MISSÃO . criar condições para fazer emergir um sujeito consciente e engajado consigo mesmo, na relação com os outros e com o todo, com sensibilidade, inteligência prática e fundamentação teórica em sustentabilidade.
Como a Formação Integrada funciona na prática?
Compreendemos que aprender é uma capacidade intrínseca e constantemente presente em nossa vida. Estamos sempre, como aprendentes, nos desenvolvendo, em constante processo de produção de nós mesmos num processo que se dá de maneira integrada: pelo o que nos acontece de fora para dentro, e pelo que percebemos, sentimos e compreendemos de dentro para fora. Desta forma, buscamos combinar conteúdos e atividades que promovam:
- Espaços para o processo pessoal de produção de sentidos de cada sujeito (autoformação), para troca e aprendizagem pelas relações do grupo (heteroformação) e para aprendizagem pelo contato com o ambiente e o conjunto de relações complexas que nele acontecem (ecoformação).
- Condições para a vivência e a expressão do conhecimento por meio não apenas de conceitos e teorias (razão formal), mas também por meio de projetos aplicados, viagens de campo e outras experiências práticas (razão experiencial) e atividades de cunho corporal, artístico, reflexivo e contemplativo (razão sensível).
Nosso processo estrutura-se ao redor de dois eixos:
Projeto de Si Mesmo: atividades, vivências e conceitos que buscam provocar nos alunos uma percepção ampliada de si mesmos, dos outros e da realidade, ativando, expandindo e contribuindo com a apropriação do seu potencial sensível/perceptivo, reflexivo e criativo. Ao longo dos três semestres da Formação Integrada esperamos que os alunos possam:
- Desenvolver linguagem para perceber, abordar e atuar numa realidade complexa (multirreferencial e muldimensional);
- Integrar a dimensão subjetiva e sensível como fonte de conhecimento;
- Incorporar o diálogo como atitude de abordagem ética;
- Reconhecer a complexidade da realidade e identificar seus diferentes níveis e perspectivas/paradigmas.
Projeto Referência: projetos voltados a desafios reais, onde conhecimentos de gestão possam ser ampliados e aplicados sob a ótica da sustentabilidade. Os semestres I e II terão um Projeto Referência diferente, o qual será proposto e selecionado pelo próprio grupo. De maneira geral, o tema do PR deve estar relacionado à dimensão trabalhada no semestre e oferecer uma entrega prática e aplicável. Por seu caráter altamente prático e experiencial, o PR oferece uma oportunidade singular para o grupo entrar em contato direto com situações complexas, que envolvem diversas realidades, atores e variáveis, e onde não há respostas óbvias e prontas. Ao final do semestre, a entrega do projeto é apreciada por convidados externos e avaliada pelo próprio grupo e pelos professores da disciplina, conforme critérios de avaliação detalhados abaixo. Por meio do PR, esperamos que os alunos possam:
- Ampliar sua percepção sobre a realidade e suas relações, por meio do entendimento e da busca por soluções práticas a desafios reais da sustentabilidade;
- Conectar os conceitos e ferramentas que estão na fronteira do conhecimento em Sustentabilidade com suas práticas de gestão;
- Integrar conhecimentos dos diferentes temas da sustentabilidade e da gestão, com visão crítica e sistêmica.
- Atuar como agentes de mudança e transformação rumo ao desenvolvimento sustentável.
SAIBA MAIS ACESSANDO NOSSOS VÍDEOS
SOBRE ESSE RELATÓRIO
Esse relatório tem como objetivo sistematizar os conhecimentos gerados pelos Projetos Referência dos grupos que passam pela Formação Integrada para Sustentabilidade no contexto do Mestrado Profissional em Gestão para Competitividade.
- A cada turma do Mestrado, desenvolvemos de quarto a seis projetos por semestre.
- Cada projeto é composto por uma equipe de alunos(as) que define seu próprio desafio, identidade e processo de trabalho (stakeholders chave a serem procurados, conteúdos a serem investigados, formato da entrega final, recursos necessários etc).
- O percurso para este processo de trabalho é baseado na Teoria U: desenvolvida por Otto Scharmer e outros pesquisadores da área de Aprendizagem e Mudança Organizacional do MIT, “a Teoria U propõe que a qualidade dos resultados que obtemos em qualquer sistema social é consequência da qualidade de percepção e consciência a partir da qual operamos nestes sistemas.” (Presencing Institute) Trata-se de um framework; um método para liderar mudanças profundas; e uma maneira de ser – conectando aos aspectos mais autênticos e elevados do indivíduo.” Como processo, a Teoria U propõe três macro etapas: Observar, observar, observar ("descida do U"): investigar e compreender um sistema de dentro dele, interagir com os stakeholders chave, abrir-se à escuta, sentir; Retrair e refletir ("meio do U"): silenciar para conectar-se consigo mesmo e com sua fonte sensível de percepção e criatividade (Presencing); e Agir em um instante ("subida do U"): deixar emergir resultados inovadores colocando em prática as soluções possíveis - ainda que em forma de protótipos - e aprendendo com elas.
Enunciado - Teoria da Mudança
O objetivo do presente projeto consiste promover o debate com/entre os seus destinatários, fomentando a conscientização social e a importância de se expandir a lupa de Diversidade & Inclusão entre os profissionais da sustentabilidade, incluindo uma população com inúmeras vulnerabilidades sobrepostas: mulheres egressas do cárcere.
Propõe-se uma entrega voltada especificamente aos alunos do Mestrado em Sustentabilidade da FGV, ocupantes de cargos de liderança em empresas, na sociedade civil e demais estudiosos e interessados nos temas que abranjam de forma direta ou indireta o objeto deste trabalho.
Ao longo do desenvolvimento deste relatório, empregou-se um enfoque voltado para o recorte de raça, gênero e sexualidade a fim de demonstrar os diferentes tipos de prisões vivenciados por mulheres no âmbito do sistema carcerário brasileiro.
Neste contexto, observa-se que no âmbito organizacional são escassas ou desconhecidas quaisquer tentativas para o ingresso desse público no mercado de trabalho, embora o Governo Brasileiro tenha criado a “Política Nacional de Trabalho no Âmbito do Sistema Penal” (Decreto nº 9.450/2018), elencando como um de seus principais objetivos a ressocialização da pessoa egressa do sistema penal por intermédio de sua inserção no mercado formal de trabalho e promovendo sua reinserção social.
Salutar, portanto, a iniciativa da organização não governamental Casa das Flores que se propõe a preencher a lacuna deixada pelo Poder Público e por parcela do setor privado, direcionando sua atuação para efetiva ressocialização das egressas do sistema carcerário brasileiro.
Investigação e escuta
Questões e inquietações iniciais
O que despertou o olhar do grupo para populações vulneráveis no contexto da pandemia foi o debate entre Janaina Paschoal e Padre Julio Lancelotti que ganhou espaço nas redes sociais no mês de agosto deste ano, quando a deputada estadual criticou o Padre Julio por distribuir alimentos para a população de rua no centro de São Paulo, o que na opinião do grupo representou uma limitação no entendimento da complexidade do problema da vulnerabilidade social enfrentado - naquela ocasião específica - por dependentes químicos que vivem em situação de rua.
Esse despertar inicial, somada à percepção sobre o aumento da população de rua e outros impactos diretos na população exposta a algum tipo de vulnerabilidade social, foi responsável pelo aprofundamento da análise do impacto da pandemia neste contexto (agravamento da vulnerabilidade social).
A partir deste incômodo o grupo decidiu ir em busca de stakeholders que trabalham com diferentes populações vulneráveis - idosos, mulheres, crianças e adolescentes e população de rua - para conseguir mergulhar mais fundo na problemática.
Fontes de investigação. As nossas fonte de coleta de dados sobre o cenário atual das pessoas em situação de rua foram stakeholders que colaboram em projetos sociais. A pandemia agravou a difícil realidade das pessoas em situação de rua e acentuou as demais vulnerabilidades já existentes. Durante o kick off percebemos que independentemente do foco de vulnerabilidade que cada projeto trata, algumas observações feitas sobre os problemas vivenciados nas ruas foram comuns aos nossos stakeholders, como por exemplo a necessidade de acolher e proteger mulheres que estão sozinhas nas ruas e mulheres acompanhadas de seus filhos. O aumento do número de famílias que atualmente vivem em situação de rua por terem perdido seus empregos e não conseguirem manter suas moradias, também chamou a atenção dos nossos convidados. Além disso, todos foram enfáticos em dizer que a ausência do poder público contribui fortemente para o aumento contínuo do número de pessoas vivendo em situação de rua.
Formas de coleta de dados. Convidamos pessoas de projetos sociais que já tínhamos algum contato ou conhecíamos o projeto em que elas estão envolvidas. A coleta de dados se deu durante o kick off.
Devido as inquietações do grupo referente as diversas vulnerabilidades sociais, fomos visitar o projeto Kalebe, no dia 01/09/2021, dirigido pelo pastor Daniel Cecchio, a iniciativa consiste em assistência a idosos na região da Bela Vista, em parceria com o Hospital Sírio Libanês, a Igreja Comunidade Evangélica do Bixiga promove ações sociais majoritariamente aos idosos da região. O pastor Daniel nos contou sobre o quanto os idosos, que em sua maioria sofrem o abandono por parte de suas famílias, ficaram ainda mais descuidados e fragilizados durante a pandemia. O projeto levou alimentos para os idosos, que estavam passando fome em alguns casos por não poderem sair de casa, houve mutirões para limpeza das casas e roupas destes vulneráveis. O pastor acredita que haveria muitas mortes se o projeto não estivesse dedicando esforços para garantir o bem estar dos idosos que receberam atendimento.
Kick off 27/09/2021 Convidados: Fernando Luiz Novoa y Novoa; Marco Antônio da Silva Souza; Nadilson Portilho Gomes; Sueli Amoedo; Sueli Camargo e Vânia Bezerra.
Fernando Luiz Novoa y Novoa: Formado em Educação Física Universidade Metodista de São Paulo e pós- graduado em fisiologia do exercício na UNIFESP. Ativista da ONG Grupo de Atitude Social (GAS) há 3 anos e da ONG Anjos da Cidade a 2 anos. Voluntário de diversas iniciativas da organização da sociedade civil com foco em populações de vulneráveis, tais como: Cuida SP, SO Invisível, Projeto Meraki, Projeto Ubuntu e Patinhas e Pãozinho Solidário.
Marco Antônio da Silva Souza (Markinhus): Educador e Cientista Social, Coordenador do Projeto Meninos e Meninas de Rua, militante do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua (MNMMR), Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH), Coalizão Negra por Direitos, ex conselheiro do Conselho Nacional dos Direitos de Criança e Adolescente (CONANDA) e Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH).
Nadilson Portilho Gomes: Promotor de Justiça do Ministério Público do Pará, titular da Promotoria de Infância e Juventude de Belém. Mestre em Ciências Histórico- Jurídicas pela Universidade de Lisboa/Portugal. Membro da COPEVID - Comissão Permanente de Combate a Violência Doméstica e Familiar Contra Mulher. Membro da Câmara Técnica de Equidade, Igualdade e Gênero e Mudanças Climáticas do Estado do Pará.
Sueli Amoedo: Advogada, Palestrante, Gestora de Políticas Públicas para mulheres de 2013 a 2020 em Taboão da Serra/SP. Implantou Patrulha Guardiã Maria da Penha, Implantou o projeto Tempo de Despertar, Liderança Nacional jurídica do projeto Justiceiras.
Sueli Camargo: Advogada e Assistente Social, Coordenadora da Pastoral do Menor da Arquidiocese de São Paulo. Ex-conselheira do CMDCA/SP, oportunidade em que coordenou o grupo de trabalho e construção de políticas públicas para criança e adolescente em situação de rua do Município de São Paulo.
Vânia Bezerra: Diretora de Compromisso Social - Hospital Sírio Libanês. Graduada em Relações Públicas, Especialista em Comunicação e Marketing e Especialista em Gestão em Saúde – Fundação Dom Cabral, Mestranda em Gestão para Competitividade pela FGV. Gestão de Projetos, Impacto Social, Políticas Públicas e Relacionamento com o Governo. Experiência Internacional: Universidade de Harvard 2016 e 2017, Universidade Oxford 2017 e 2018, Kaiser Permanente – Califórnia – EUA – 2019 e Líderes da Alta Gestão – Porto – Portugal 2019. Premiações: Premio Líderes Latino Americanos de Salud - Oxford 2018; Condecoração Novos Membros Grupo Alta Gestão – Lisboa 2019; Premio La Trayectoria de Mujeres Líderes – Buenos Aires 2020.
Principais aprendizados e insights
A pandemia de coronavírus aprofundou as desigualdades socioeconômicas pré-existentes e colocou grupos já vulneráveis em situação de vulnerabilidade ainda mais aguda. Segundo o relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) intitulado "Covid-19 e Desenvolvimento Sustentável: avaliando a crise de olho na recuperação" revela que a pandemia afetou todas as nações, porém com impacto mais acentuado em países com índice de desigualdade econômica maior, como é o caso do Brasil. Antes da pandemia, a extrema pobreza e a fome já eram motivos para preocupação, pois o país já apresentava elementos de crise econômica, visto em 2018 já havia 14 milhões de pessoas desempregadas no Brasil. A crise sanitária da covid-19 revelou de vez o tamanho da desigualdade social já existente. De acordo com o documento da ONU, embora o país tenha registrado avanços importantes nas últimas décadas, a pandemia atingiu em cheio a população mais vulnerável, aumentando ainda mais as diferenças sociais existentes na sociedade brasileira.
Papel central desempenhado por Organizações da Sociedade Civil junto a grupos vulneráveis durante a pandemia. Com o agravamento da desigualdade devido a pandemia a mobilização do terceiro setor tornou-se mais intensa para ajudar os grupos mais vulneráveis à sobreviver à crise. A pandemia mostrou que esta rede tem valor impressionante para sensibilizar a sociedade e que ações solidarias cheguem a quem precisa. Sendo que, no Brasil há um cenário social complexo, cada organização não governamental que atua em defesa de melhores condições de vida tem contribuído de maneira diversa, agindo como uma verdadeira rede de apoio aos mais desvalidos. As entidades ligadas a movimentos sociais, conseguem atender a uma demanda que não está sendo coberta por instituições governamentais, lutando por melhores condições e promovendo o bem-estar dos atores envolvidos em cada instituição.
Com a descida do U tomamos a decisão de trabalhar com um grupo que apresenta vulnerabilidades sobrepostas: as mulheres egressas do sistema carcerário brasileiro, visto que as mesmas são marcadas além do estigma criminal, o da raça, classe e gênero. Enfrentam muito preconceito e discriminação principalmente para conseguir um emprego, dificultando a ressocialização em uma luta cotidiana pela sobrevivência, sem auxílio de políticas públicas de reabilitação pós cárcere, como se tal processo fosse de responsabilidade unicamente individual e não parte da agenda governamental.
Presencing: retrair e refletir
Sentimentos, sensações e insights individuais (depoimentos de cada membro do grupo narrando sua percepção nesta etapa do percurso)
Marina Borges: Com a crise causada pelo coronavírus me fez observar que a pandemia impactou com mais intensidade determinados grupos sociais de forma assimétrica. Diversas reportagens nos mostraram sobre as consequências da covid-19 para a população vulnerável, como os moradores em situação de rua, moradores de comunidades, mulheres que sofrem violência doméstica...A situação de vulnerabilidade social está relacionada com a exclusão de cidadãos e falta de representatividade e oportunidade das pessoas. Sendo que, há diversos fatores sobrepostos para que essas vulnerabilidades sejam um muro quase intransponível, como questões de moradia, renda, educação, entre outros. Em meio da decida do U, o grupo percebeu que há um grupo de pessoas que são extremamente vulneráveis perante a sociedade brasileira, as egressas do sistema carcerário são completamente invisíveis e marginalizadas. Na maioria das vezes elas vivem em moradias precárias, possuem baixo nível de renda e escolaridade, são submetidas a subempregos ou desemprego, enfrentam desorganização familiar e falta de participação social. Além disso, carecem de assistência social ou quando recebem esta assistência é incompleta. Não há programas de proteção social para mitigar a situação de vulnerabilidade das mulheres egressas. Tenho a sensação de total descaso e abandono, que elas são deixadas a própria sorte.
Bruno Oliveira: Como falar em sustentabilidade sem este olhar profundo do "S" (social)? Dentre o contexto de sustentabilidade, ao meu ver, ainda se foca muito na parte ambiental. Longe de não ser importante falar sobre o meio-ambiente e como este vem sendo afetado sob a lógica do desenvolvimento econômico, mas em um país como o Brasil não tratar do viés social dentro do contexto da sustentabilidade (ou mesmo fora dele) é estar alheio à nossa realidade. O que já era um problema (desigualdade e vulnerabilidade social) ficou ainda maior no contexto da pandemia do coronavírus e acredito que o nosso processo (e entregas) foi muito ao encontro do que acredito ser meu papel como cidadão. Dar voz a uma população tão marginalizada e invisível, portanto, foi o que mais me motivou a seguir este caminho (talvez influenciado por exemplos dentro de casa, dado que minha Mãe foi diretora da Febem - hoje Fundação Casa - durante 25 anos e sempre lutou para que as vozes dos mais vulneráveis fossem ouvidas pela sociedade). Estar em contato com uma realidade tão distante da nossa, tão cheia de "prisões" e vulnerabilidades sobrepostas e poder, de alguma forma, ajudar na ressocialização de mulheres egressas do cárcere (ou ao menos dar espaço para a fala delas) é algo que me move como ser humano, como mestrando e como cidadão.
João Macêdo. A eclosão da pandemia do covid-19 acentuou o cenário de vulnerabilidade social observado em nosso país nos últimos anos. Observou-se, desde então, uma retração econômica profunda, crise de empregabilidade, desaquecimento do mercado de consumo e declínio na produção industrial, assim como na circulação de bens e prestação de serviços. Neste cenário de incertezas, optamos por trabalhar com uma população quase invisível, que habita nossas prisões e das quais conhecemos malmente os processos, os crimes que são imputados, as acusações legais, enquanto isso, deixamos no limbo as estórias de vida, abandonamos o ser humano que habita por trás daquelas barras de metal e que ficam espremidos em celas de até dois metros quadrados. Minha experiência profissional consiste em reprimir a criminalidade, aplicar a legislação em casos concretos, porém não fui ensinado a debruçar-me sobre o passado, a investigar os verdadeiros motivos para prática de um ato considerado como criminoso. Enfim, vivenciar a experiência de vida desse grupo de mulheres modificou minha concepção pessoal e profissional, introduzindo novas premissas e aprendizados para o futuro, voltado à humanização das relações interpessoais e do cuidado em fazer uma escuta ativa, com empatia ainda que dentro do contexto de egressos do sistema penitenciário, de pessoas que posso ter ajudado a condenar. Sem sombra de dúvidas foi um aprendizado único!
Denise Piha. Demorou um certo tempo para eu entender que a desigualdade, a pobreza e o subdesenvolvimento poderiam fazer parte de um projeto de país. Cheguei a acreditar que um dia o Brasil poderia ser um país melhor, um país que distribui renda, um país em que as pessoas não morrem de fome, em que as pessoas tem onde morar, um país em que as pessoas tem garantidas as condições básicas de uma vida digna. A pandemia do covid-19 chegou e me mostrou mais uma vez o que são os privilégios, a importância de reconhece-los e de unir forças para resistir àqueles que acreditam que algumas vidas valem mais do que outras. Entrar em contato com as vozes de mulheres egressas do sistema carcerário e com seu grau de vulnerabilidade foi um choque de realidade para mim, um choque incômodo e necessário. Como pesquisadores e profissionais da sustentabilidade é imperativo refletirmos sobre os espaços que ocupamos e sobre os lugares que precisam ser ocupados por vozes que foram sistematicamente violentadas e silenciadas. Tenho orgulho da nossa entrega, acredito nas pequenas revoluções e no potencial que a escuta ativa dessas vozes tem de tirar muitos de nós da zona de conforto e promover mudanças reais. Agradeço ao grupo pela coragem de mergulhar nesse tema!
Patrícia Xavier. Quando começamos a discutir sobre trabalharmos com pessoas em situação de vulnerabilidade me senti engajada e me identifiquei com o tema imediatamente, pois falar de maneira profunda sobre as pessoas que vivem em situação de vulnerabilidade e todo o contexto que as levou para este lugar, físico e emocional, com os agravantes causados pelo COVID-19 seria realmente desafiador. Porém, quando meus colegas fizeram o recorte para trabalharmos sobre a situação das mulheres egressas do sistema carcerário, eu não tive a mesma sensação e comecei a pensar que poderíamos falar a respeito das outras dezenas vulnerabilidades que afetam as pessoas pobres no Brasil. Eu não tinha dúvidas de que os desafios enfrentados pelas mulheres egressas eram realmente complexos, pensava na situação de abandono e que deveriam passar por todo tipo de humilhação, violência psicológica e física. Participar de uma inciativa que tivesse colocado uma luz tão direcionada sobre este assunto como foi durante o PR era algo novo para mim, mas me senti desconfortável, em pensamento me neguei a participar, mas sem me questionar sobre o motivo, simplesmente me fechei. Até que em uma das nossas reuniões, ao ver todos engajados e falando do assunto com tanta coragem, pensei que não estava sendo honesta com meus colegas e que deveria me posicionar. Eu só queria dizer como me sentia, em nenhum momento pensei como seria a reação deles, me desculpei e assim que falei como me sentia houve alguns segundos de silêncio, neste momento senti um alívio. Foi então que o Bruno Oliveira rompeu o silêncio e me disse que eu poderia respeitar os meus limites e continuar com eles para lidar com este assunto. Para mim, naquele momento, ele me deu uma oportunidade de vivenciar esta experiência e melhorar como pessoa. Decidi continuar com o grupo, me abrir para conhecer sobre esta triste realidade e superar um desafio pessoal, admirando a todos pelo posicionamento. Depois das nossas reuniões era difícil me desconectar do tema e pensava muito sobre o momento em que elas tiveram que tomar atitudes que as levaram à prisão, pensei muito nos filhos e na família das egressas. Após viver a experiência de me aprofundar sobre a vida destas mulheres, o que ficou é a convicção de que elas mulheres precisam de todo tipo de ajuda, perdão, amigos, solidariedade, respeito, companheirismo, oportunidades profissionais, empatia e de todo os tipos de amor. Elas precisam das mesmas coisas que eu que eu preciso para ser feliz.
Desenvolvimento do produto final: agir em um instante
Processos de prototipagem
O processo de prototipagem consistiu em conversas iniciais com a ONG Casa Flores e análise de números e informações públicas, além de vídeos e materiais da própria organização.
Além disto, o grupo participou de uma roda de conversa com uma das mulheres atendidas pela Casa Flores de forma a "confirmar" o objetivo da entrega (sensibilização sobre o tema) e delimitar o que pretendemos entregar como produtos final. A rodada de sensibilização do próprio grupo foi fundamental para construção da entrega.
A conversa inicial ocorreu e do lado da ONG Casa Flores participaram Flávia Ribeiro de Castro, (fundadora) e Raquel Canineu (coordenadora). Na ocasião nós explicamos sobre o mestrado em sustentabilidade, explicamos sobre o Projeto Referencia e a nossa opção de fazer um trabalho sobre o “S” da sigla ESG, o que despertou bastante interesse por parte delas. A partir da escuta conseguimos compreender que o período da pandemia foi de grande dificuldade para as mulheres egressas atendidas pela ONG, sobretudo no que diz respeito à dificuldade em gerar renda dado que a maioria delas encontrava-se na informalidade. Por conta disso a ONG passou a desempenhar um papel adicional de caráter assistencialista, com a distribuição de auxílio financeiro para pagamento de aluguel e de cestas básicas. Foi neste contexto que a fundadora da ONG compartilhou conosco que de fato um dos maiores desafios enfrentados por essas mulheres está relacionado à dificuldade de inserção do mercado de trabalho formal. Quando sondamos se seria possível conversar com uma das mulheres a Flavia nos apresentou a iniciativa idealizada pela ONG, de promover rodas de conversas com egressas em prol da diversidade e inclusão. Tratam-se de rodas de conversa remuneradas que tem como objetivo valorizar a história de vida dessas mulheres. Em um primeiro momento a ideia de ter que pagar para escutar uma das mulheres falar gerou estranhamento na maioria dos membros do grupo, o que por si só viabilizou uma reflexão importante, dado que percebemos estar acostumados a não questionar o fato de pagarmos para entrar em contato com o conhecimento disciplinar e formal, mas não estamos dispostos na mesma medida em pagar para entrar em contato com outro tipo de conhecimento, um conhecimento não disciplinar, oriundo de ricas experiências (felizes e tristes) de vida que não cabem no lattes. Decidimos encarar nossos medos e preconceitos. Nos abrimos para o novo e a experiência foi realmente transformadora.
Chegou o dia de conversarmos com Patricia Borges, mulher preta, trans e travesti de 31 anos que passou pelo sistema carcerário brasileiro e que escreve poesia. Começamos a nossa conversa com a Patrícia nos contando a sua história desde que era criança, passando por presenciar as agressões físicas do pai com a mãe, vício do pai em drogas, as brigas, a violência que sofria por ser uma mulher no corpo de um homem. Seu tom de voz era forte e ela nos fez perceber que estávamos diante de uma pessoa determinada, corajosa e com “muita vontade de ocupar seu lugar no mundo”, como ela mesma nos disse. Uma mulher dona de sua própria história, com uma visão muito clara sobre como sua vida foi, como poderia ter sido e sobretudo, como ela quer que seja o seu futuro. Uma mulher consciente das contradições existentes na sociedade em que vive. Uma mulher de grande coração, que transformou o sofrimento sofrido em amor. Patricia finalizou a roda com a leitura de uma poesia escrita por ela e então entendemos definitivamente seu poder de transformar dor em arte. Quando acabou ficamos extremamente gratos pela oportunidade de conversar com ela, o que nos despertou a vontade de fazermos mais para que a mensagem e a realidade de mulheres egressas chegue a pessoas com potencial para ajudá-las a escrever uma história de vida melhor. Propusemos uma nova roda de conversa para que ela, em primeira pessoa conte a sua história para os nossos colegas do mestrado com a intenção de plantarmos uma semente capaz de ampliar redes e relações, seja para que essas mulheres possam ocupar espaços até então desconhecidos e que historicamente lhes foram negados, seja para que os nossos colegas de turma tenham a oportunidade de conhecer e de se sensibilizar com histórias grandes e inspiradoras e quem sabe assim contribuir para a desconstrução do estigma existente sobre essa população.
Produto Final
O principal produto a ser entregue é uma "Roda de Conversa" de sensibilização ao tema.
Roda de Conversa: A proposta de ter uma roda de conversa com uma mulher egressa com toda a turma do mestrado busca sensibilizar a turma sobre uma parcela da população ainda mais invisível (dado o contexto onde elas estão inseridas), chamando atenção para a necessidade de se lançar um olhar sobre o aspecto social da sustentabilidade além daquele já normalmente abarcado por empresas (quando falamos de impactos sociais das organizações nas comunidades onde estão inseridas) e também, quem sabe, abrir portas para oportunidades de inserção das mulheres egressas no mercado de trabalho (uma das principais dificuldades, dentre as tantas vividas por essa população).
Nota: além disto, o grupo trabalhará em um vídeo institucional de divulgação do trabalho de ressocialização da ONG Casa Flores. A ideia desse vídeo é ampliar as vozes das mulheres atendidas e da própria organização, podendo alavancar a divulgação da ressocialização pretendida e também alcançar uma audiência fora dos muros da FGV (dado que o vídeo será doado para a ONG para utilização institucional sobre o que fazem, suas necessidades, etc).