupo entrar em contato direto com situações complexas, que envolvem diversas realidades, atores e variáveis, e onde não há respostas óbvias e prontas. Ao final do semestre, a entrega do projeto é apreciada por convidados externos e avaliada pelo próprio grupo e pelos professores da disciplina, conforme critérios de avaliação detalhados abaixo. Por meio do PR, esperamos que os alunos possam:
- Ampliar sua percepção sobre a realidade e suas relações, por meio do entendimento e da busca por soluções práticas a desafios reais da sustentabilidade;
- Conectar os conceitos e ferramentas que estão na fronteira do conhecimento em Sustentabilidade com suas práticas de gestão;
- Integrar conhecimentos dos diferentes temas da sustentabilidade e da gestão, com visão crítica e sistêmica.
- Atuar como agentes de mudança e transformação rumo ao desenvolvimento sustentável.
SAIBA MAIS ACESSANDO NOSSOS VÍDEOS
SOBRE ESSE RELATÓRIO
Esse relatório tem como objetivo sistematizar os conhecimentos gerados pelos Projetos Referência dos grupos que passam pela Formação Integrada para Sustentabilidade no contexto do Mestrado Profissional em Gestão para Competitividade.
- A cada turma do Mestrado, desenvolvemos de quarto a seis projetos por semestre.
- Cada projeto é composto por uma equipe de alunos(as) que define seu próprio desafio, identidade e processo de trabalho (stakeholders chave a serem procurados, conteúdos a serem investigados, formato da entrega final, recursos necessários etc).
- O percurso para este processo de trabalho é baseado na Teoria U: desenvolvida por Otto Scharmer e outros pesquisadores da área de Aprendizagem e Mudança Organizacional do MIT, “a Teoria U propõe que a qualidade dos resultados que obtemos em qualquer sistema social é consequência da qualidade de percepção e consciência a partir da qual operamos nestes sistemas.” (Presencing Institute) Trata-se de um framework; um método para liderar mudanças profundas; e uma maneira de ser – conectando aos aspectos mais autênticos e elevados do indivíduo.” Como processo, a Teoria U propõe três macro etapas: Observar, observar, observar ("descida do U"): investigar e compreender um sistema de dentro dele, interagir com os stakeholders chave, abrir-se à escuta, sentir; Retrair e refletir ("meio do U"): silenciar para conectar-se consigo mesmo e com sua fonte sensível de percepção e criatividade (Presencing); e Agir em um instante ("subida do U"): deixar emergir resultados inovadores colocando em prática as soluções possíveis - ainda que em forma de protótipos - e aprendendo com elas.
ONDE COMEÇAMOS...
Nossa jornada se inicia com a proposta do João feita em sala de aula. Estamos aqui no início da descido do U, a fase em que nos despimos das nossas concepções de mundo, dos nossos preconceitos e crenças para deixar vir o que o mundo nos revela. Isso acompanhado de nosso olhar curioso, investigativo e sensível. Mas, antes, precisamos decidir: Qual será o foco do nosso olhar? Para o que estará direcionada a nossa atenção neste semestre? Voltando ao João, a ideia é a de atuar sobre a saúde mental dos profissionais da área de sustentabilidade. A hipótese inicial é a de que essas pessoas sofrem psicologicamente porque sabem que um problema vai ocorrer, como o aquecimento global, mas que pouco é feito pelos atores responsáveis para impedir catástrofes. Sentem-se impotentes. Também enxergam um avanço do conservadorismo aliado ao negacionismo das mudanças climáticas e a estratégias que corroboram para a destruição de florestas e de povos originários. Neste contexto, como fica o profissional de sustentabilidade?
Vamos todos para outra sala. João se senta em uma das mesas e fica a espera do grupo se formar, aprofundando mais sua ideia e trocando com quem chega. É o modelo Open Space Technology: quem teve uma ideia a apresenta, senta em uma mesa e espera aqueles que foram tocados por ela chegarem, trocam ideias, escrevem as ideias na cartolina do grupo, aqueles que chegaram podem partir para outras mesas ou permanecer, até que se formem todos os grupos. O tema está quase fechado naquele 06 de março, ninguém pensava em coronavírus, todos gostam da ideia e trocam sobre o assunto. É então que Salete e Maria Laura se juntam ao grupo. A Salete está com vontade de falar sobre racismo, e na conversa com o grupo achamos uma solução que comporta a vontade de todos. Como juntar racismo, saúde mental e profissionais de sustentabilidade?
Escolhemos falar sobre saúde mental e ativismo. O grupo agora está formado: Cinthia, Maria Laura, Mateus, João, Otávio e Salete. Nossa primeira frase síntese foi: “Compreender e atuar no fenômeno do adoecimento psicológico no ativismo e seus efeitos”. Mas dúvidas persistem. Vamos falar sobre saúde mental no ativismo, ou saúde mental dos ativistas, ou até mesmo saúde mental nos ativismos? De qual ativismo estamos falando? O que é ativismo e os ativistas? O que é saúde mental? O que saúde mental tem a ver com sustentabilidade? Essas questões continuam enquanto formulamos nosso primeiro esboço do enunciado. Sabemos do tema e sobre o que queremos atuar, mas isso tudo precisa estar condensado em uma frase concisa, coerente e cheia de sentido.
"Por que nos causa desconforto a sensação de estar caindo? A gente não fez outra coisa nos últimos tempos senão despencar. Cair, cair, cair. Então por que estamos grilados agora com a queda? Vamos aproveitar toda nossa capacidade crítica e criativa para construir paraquedas coloridos. Vamos pensar no espaço não como um lugar confinado, mas como o cosmos onde a gente pode despencar em paraquedas coloridos." - Ailton Krenak, Ideias Para Adiar o Fim do Mundo
O PROBLEMA DA SAÚDE MENTAL NO MUNDO
“A saúde mental deve ser parte integrante da saúde universal. Ninguém deve ter acesso negado aos cuidados de saúde mental porque é pobre ou vive em um lugar remoto." Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus (Diretor Geral da Organização Mundial da Saúde)
A Saúde Mental é um desafio global. De acordo com a Organização Mundial da Saúde as condições de saúde mental contribuem para baixos resultados de saúde, morte prematura, violações dos direitos humanos e perda econômica global e nacional (OMS, 2019). Em 2017, as doenças mentais (incluindo o uso de álcool e drogas) atingiram cerca de 970 milhões de pessoas em todo mundo, cerca de 13% da população mundial (RITCHIE & ROSER, 2018).
A depressão já é a principal causa de invalidez no mundo, impactando mais de 300 milhões de pessoas, cerca de 4,4% da população global (OMS, 2017). Junto com a ansiedade, elas impactam cerca de 7% da população (RITCHIE & ROSER, 2018) e custam cerca de US$ 1 trilhão por/ano a economia global (OMS, 2019; UN, 2020). Apesar disso, há pouco investimento em saúde mental no mundo. Os países gastam em média apenas 2% de seus orçamentos com o tema. (OMS, 2018; UN, 2020).
O número de mortes diretamente relacionadas a doenças mentais são relativamente baixas, e estão relacionadas sobretudo aos problemas de saúde advindos dos distúrbios alimentares. No entanto, pesquisa apontam que 90% dos suicídios estão relacionados a alguma doença mental ou uso de drogas e álcool (RITCHIE & ROSER, 2018). De acordo com a Organização Mundial da Saúde, 800 mil pessoas morrem por suicídio em todo mundo por ano (OMS, 2013). Isso significa uma morte a cada 40 segundos (RITCHIE & ROSER, 2018; KELLAND, 2019).
Nos países mais pobres, entre 76% e 85% das pessoas com alguma doença mental, incluindo indivíduos com problemas neurológicos e uso de substâncias não contam com qualquer forma de cuidados psicológicos/psiquiátricos.(OMS, 2019). No mundo, o número médio de profissionais de saúde é de 9 para cada 100.000 pessoas. Contudo, há grande desigualdade nesse número, variando de 1 nos países mais pobres, para 72 nos países mais ricos. (OMS, 2018).
Embora esses dados impressionem, são estimados, pois as doenças mentais são subnotificadas em todo mundo, por essa razão, tão importante quanto o diagnóstico e o tratamento, estão as ações de promoção, prevenção e conscientização (RITCHIE & ROSER, 2018).
Com tantos desafios, a saúde mental é parte dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), que foram adotados na Assembléia Geral das Nações Unidas em setembro 2015 (OMS, 2018). O objetivo número dos ODS, é “assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todas e todos, em todas as idades” (ONU, 2015). As metas 3.4 e 3.5, referem-se a questões de saúde mental e uso de álcool e drogas.
ESCUTANDO A QUEM NOS ESCUTA
"Um dos componentes do sofrimento é a não aceitação", Angélica Moretti, psicóloga sistêmica.
"A nossa identidade é formada através do que os outros dizem de nós. O isolamento faz com que as pessoas percam a referência de quem são e qual o sentido das coisas", Clair Oliveira, terapeuta transpessoal.
"A escuta é ‘a’ forma de evitar o adoecimento mental”, Vera Iaconelli, psicanalista.
A DESCIDA DO U
Após a primeira síntese, temos uma reunião com os professores para elaborarmos próximos passos. E nos é feito um pedido de deixar o projeto ser atravessado por aquilo em que já estávamos todos imersos: a pandemia do novo coronavírus. Nesta reunião, estamos já repensando sobre o tema do ativismo, sobre quem convidamos para as nossas conversas - diversificando para além das pessoas com fama - sobre como realizar nosso processo de entendimento da questão - entendendo o processo como parte do produto, um processo-escuta - e sobre a relação sustentabilidade e saúde mental - esboçando que a saúde mental sustenta a vida e que a sustentabilidade serve à vida.
O grupo sai da conversa online com os professores. E reformula a frase síntese para uma nova entrega, junto com o enunciado do nosso Projeto Referência. Esta nova versão inclui a questão global que nos atravessa - a pandemia de COVID-19 -, tira o foco do ativismo e permanece com a saúde mental. A abordagem sobre o tema agora entende que a saúde mental depende de uma série de fatores sociais, culturais, econômicos e políticos que determinam o ambiente que por sua vez influencia a forma como os indivíduos entendem a si mesmos, como eles se relacionam entre si e com o mundo. O novo vírus traz uma série de consequências materiais que afetam os indivíduos. Eis a nova frase síntese: “Promover escutas e analisar os impactos da crise pandêmica como um dos determinantes sociais do sofrimento psicológico”.
Não chegamos a esta frase sozinhos. Durante todo o kick off, que se tornou um produto-processo graças ao coronavírus, entrevistamos psicanalistas, terapeutas e psicólogas. Foi a partir do encontro de diversas práticas terapêuticas que pudemos entender saúde mental como algo sistêmico, fundamentalmente coletivo, fruto das relações e influenciado pelas estruturas. Entendemos que o nosso processo, que já deveria considerar na etiqueta relacional a escuta sensível, torna-se, assim como enunciado na conversa com os professores, produto. Além de entrevistarmos profissionais da saúde mental, também escutamos pessoas, buscando diversidade nas profissões, histórias de vida e identidades. Nosso processo-produto é a escuta; por meio dela, não terminaríamos o processo de descida do U sem modificar a nós mesmos e aos outros. Para o processo-escuta, nós buscamos materiais de Comunicação Não-Violenta (CNV) e de escuta genuína.
A escuta genuína traz a necessidade de combinados claros entre todos nós.
Não há processo local verdadeiramente transformador sem o cultivo de sistemas locais verdadeiramente endógenos. Todo sistema que não adota combinados transparentes entre os participantes, acaba por adotar os padrões do mercado.
A essência da não-violência são experimentos, buscas e reflexões coletivas para a criação de um sentido conjunto de não-violência.
SAÚDE MENTAL, A COVID-19 E A SUSTENTABILIDADE
O documento Policy Brief: COVID-19 and the Need for Action on Mental Health organizado pela Organização das Nações Unidas em Maio de 2020, apresenta como o Covid 19 está se tornando uma grande crise de saúde mental.
De acordo com o relatório, o sofrimento psicológico nas populações é generalizado. As pessoas estão angustiadas pelos impactos imediatos do vírus na saúde e as consequências do isolamento físico.
"Muitos têm medo de infecção, morte e perder membros da família. Os indivíduos foram fisicamente distanciado de entes queridos e pares. Milhões de pessoas estão enfrentando problemas econômicos e perderam ou correm o risco de perder sua renda e meios de subsistência. Informações erradas e rumores freqüentes sobre o vírus e profunda incerteza sobre o futuro é comum fontes de angústia." (ONU, 2020)
O documento discute como a vulnerabilidade social foi amplificada. A violência contra mulheres e crianças aumentou. Pessoas que já tinham acesso limitado a serviços de saúde mental antes da pandemia, foram impactadas pela interrupção de alguns serviços de saúde ao redor do mundo. Para evitar a contaminação, cuidados de saúde mental tornaram-se remotos, excluindo ainda mais pessoas não alfabetizadas, os mais pobres e os mais velhos.
A Organização das Nações Unidas orientam que, fortalecer os serviços e programas de saúde mental devem ser uma prioridade de todos os países e acreditam que “a resposta à pandemia é uma oportunidade para melhorar a escala e o custo-efetividade de várias intervenções em saúde mental.” (ONU, 2020)
Além de figurar como um dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, como mencionado acima, a saúde mental está diretamente ligada com a sustentabilidade na medida em que é seu objetivo maior: garantir o bem estar do ser humano (do e no planeta) no longo prazo. Como descreve Amartya Sen em Desenvolvimento como liberdade, o grau de desenvolvimento de uma nação pode ser medido por meio do bem estar de sua população.
Desta maneira, a Organização Mundial da Saúde classifica como fatores que podem afetar a saúde mental tanto as características do indivíduos e seus comportamentos; como as circunstâncias econômicas, sociais e ambientais nas quais ele está inserido. Tais gatilhos podem podem e costumam interagir entre si - hora catalisando o processo de adoecimento, hora anulando eventuais propensões. Dessa forma, tratar do ambiente social, ambiental e econômico é também uma forma de cuidar da saúde mental.
Diversos são os exemplos e as conexões neste sentido. A gravidez na adolescência, por exemplo, um dos indicadores que compõem o Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas (2019), se apresenta como um risco para a saúde mental das mulheres, que costuma levar a um aumento de uso de substâncias tóxicas e que eventualmente podem prejudicar a saúde da mãe e do bebê (RITCHIE & ROSER, 2018). o exemplo mostra a conexão explícita entre ambiente e saúde mental.
A OMS elenca ainda que, entre os fatores sociais e ambientais que podem aumentar a vulnerabilidade de um indivíduo no que tange à saúde mental estão: as discriminações por raça, etnia, origem; violências e abusos; restrições civis e políticas; exclusão social; acesso limitado à serviços de emergência e de saúde; falta de oportunidades educacionais; aumento de incapacidades e morte prematura; falta de acesso a renda e desemprego.
A Meta Global 3.1 é que 80% dos países tenham pelo menos dois programas nacionais, multissetoriais e de prevenção em saúde mental (até o ano 2020). (OMS, 2018)
Ainda seguindo este raciocínio, a crise climática começa a se apresentar como fator desencadeante de sofrimento psicológico (BOURQUE & WILLNOXI), em especial em populações que já apresentam algum outro tipo de vulnerabilidade que não somente a ecológica. Isso porque a crise se materializa na forma de desastres ecológicos propriamente ditos (secas e enchentes) que têm relação direta com a insegurança alimentar (redução da quantidade de alimentos e de espaço disponível para plantio) e impactam serviços de saúde (WHITMORE-WILLIAMS et al).
Entre as consequências psicológicas relacionadas a essas transformações estão: Trauma e choque, Estresse pós-traumático, Abalo das relações sociais, Depressão, Ansiedade, Suicídio, Abuso de substâncias, Agressão e violência, Abalos de personalidade, Perda de autonomia e controle, Abalos na identidade, Sentimentos de solidão, medo, ecoansiedade e solastagia (a sensação de que o lar se tornou inseguro)
Muitas delas mencionadas nas entrevistas que conduzimos com atores sociais ao longo da pesquisa.
O PAPEL DA ESCUTA NA SAÚDE MENTAL DURANTE A PANDEMIA
O ESCUTAR E O QUE ESCUTAMOS É TRANSFORMADOR
"De onde veio essa ideia de que seria bom se todo mundo pensasse igual? Frente ao outro a primeira coisa que faço é lhe agradecer pela autonomia e pela perspectiva diferente. Ela me acrescenta. Ela me lembra do fato de que o mundo em que vivo é diferente da opinião que tenho. E é nessa distinção que respiro e volto a ser gente, e não apenas um subproduto de uma certa ideologia." Dominic Barter
"Escutar é permitir ser transformado", Dominic Barter
“Nunca a finitude tinha se apresentado dessa forma para mim.” Arquiteta, 60+
“O que me tira o sono é a gente saber que uma pandemia vinha, a gente saber da questão do clima, de quando a gente está f... tudo e não está fazendo nada diferente.” Executiva 1
(Sobre a maternidade) "A quarentena está me obrigando a colocar em prática tudo o que eu me dou conta que era teoria, sonho ou discurso, mas não era realidade" Executiva 2
"Não é por conta do Covid19 que os problemas estão aparecendo. Esses problemas sempre estiveram aí, visíveis, só que a nossa visão e a nossa escuta não são formatadas para enxergar determinadas questões" Psicólogo, professor e ativista
"Não deixamos de ser humanos de uma hora para outra, nossos sentimentos e vontades permanecem. Da produtividade ao ócio, nosso desafio é encontrar as estratégias que respondem ao novo mundo." Indigenista, feminista
"Quem não está doente, está esgotado. Não tem meio termo."
"Quando não estou presa no hospital, estou presa em casa." Enfermeira de UTI
"o princípio do sus é Que todas as pessoas possam ter acesso a saúde de qualidade. Trabalho por uma questão ideológica e que traz muito sofrimento. tem um tornado vindo destruir tudo o que a gente acredita. Parei de ver as notícias da política, me deixa muito mal. Hora fico triste, hora ansiosa, mas com a consciência de que estamos fazendo algo para quem precisa. encontro conforto ao conversar com meus pares, nos corredores do posto de saúde. nos sentimos como formiguinhas", psicóloga do SUS
"Aqui Saúde Mental não é prioridade." Estudante, moradora da periferia de SP
"a gente pede para a escola ter calma e ficar tranquilia, mas a gente não está calmA, a gente não está tranquila" supervisora pedagógica
"Eu tenho tido relatos de professores adoentados. E eu imagino que é muito em função do stress, do desgaste emocional e da ansiedade que toda essa situação causa" Diretora de escola
"como é que você vai fazer um bom trabalho pedagógico, se tem coisas acontecendo hoje que são muito mais graves, muito mais sérias?" supervisor pedagógico
"muito do sofrimento foi potencializado, mas ele já existia, por causa da desvalorização." Diretora de escola
"Quero me apaixonar pela incerteza suave do outro, que é maior do que os limites que eu tenho, porque estou à procura do nós, de alguma coisa que é mais que simplesmente o somatório do eu mais você, que é uma nova unidade. E a pergunta é: tem alguma unidade?" Dominic Barter
DE-BRIEFING DO KICK OFF
Chega então, o de-briefing do kick off no dia 25 de abril. Neste momento, revisitamos nossas ideias para o Projeto Referência e as contribuições dos stakeholders para o nosso processo. Preenchemos um mural com elencando os principais pontos de quatro perguntas:
Para a primeira pergunta, respondemos que o grupo brilhou, na escuta de uns com os outros, nas interações respeitosas, e na disponibilidade de se mostrar aberto e vulnerável. O que também brilhou foram as escutas que fizemos junto aos stakeholders, que pareceram corroborar a necessidade de escuta e que abriram margem para entender o momento de crise como uma oportunidade para o desenvolvimento de melhores relações e na construção de algo em comum.
Para a segunda pergunta, estava nublado qual seria o produto, se as escutas em si seriam realmente a nossa entrega, se precisaríamos segmentar o nosso público-alvo e focar em determinadas pessoas. Também não sabíamos o que fazer com todas as informações que coletamos, porque apesar de terem algo em comum, a necessidade de escuta, elas não endereçaram um caminho claro para desenhar o produto. Neste momento ainda estávamos com dúvidas sobre como conectar saúde mental e sustentabilidade, levando em conta que a nossa frase síntese não traz um aspecto sustentável óbvio. Surgia também a vontade de contribuir com um produto que pudesse ir além da crise. E, mesmo que já estivéssemos realizando escuta, nos faltava saber mais a fundo o que era escutar genuinamente e como realizar essa escuta mais sensível.
Para a terceira pergunta - “O que me atravessou pessoalmente?” -, surgiram temas como o comprometimento e empatia do grupo, o desafio e o privilégio e fazer todo esse processo remotamente, o entendimento que a violência pode ser uma fragilidade e consequência de um pedido mal formulado e uma necessidade não atendida, o lidar com sentimentos conflituosos que surgem ao mesmo tempo, o processo de escuta em si, o escutar o sofrimento do outro, o desafio do exercício do escutar e de empatizar e a rotina puxada e o malabarismo de funções que precisamos cumprir neste período - os cuidados com a casa, com a família, com as relações, com o trabalho, com o mestrado e consigo mesmo.
Finalizando o mural, pensamos sobre próximos passos com a questão “O que precisamos acompanhar a partir de agora?”, e emergiram a necessidade de procurar por plataformas online de escuta que já existiam, de escutar pessoas que apoiam a gestão do governo e que negam a importância dos cuidados pessoais para o combate do coronavírus. Também emergiu a vontade de entender de que maneira as escutas nos atravessam e nos movem, como essas escutas nos levariam a uma maior materialidade do projeto - como o projeto se concretizaria a partir das escutas? -, como explicar com mais profundidade a ligação do nosso PR com sustentabilidade, quais seriam os próximos prazos e como lidar com quem é excluído digital, mas que precisa de um atendimento psicológico ou de uma escuta. Nos questionamos também se a escuta não seria um portal para que as pessoas se sentissem mais conectadas umas as outras e se a empatia daí gerada não poderia induzi-las a agir para reduzir as desigualdades e minar as injustiças no mundo.
Depois do de-briefing temos bastantes dúvidas e ainda um bom caminho para percorrer. Por isso, escutamos ainda mais pessoas, guiados pelo nosso instinto de querer ouvir uma diversidade maior de pessoas, incluindo aqueles cujas posições políticas nós não concordamos. Todos devem ser escutados. E, além de mais escuta, precisávamos criar nossos logo e nome. O protagonismo aqui é da Cinthia. Ela nos contou que um dia precisava esvaziar a mente. Aproveitou que estava na praia e foi andar na orla do mar. Sozinha, distante e presente. Quando voltou para casa pensou em nomes e logos para o grupo, e propôs para todos seu resultado final: Escuta Com.Paixão.
O amarelo traz como referência a campanha brasileira de prevenção ao suicídio no mês de setembro. O coração na cabeça traz a ideia de pensar com o coração, de deixar-se abrir ao outro sem precisar racionalizar o que se sente. A fala é o caminho da escuta. Aquele que fala e aquele que escuta fazem com o coração, com sentimento. Mas este processo não se constitui por um simples ouvir, mas algo que se escuta genuinamente e com empatia: com paixão. O grupo todo adorou a ideia, e todos decidiram adotá-lo. Os trouxemos na aula do dia 15 de maio, consolidando a nossa decisão.
FUNDO DO U
No dia 22 de maio estivemos todos no fundo do U, sem descida ou subida, um momento de reclusão, reflexão e silêncio. Deixar ir o que já passou e presentear-se com o agora. Libertar-se do ruim, se apegar às coisas boas e seguir. No dia seguinte, apresentamos aos colegas todas as sínteses estéticas. Cinthia mostrou sua foto-compaixão, João seu desenho-comunidade, Maria Laura seu conto-dor, Mateus sua escultura-reflexão, Otávio seu véu-sensível, e Salete seus poemas-de-saber-ouvir. A síntese mostrava como cada um percebia seu processo, que juntava o Projeto de Si Mesmo e o PR. Isso mostrou uma ampla possibilidade de sentidos que poderiam ser explorados na escuta, e de variadas formas como podemos nos conectar. Uma ideia que prevaleceu logo após esse momento foi o de explorar os sentidos na nossa entrega, uma ideia guardada com carinho, mas que ainda não foi executada.
Após o compartilhamento de todas as sínteses, no mesmo encontro nós desenhamos nosso mapa 3D. Nele, nós conseguimos ter uma visão geral do projeto, tendo uma visão prática sobre o que já realizamos, o que está emperrado e o que precisa ser feito. Neste momento, porém, nós conseguimos focar mais em quais eram os nossos sonhos, dado que ainda não tínhamos uma visão clara sobre o que gostaríamos de realizar. Entre os sonhos estavam:
(i) disponibilizar, qualificar, disseminar, democratizar ferramentas para atenuar/legitimar/acolher o sofrimento psicológico; (ii) trazer conforto para as pessoas com sofrimento psicológico; e (iii) abrir canais para compartilhar sentimentos, criando relações/vínculo entre pessoas.
No momento, nós pensamos em como realizar este sonho, pensando em diferentes formas para concretizá-lo, entre as ideias estavam: (i) caixa de ferramentas (repositório de conteúdos sobre escuta): podcast, canais, profissionais, app “olho no olho”, jogo, lives, caixa de experiência; (ii) escuta multissensorial, relacional e empática; (iii) cardápio de uma opção só – “curadoria” – ser o facilitador de vários conteúdos que já existem – gamificado, talvez – e processos que convidem a relação e escutas de diferentes sentidos; e (iv) rodas de conversa virtuais. O desafio que engloba a todos esses canais seria o de incluir as pessoas sem o acesso a internet, algo que até o final do semestre não conseguimos endereçar.
MICROIMERSÃO
No contexto da Microimersão nós também realizamos o Iceberg do PR. Por meio dele, podemos entender o nosso problema com mais profundidade, com mais camadas. Na parte mais superficial, entendemos os eventos, os fatos que ocorrem, algo descritivo e sem análise. Uma camada abaixo se encontram os padrões, que nos mostrará o quê nos eventos está conectado, expondo que os eventos não acontecem isoladamente e ao acaso. Com mais profundidade, chegamos às estruturas, as quais sustentam os padrões que observamos. Chega-se, então, aos modelos mentais, que justificam as estruturas como um dogma; a resposta aqui é sempre “porque sim”.
No nosso Iceberg, identificamos uma série de fatores que influenciam na saúde mental das pessoas, inclusive durante a pandemia, assim como a necessidade de escuta. Entre os eventos, conseguimos identificar, a partir das escutas realizadas até o momento e do noticiário: uma das psicólogas que conversamos estava em crise e trabalhava no SUS, o suicídio do ator Flávio Migliaccio, a eleição de Bolsonaro em 2018, o avô de uma das pessoas que conversamos continuava trabalhando mesmo na pandemia para conseguir sustentar a família - soube-se depois que ele falecera com COVID-19 -, a criação de uma rede de apoio para psicólogos e profissionais da saúde, um hospital privado que criou um espaço de escuta para os profissionais de saúde da UTI, uma trabalhadora de saúde indígena que estava desesperada e trabalhando todos os dias da semana por muitas horas no dia, enfermeiros desesperados também no Hospital Geral Vila Penteado, os educadores com quem conversamos estavam exaustos com o novo modelo de aulas, e o pedido de reabertura de uma igreja na Zona Leste de São Paulo. Complementamos aqui dois eventos sobre os catadores, os quais acabaram por se tornar um dos focos do nosso PR posteriormente. O primeiro evento é a fala da Anne Barbosa, catadora, dizer que viu sua renda sumir, e o outro é a criação do projeto Panelha Velha do Carlão, outro catador, para auxiliar durante a pandemia as famílias que sobrevivem dos materiais recicláveis que coletam.
Já os padrões que identificamos no Iceberg foram: aumento do volume de trabalho para alguns trabalhadores (como os profissionais de saúde e professores), aumento das crises de ansiedade relatadas nos consultórios, sentimento geral de pressão para manter a vida “normal”, um aumento da violência - principalmente a violência policial, e aquela praticada dentro de casa contra as mulheres e LGBTs -, aumento dos casos de insônia, aumento do consumo de álcool, muitas pessoas desrespeitando o isolamento por conta da necessidade de se manter financeiramente, aumento do número de doentes e de mortes, aumento da procura por tratamento psicológico, presença de mais pessoas que negam a ciência, e uso da fé como política contra a ciência, e aumento da geração de lixo assim como uma mudança no tipo de lixo que é gerado nas cidades. Acrescentamos aqui a diminuição da renda dos catadores, que sofrem tanto por conta da diminuição da geração de lixo nas cidades quanto pela redução no valor pago pelos materiais recicláveis nesses tempos de pandemia.
Entre as estruturas do Iceberg estão: a falta de acesso material e emocional nas periferias, a Igreja como único espaço de encontro entre as pessoas, salário baixo e sem benefícios suficientes para manter-se na pandemia, ineficiência do poder público de conseguir abarcar e endereçar os problemas provenientes da COVID-19, a necessidade de manter uma família modelo e sem defeitos, a nossa democracia representativa que apresenta benefícios e falhas, a diferença salarial e de poder entre médicos e enfermeiros, a crise no orçamento público, a desvalorização da educação nos últimos anos, o uso de fake news para manipular a realidade, e o isolamento social como melhor prática para conter o avanço do vírus. Acrescentamos no âmbito dos catadores a desvalorização de seu trabalho.
Para completar o Iceberg, nos adentramos aos modelos mentais. Estão entre eles: descrença na ciência, crença que Deus é um só e é fiel e está acima de todos, “se o pastor falou, então farei assim”, “Estado pra quê?”, crença no controle da vida e da natureza, falta de conhecimento das próprias vulnerabilidades, “saúde mental é coisa de rico”, “é só uma gripezinha”, “quem manda aqui sou eu” - falas do presidente da República -, crença de que indivíduo precisa dar conta de tudo sozinho, ideia de pessoas super heroínas, de que não é função do Estado sustentar as famílias e quem dá emprego são as empresas, “lugar de mulher é na cozinha”, “macho não chora”, “quem trabalha mais, ganha mais” - junto a uma ideia de meritocracia -, de que as pessoas são pagas para encontrar uma solução, o medo do fracasso e de ser fracassado, “terapia é coisa de louco”, de que é preciso ser profissional para escutar, “bandido bom é bandido morto”, e crença na autossuficiência.
MOMENTO DE REFLEXÕES
No dia 28 de maio, tivemos uma conversa com os professores em conjunto com o grupo Simbiose. A conversa foi uma oportunidade para que os dois grupos trocassem entre si, realizando perguntas pertinentes para a continuidade do projeto do outro. Para que evoluíssemos nas nossas investigações e definições sobre como seria o nosso PR, nos fizeram os seguintes questionamentos, que com certeza reverberaram na ideia final: como iremos alcançar as pessoas que precisam de escuta? como essas pessoas nos alcançarão? de que forma iremos analisar os impactos da crise pandêmica como um dos determinantes sociais do sofrimento psicológico, como sugere a nossa frase síntese? por que essas pessoas procurariam pela nossa solução? quem serão as pessoas que ouvirão e como eles seriam preparados para tal? quem procuramos para realizar o projeto? quem mais ajudou no desenvolvimento do projeto e o que eles têm a ver com o nosso produto? por quanto tempo o projeto ficará de pé? e quais temas atravessam a todos durante nossas escutas?
Seguimos pensando no nosso PR. E decidimos embarcar em uma oficina de escuta no dia 29 de maio. Por mais que já estivéssemos na subida do U, consideramos importante saber ainda mais sobre o tema, e nos educar sobre como realizar uma escuta qualificada. A oficina foi ministrada por Cynthia Provedel, profissional de Recursos Humanos, especializada em medo organizacional e escuta empática.
Durante a oficina, fazemos um teste individual para nos revelar qual o nosso nível como escutadores. Durante o teste nos deparamos com uma série de atitudes cotidianas do tipo: “você começa a pensar em um contra-argumento quando escuta alguém que diz algo que você não concorda?”. Ao fim do teste, conseguimos não apenas identificar a nossa pontuação como escutadores, mas também com uma variada gama de situações que não estavam no nosso radar e que faziam parte de uma escuta genuína. A Oficina não está reduzida ao teste, mas manteve-se como momento mais marcante. Inclusive, surge neste momento a ideia de ter como PR a realização de oficinas parecidas com aquela que participamos, ou até mesmo na criação ou compartilhamento daquele mesmo teste que realizamos - mas esta ideia, assim como a de explorar os sentidos, foi guardada.
SUBIDA DO U
O próximo momento foi o de cristalização do PR na aula do dia 05 junho. Até ali, ainda não tínhamos a definição de um produto definida. Neste dia, surgiram duas ideias principais no grupo. Uma a de realizar uma campanha que realizasse uma ponte entre canais de escuta que já existiam e pessoas que precisassem desse tipo de serviço, e outra a de criar um ambiente de escuta entre pessoas que se conheciam para estimular essa habilidade nas pessoas, criando uma corrente em que uma pessoa escuta a outra, e o escutado vira escutador. No dia, a ideia apresentada para a turma foi a primeira, e ela seguiu sendo ajustada pelo grupo, até chegarmos na ideia final.
Em alguma conversa de WhatsApp, o João comenta sobre uma plataforma de escuta que a professora Ana Carolina teria postado. Chamava Psiu. Era uma espécie de "Tinder", que oferecia um canal de escuta feita por psicólogos voluntários. Era o que a gente estava procurando!
No próximo dia, em vez de termos aula, nós pudemos nos reunir no mesmo horário para dar encaminhamento para a ideia e definir próximos passos. Uma ideia que prevalece é a de acoplar no aplicativo da iFood ou Rappi uma integração com a plataforma Psiu, e possibilitar que os entregadores tenham um lugar de escuta qualificada de maneira prática. A ideia parecia ótima até percebermos que não tivemos contato com nenhum desses aplicativos. Foi então que pensamos em como adequar esta ideia para outros contextos e é aí que ela ganha ainda mais força. A nossa entrega no semestre seria para um público alvo específico, mas é uma ideia que pode ser aplicada para diferentes contextos. Nós conseguiríamos conectar o aplicativo Psiu com os catadores - um público que já havíamos escutado durante o semestre, e com quem o Mateus já tinha contato anteriormente -, mas a ideia não se limita aos catadores e pode ir além desse público.
Saímos quase todos animados da conversa e cada um já sabia o que fazer para compor o produto. Naquele dia, o Otávio não teve coragem de dizer que algo o incomodava, pensava que era mais impressão dele - e era mesmo. Depois de uma conversa a psicóloga e outra com o Vicente, Otávio se volta para o grupo novamente e no dia 17 de junho a coragem volta. A reunião que o grupo fez, no meio do fazer o produto, foi mais uma conversa sincera, cheia de empatia e escuta sensível. Tínhamos, ao final, construído aquilo que almejávamos, um ambiente de escuta, confiança e vulnerabilidade. Todo o processo valeu a pena. Mas, claro, ele ainda precisava ser finalizado.
No decorrer dessas duas longas curtas semanas, decidimos criar um vídeo com o intuito de mostrar brevemente os impactos das consequências da pandemia para os catadores, com foco na saúde mental e no uso da ferramenta Psiu. E a nossa apresentação às partes interessadas no produto também seria uma entrega. Articulamos uma live no dia 25 de junho com representantes do Conselho Federal de Psicologia (CFP), Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), Associação Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (ANCAT) e do Psiu. A articulação se propõe a mostrar aos catadores uma forma qualificada de escuta que eles têm acesso e incentivar que os psicólogos se voluntariem para participar do Psiu com sua escuta qualificada. Nosso produto foi juntar partes antes desconectadas, e a apresentação foi resultado do protagonismo que elas têm para endereçar a questão da saúde mental na pandemia. Os catadores têm voz, precisa-se escutá-la com paixão.
E, como último e primeiro respiro do nosso produto, nós o apresentamos para a turma 5 do MPGC da linha de sustentabilidade no dia 26 de junho. Acompanhada da música “Fala” do Secos e Molhados: "Eu não sei dizer nada por dizer. Então, eu escuto. Se você disser tudo o que quiser, então eu escuto. Fala. Se eu não entender, não vou responder. Então, eu escuto. Eu só vou falar na hora de falar. Então, eu escuto. Fala. Fala!"
SAÚDE MENTAL DOS VULNERÁVEIS: O CASO DOS CATADORES
Estudo publicado em 2012 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - IPEA - do Ministério da Economia, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios - PNAD revelo que são mais de 400 mil os catadores de materiais recicláveis no Brasil. Em síntese, a maioria tem baixa escolaridade e é formada por homens, negros e jovens. 58% contribuem para o sistema nacional de previdência, metade possui sistema de esgotamento sanitário em casa, e quase 20% tem computador. 4,5% dessa população estava abaixo da linha da miséria à época.
Quando falamos de Reciclagem Inclusiva e Catadores de Materiais Recicláveis acessamos dois campos distintos mas extremamente conectados: Meio Ambiente e Desigualdade Social. Desigualdade essa que vulnerabiliza contingentes de brasileiros e brasileiras que sobrevivem, sobretudo nos grandes centros urbanos das sobras, dos restos, dos resíduos do que consumimos dia e noite e, quando não nos serve mais, acreditamos que “jogamos fora”.
Mas será que esse “fora”, que possibilita nosso banal ato cotidiano de descartar o que não serve para mais nada, existe? Jogamos apenas o lixo “fora” ou tratamos apenas de afastar os problemas?
O Movimento dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) afirma que existem entre 800 mil e 1 milhão de catadores e catadoras em atividade[1] formal e informal. Políticas públicas que afetam esse setor devem considerar que o número de trabalhadores informais envolvidos na atividade de coleta e comercialização de resíduos recicláveis supera em larga escala o do setor formal, estimado em cerca de 20% do total de catadores e catadoras.
Segundo dados do Sistema Nacional de Informações Sanitárias - SNIS de 2017: 22% dos municípios brasileiros possuem coleta seletiva operada pelo poder público. Cerca de 15% dos municípios possuem pelo menos uma cooperativa ou associação de catadores de materiais recicláveis apoiada, mesmo que de maneira insuficiente, pelo poder público.
O movimento dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) estima que os catadores são responsáveis pela coleta de 90% de tudo que é reciclado hoje no Brasil[2].
Em países em desenvolvimento de baixa e média rendas, o setor informal (de coleta e) reciclagem é uma parte importante, mas frequentemente não reconhecida, do sistema de gestão de resíduos e recursos. Os sistemas do setor informal desempenham um papel essencial para a cadeia através do reprocessamento de resíduos em matérias-primas recicladas, provendo a subsistência de aproximadamente 0,5% da população urbana[3].
Contudo, existem problemas observados associados a estas atividades do setor informal: ocupacionais de saúde e segurança, trabalho infantil, poluição, não tributação das atividades, associação com colusões criminais e políticas e não compatibilidade com a imagem de uma cidade moderna[4].
O setor informal de reciclagem coleta materiais que foram descartados como lixo e agrega valor a eles por meio da separação, limpeza, alteração do formato para facilitar o transporte ou pela agregação de materiais (Scheinberg, 2001a) em uma quantidade comercializável[5].
A organização da cadeia de reciclagem constitui-se como uma hierarquia. Os recicladores informais tendem a ocupar a base da cadeia de comercialização dos resíduos (ou materiais secundários), ficando restritos a ela, o que reduz consideravelmente sua renda potencial[6].
Os sistemas do setor informal de resíduos recicláveis que já estão estabelecidos em diversos países em desenvolvimento reduzem o custo dos sistemas formais de gestão de resíduos. Isso acontece porque a atuação dos catadores informais diminui a quantidade de resíduos para coleta, resultando em menor capital e tempo gastos com coleta e transporte[7].
Assim, a situação de marginalização da atividade informal dos catadores manteve esse público invisibilizado por mais de 50 anos. No nosso imaginário da infância, esses, que hoje são heróis do meio-ambiente, mesmo que mal ou não remunerados e assistidos, foram os vilões, o homem do saco. Aqueles que nos removeriam da segurança de nossos lares caso não seguíssemos à risca determinações de nossos familiares. Ontem ele foi usado para nos assustar, hoje ele é apontado como um trabalhador essencial.
Mas onde está toda essa essencialidade quando aprofundamos o nosso olhar para as mazelas enfrentadas pelos trabalhadores dessa cadeia e observamos que as condições mínimas não é oferecida pelo poder público?
O resgate da auto-estima, do convívio social saudável, do acesso às necessidades básicas foi sendo forjado pela organização coletiva desses trabalhadores que começa a ganhar força à partir de 2003.
Quando os primeiros interlocutores foram ouvidos, representantes dessa classe trabalhadora, não sabíamos que nos envolveríamos e correlacionaríamos tantas incertezas que emergiram com a pandemia com a realidade diária das catadoras e catadores.
A Escuta atenta que buscamos disponibilizar nas explorações iniciais da nossa pesquisa, nos despertou para as questões relacionadas às relações de trabalho no contexto das condições acima expostas, enfrentadas pelos catadores e catadoras.
A experiência relatada por Souza (2017) em “Saúde Mental de Catadores: as interferências das representações sociais na relação de trabalho” artigo fruto do projeto “Higiene Mental catadores de resíduos sólidos”, que propõe fomentar a interferência das representações sociais nas relações de trabalho de um grupo de catadores que passam grande parte de suas vidas trabalhando em um lixão e atualmente atuam em uma cooperativa que recebe o apoio da prefeitura. Descrevem-se suas estratégias defensivas junto à relação de trabalho, que, por vezes, são conflitantes, acentua-se a necessidade de motivação para a participação em eventos culturais como forma de descontração e enriquecimento cultural, sendo a higiene mental o foco central.
[1] Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis disponível em httcatap://www.mncr.org.br/sobre-o-mncr/duvidas-frequentes. Acesso 21/6/2020 [2] Anuário da Reciclagem 2017-2018 [3] An analytical framework and tool (‘InteRa’) for integrating the informal recycling sector in waste and resource management systems in developing countries [4] Idem [5] Role of informal sector recycling in waste management in developing countries [6] Idem [7] Idem
O PRODUTO
Nosso produto foi a articulação entre três atores: o Conselho Federal de Psicologia, a startup que criou a plataforma Psiu Acolhimento e os catadores de materiais recicláveis. Nosso objetivo não era criar algo novo, e sim estabelecer a relação e fazer a conexão estre essas três partes. Desse modo, estaríamos alavancando o trabalho do Psiu ao mesmo tempo que oferecemos uma escuta qualificada feita por Psicólogos para os catadores que, nesse momento de Pandemia convivem com o medo, a perda de renda e o risco real de contaminação.
A ideia da live, veio com a necessidade de apresentar o produto para os stakeholders. Por que não contar essa história de forma pública, não apenas testando suas percepções sobre o produto oferecido, mas dando voz e visibilidade para os catadores?
Por isso, em uma mesa composta por seis pessoas, decidimos chamar três representantes dos catadores, o público em questão. Além de Roberto Rocha, presidente da Associação Nacional dos Catadores - e parceiro fundamental na articulação técnica da live -, chamamos Verônica Sousa, catadora e também diretora financeira de uma cooperativa em Londrina e Anne Caroline Barbosa, catadora de São Paulo e criadora do perfil de Instagram @anneluca.s, que tem como objetivo divulgar a profissão do catador e orientar a população com relação ao descarte de materiais recicláveis. Também compuseram a mesa a psicóloga Andrea Esmeraldo, da Comissão de Direitos Humanos do Conselho Federal de Psicologia; José Messias, criador do Psiu e, por fim, Ângela Oliveira, também psicóloga com ampla atuação no atendimento de catadores e que atuou como mediadora.
O resultado foi uma hora e meia de conversa que conta hoje (30/06/2020) com 781 visualização no Facebook e 123 visualizações no YouTube.
Além da live, também produzimos um vídeo que conta a história de dois catadores de materiais recicláveis e sua experiência de escuta, utilizado a ferramenta do Psiu.
FEEDBACK DOS STAKEHOLDERS
"É muito importante projetos como esse que deem visibilidade a nós como pessoas e profissionais para que cada vez mais consigamos encher a vida das pessoas com nosso conhecimento e quebrar paradigmas impostos por uma sociedade preconceituosa que enxerga no catador um profissional que encontra na reciclagem "uma última esperança por talvez não ter tido outra alternativa", quando, na verdade, MUITOS de nós inclusive temos um profissão anterior mas encontramos na reciclagem um trabalho onde além de termos liberdade, fazemos um bem ao meio ambiente do qual muitos não estão dispostos e outros não estão interessados. Só queremos o respeito, e claro: Reconhecimento!", Anne Barbosa, catadora
"Mais um trabalho importante da educação ambiental - não basta valorizar a separação, cada vez mais temos que valorizar o catador. E inaceitável ainda ter pessoas na sociedade que pensam assim", luciana lopes, no Facebook
"Por que não falar dos nossos medos, nos colocamos na posição de fortes todos os dias. Precisamos falar do quê nos machuca e não dizemos. Precisamos compartilhar", jennifer thais, no Facebook
"verdade a parte emocional foi muito mexida", viviane vivi, no Facebook
"Realmente, a contradição entre a necessidade do isolamento para enfrentar um inimigo invisível e destruidor, e o senso de responsabilidade e compromisso profissional , nos causa um grande impacto psicológico que motiva apoio e atendimento para superar desafios", luciana lopes, no Facebook
"assistindo pra compreender melhor o ponto de vista dos catadores", letícia theotonio, Gerente de Desenvolvimento de Negócios da Solví
"somos catadores, estamos na linha de frente, prestamos um serviço essencial. a pandemia me afetou de tal forma que não conseguia cuidar dos meus filhos e da minha casa quando chegava em casa. perdia o sono durante a noite, peguei um caderninho e comecei a escrever. isso me ajudou", Verônica Souza, catadora
"que ideia linda de conectar serviços já existentes de acolhimento. aos grupos que mais precisam!" vicente góes, psicólogo e professor
"que ideia legal! Vou indicar amigos psicólogos", luciana lopes, no Facebook
"Boa noite.Parabéns pela iniciativa de dialogar sobre um tema tão importante", Gina Rizpah Besen, Pesquisadora Colabora no Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo
"Catadores já tinham as suas dificuldades principalmente com a discriminação, agora na pandemia ficou mais difícil", viviani carliani neves, no Facebook
Referências Bibliográficas
Ancat (2018). Anuário da Reciclagem 2017-2018.
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Sen, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo, Cia das Letras, 1999.
Scharmer, Otto. Liderar a partir do futuro que emerge: evolução do sistema econômico ego-cêntrico para o eco-cêntrico. Rio de Janeiro: Alta Books, 2019.
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