Ricardo Westin, do Jornal do Senado
Pesquisa Arquivo do Senado
Publicado em 12/3/2018
Há meio século, o Brasil entrava num ano extraordinariamente tenso, conturbado, explosivo.
O histórico 1968 se iniciou com o assassinato de um estudante pobre de 18 anos, vítima de policiais no Rio, assistiu a guerras campais entre manifestantes e forças militares em várias capitais, com novas mortes, e terminou com a assinatura do AI-5, o famigerado decreto que permitiu o fechamento do Congresso e a institucionalização da tortura, abrindo os anos de chumbo.
— O Brasil começou o ano como uma ditadura envergonhada, um governo ainda razoavelmente autoritário, e terminou como uma ditadura escancarada — explica o historiador Antonio Barbosa, consultor legislativo aposentado do Senado e professor da Universidade de Brasília (UnB).
No alvorecer de 1968, fazia quatro anos que o golpe de Estado havia derrubado o governo constitucional de João Goulart. O Brasil era comandado pelo marechal Costa e Silva, o segundo presidente do regime militar. A promessa de que o poder seria devolvido aos civis em 1966 não fora cumprida, e os brasileiros continuavam proibidos de manifestar seu desejo nas urnas.
Praticamente não se ouviam críticas ao regime. Os sindicatos trabalhistas estavam sob o controle do governo. Os grandes rivais dos militares na política, como JK, Jango e Brizola, haviam sido cassados.
Não existia liberdade partidária. Só dois partidos estavam permitidos: a governista Arena e o oposicionista MDB.
Nesse Brasil sufocante, os estudantes universitários e secundaristas surgiram como a principal voz crítica. Suas passeatas procuravam colocar a sociedade contra a ditadura. O governo, por isso, investiu com brutalidade contra o movimento estudantil.
Em termos institucionais, o Senado pouco podia fazer. Com o mundo político nas mãos do governo, estava fora de cogitação aprovar leis contrárias aos interesses dos generais. No entanto, um reduzido grupo de senadores assumiu a heroica missão de reagir, tendo o microfone da tribuna como única arma.
Documentos de 1968 guardados no Arquivo do Senado mostram que senadores como Mário Martins (MDB-Guanabara) e Arthur Virgílio (MDB-AM) se recusaram a dizer “sim, senhor”. As reportagens a seguir trazem trechos de discursos nos quais eles intercedem pelos estudantes, denunciam os abusos e defendem a volta da democracia.
Curiosamente, dois dos líderes estudantis mais importantes de 1968 eram filhos de senadores em exercício: Franklin Martins, filho do oposicionista Mário Martins, e Vladimir Palmeira, filho do governista Ruy Palmeira (Arena-AL).
Citando os perigos da agitação estudantil e da insubordinação do Congresso, os generais da linha dura convenceram Costa e Silva de que só o endurecimento garantiria a sobrevivência do regime. Assim, em dezembro de 1968, o presidente assinou o AI-5. Os estudantes e os parlamentares rebeldes foram silenciados. A ditadura só cairia em 1985.
— As manifestações de 1968 não conseguem atingir os resultados desejados — afirma o historiador Antonio Barbosa. — Contudo, 1968 é um ano memorável porque é quando os jovens aparecem pela primeira vez como protagonistas da história.