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Jornalismo REgional Onde cada história tem um lugar

Com a necessidade de cobrir tudo o que acontece, o jornalismo é cada vez mais acelerado. Há uma história em cada canto, mesmo que muitos não a vejam. Para que elas não passem despercebidas, há quem dedique o seu dia-a-dia a dar palco aos de “perto”. É esse o propósito do jornalismo regional.

O caminho começa aqui

Diário de Notícias da Madeira

Já passa da hora de almoço. As pessoas circulam pela Rua Fernão Ornelas, no Funchal. Ao passar pelo café DN, ouve-se a máquina do café e os murmurinhos das conversas sobre a capa do dia. Na compra de um café, o Diário de Notícia da Madeira vai saindo de trás do balcão para as mãos dos leitores.

Sobe-se até o terceiro andar do prédio e lá está o Diário de Notícias da Madeira. Ninguém passa a entrada sem desinfetar as mãos e medir a temperatura. É o reflexo da atual situação pandémica, assim como, o silêncio que se faz sentir na redação.

Percorre-se mais uns metros e já se começa a ouvir o som dos teclados, o ruído das impressoras e os risos dos jornalistas. Não são muitas as pessoas na redação. Dos 25 jornalistas da casa, apenas cinco estão no espaço. Ricardo Oliveira, o diretor do Diário de Notícias da Madeira, é uma das vozes presentes. Vai organizando o trabalho dos jornalistas e o seu próprio trabalho, aliás “aqui os chefes são tão trabalhadores como os outros”.

Ambiente de trabalho no DN Madeira

Em cima das secretárias está a edição do dia anterior. Na capa destaca-se o título “Milagre no Dilúvio”. As chuvas fortes e os deslizamentos de terra do dia de Natal ainda estão gravadas na memória madeirense. Nesse dia, a taxa de rejeição foi de 4%. “As desgraças, por muito que as pessoas e os sábios do jornalismo deem voltas, ocupam o primeiro lugar das preferências dos leitores de todo o mundo”, refere Ricardo Oliveira.

É nestes momentos que o papel do jornalismo não é só dar o problema, é também apresentar soluções. Para o diretor, o consumo da desgraça “não é só voyeurismo, não é só deliciar-se com aquilo que é produzido em termos factuais”. É essencial estar preparado para responder da melhor forma às adversidades, “sobretudo, quando elas nos tocam de perto”.

Neste campo, o jornalismo regional revela a sua importância ao posicionar-se próximo dos locais, “porque se fizer uma coisa demasiado distante não vai tocar ninguém”. O desafio é “ter capacidade de penetração no local", o sucesso passa por serem “aliados” dos madeirenses e o foco “é a qualidade de vida que eles [madeirenses] merecem ter”.

Os madeirenses, estejam eles dentro ou fora da ilha, sentem o Diário “como algo patrimonial”. Neste meio de comunicação encontram a sua realidade espelhada. “A CNN não dá, com certeza, notícias dos Lamaceiros [freguesia do Porto Moniz], mas o Diário dá”, explica Ricardo Oliveira. Acredita, também, que os jornais regionais “serão o futuro”, já que “têm maior facilidade em tocar mais de perto em populações concretas, para que elas possam ter melhor capacidade de escolha”.

“Os objetivos são os de sempre”, mas os tempos obrigaram à mudança. Foi em 1999 que o Diário de Notícias da Madeira surgiu no digital. “O mundo caminhava rapidamente para uma transição digital, logo devíamos estar presentes nesse meio, e assim foi”, justifica o diretor.

Inicialmente, as pessoas consideravam o site “um brinquedo”. Hoje, com o constante apelo ao segundo, “há sempre gente no site”, gente dispersa por todo o globo. O online veio romper fronteiras e atravessar oceanos, distribuindo, assim, o Diário por qualquer ponto do mundo.

O jornal não só é lido, como também reconhecido. “Todos os anos somos premiados”, salienta o diretor. Em 2010, o Diário de Notícias da Madeira foi considerado pela European Newspaper Award, o “Jornal Europeu do Ano”, na categoria de jornal local. Mais recentemente, em 2019, foram atribuídos dois prémios correspondentes a duas capas. Este sucesso, para Ricardo Oliveira, deve-se à “coerência entre aquilo que é o conteúdo e aquilo que é a estética”.

Foi um “caminho que se foi aperfeiçando”. Atualmente, as dinâmicas de multimédia e os ritmos de trabalho são mais acelerados. Tanto no papel como no digital, há que compreender as limitações. No impresso não dá para colocar vídeos, contudo, o DN procurou alternativas. “É preciso ser engenhoso, criar experiências em torno da compra avulso”. Nesse sentido, Ricardo Oliveira recorda que “já se fez uma edição com cheiro”, afirmando que “ no digital já se consegue fazer tudo, menos com cheiro”.

Para além da publicidade, as vendas de jornais a avulso são uma das maiores fontes de financiamento do Diário: há cerca de quatro mil assinantes que recebem o papel nas suas casas. As assinaturas online, que rondam as 500, também são um forte aliado financeiro. “Há uma fidelidade que se mantém”.

Correio do Minho

A 1233 quilómetros, na cidade de Braga, a realidade jornalística não é assim tão diferente. No Correio do Minho, o sossego também é notório. Pelos corredores ouve-se o eco da secretária a atender os telefonemas. Mais à frente, ao chegar à redação, só estão quatro jornalistas a trabalhar no agendamento do dia.

O vazio é evidente

Um deles, Rui Miguel Graça, chefe de redação, define o número de páginas que vai ter cada secção. “Começa-se a trabalhar assim”, revela. Há um ano “havia mais azáfama”, hoje “90% do grupo está em teletrabalho” e, por isso, a organização “é toda mais pelo telefone”.

Muitos são os pormenores tidos em conta antes do jornal chegar às bancas. Garantir a qualidade do conteúdo é a prioridade. “Quanto mais qualidade tiver o produto, mais capacidade tem de ser diferenciável”, elucida Rui Miguel Graça.

Outra caraterística destacada é a forte proximidade com as pessoas, “sentem até que são parte integrante do jornal”. Tal se deve ao tratamento da região “como a cereja no topo do bolo”. Os leitores identificam-se ao “aparecer no jornal a vizinha, a escola da zona, o café da esquina”.

Rui Miguel Graça dá até um exemplo “caricato, mas que não deixa de ser interessante”. Há uns anos, na época das chuvas, um senhor de Vila Verde, antes de ligar para os bombeiros a pedir ajuda, ligava para o jornal para ser notícia que a casa dele estava a ser inundada. “Isto não acontece com os jornais nacionais”, clarifica.

São cerca de 85 mil leitores diários do Correio do Minho. É um público muito diversificado, “não é o intelectual, o músico ou o engenheiro, é de tudo, é o espelho da sociedade da própria região”.

O trabalho de equipa...

Embora o impresso tenha “muita força”, muitos dos leitores foram conquistados através do site. Para Rui Miguel Graça, o digital é uma mais valia ao permitir dar notícias em primeira mão, o que vai “representar muitas mais visualizações”. “A técnica de antecipar as circunstâncias é o ideal”, esclarece.

Outra das estratégias adotadas foi unir o papel ao digital, disponibilizando o jornal impresso em PDF no site. O Correio do Minho pretende que a versão em papel “chegue a todo o lado”. Por isso, quando questionado sobre a possibilidade do desaparecimento do jornal em papel, responde com um não convicto, afirmando que “isso não passa pela cabeça nem de perto nem de longe”.

A procura pela harmonia entre o texto e as imagens

Fruto do trabalho, o Correio do Minho foi homenageado no Dia da Cidade, com a medalha de mérito municipal, “um prémio fantástico, reconhecimento do ano que foi duríssimo”. Mesmo assim, “o futuro é o que as pessoas quiserem”.

O órgão que olha pelo jornalismo regional

Para proteger os interesses, as ambições e os problemas da imprensa local e regional surgiu, em 2015, a Associação Nacional de Imprensa Regional (Anir). O presidente da Anir, Eduardo Costa salienta a força do jornalismo regional. “ Nós somos o quarto poder e, localmente, este é fundamental à democracia, não é dispensável”

Sobre a dictomia entre o papel e o digital, a diferença prende-se com os custos de produção, distribuição e mão de obra especializada. “No papel, os custos são elevadíssimos”, sublinha Eduardo Costa. Mesmo assim, o diretor enfatiza que “localmente as pessoas preferem papel”, afirmando que este “mantem-se firme e vai continuar a manter-se firme”.

Processo do jornal impresso

Comprar o jornal é “sentir o toque do papel”

A próxima paragem dos jornais são os postos de venda. Perto do Parque da Rodovia, em Braga, avista-se António Fernandes, proprietário do quiosque da zona. A poucos metros de distância, começa-se a ouvir o murmurinho e, quando se chega mais perto, ouvem-se os vocativos que saltam de um lado para o outro do quiosque: “ó Tó Zé!”.

Por volta das 16 horas, hora de maior movimento, confidencia o dono, os jornais já andam pelas mãos dos leitores. António está dentro das quatro paredes do seu quiosque. Vai vendendo cafés, raspadinhas, cromos e, claro, jornais. Muitos dos clientes já nem precisam de dizer o que querem, António já sabe o que eles precisam, afinal já os conhece há 17 anos.

Em 2003 decidiu deixar a sua profissão de rececionista para trás. “Agora gosto do que faço”, admite. Queria um trabalho “saudável” que dependesse apenas de si próprio, uma profissão onde pudesse falar com as pessoas. “A gente convive muito e o tempo passa muito rápido”.

“Vem um, vem outro e arranja-se este convívio"

Apesar das máscaras na cara, a conversa mantém-se viva. “Vem um, vem outro e arranja-se este convívio, está sempre aqui alguém à beira do quiosque”, reforça António. As notícias do dia também são por lá discutidas. “O Marcelo vai voltar a ganhar?” é o assunto do momento.

Os temas falados são muitos, mas as vendas dos jornais não são assim tantas. António confessa que o jornal impresso teve “uma quebra grande, muito grande”. Menciona que quem compra jornais em papel são “clientes que já veem a ler há muito tempo, que estão numa idade para cima dos 60 anos”. A pandemia piorou ainda mais o cenário, pois “essas pessoas têm medo de sair de casa”.

O interior do quiosque, onde os jornais estão prontos a ser vendidos

O Expresso é o jornal mais vendido, uma vez que “dá para toda a semana”. De todos os exemplares expostos, apenas o Diário do Minho e o Correio do Minho são jornais regionais e é o “suficiente”, garante António. “Tudo o que se passa a nível local vem lá escrito”.

Quem concorda com estas palavras é Pedro, cliente habitual e companhia assídua de António no quiosque. “Leio todos os dias o Correio do Minho”, revela, explicando que gosta de “estar a par da situação cá da zona”. Com as mãos nos bolsos, o frio não o impede de cumprir a rotina, que o faz sentir “mais informado e próximo de todas as freguesias”.

Com os seus 70 anos, Pedro vai contra a corrente da digitalização e mantem a “preferência” no jornal em papel. “Ao natural” como caracteriza o próprio. “O original, o antigo vai sempre às raízes, tem a ver com a forma como fomos criados”, esclarece. Apesar de preferir o toque das folhas, também acompanhou a transição para o digital e, de vez em quando, vai lendo algumas notícias no ecrã do telemóvel. “Vamo-nos adaptando aos poucos, ao dia-a-dia, ao tempo”, diz tranquilamente.

Pedro é um leitor habitual do quiosque do “Tó Zé”. No entanto, “pouca gente lê o jornal agora”, reforça António. Alude até ao facto de nos próprios jornais já vir escrito para fazer a subscrição online. As vendas de jornais já não são as mesmas, tendo de adaptar o seu negócio à nova realidade. António confessa que os compradores são “os de sempre” e que se vivesse apenas dos jornais, “já tinha fechado portas”. Quanto aos mais novos, admite que “ já não querem nada com o papel”.

Reflexo das palavras do dono do quiosque é Clarisse Castro. A poucos metros, num dos prédios que circunda a Rodovia, vive a jovem. Perto em distância, mas longe dos costumes, Clarisse já tinha dado uma vista de olhos pela homepage do seu jornal favorito, o Público. Este hábito acompanha a estudante de jornalismo todos os dias.

“Prefiro digital, porque tenho acesso imediato"

Motivada pela curiosidade de saber tudo ao minuto, é pelo computador que acede àquilo que se vai passando pelo país. “Prefiro digital, porque tenho acesso imediato, estou à distância de um clique e acaba por ser muito mais prático”, assume.

Raras são as vezes que Clarisse prefere o papel ao ecrã. Não faz parte do seu quotidiano “ir comprar o jornal, depois sentar e folhear”. Todavia, acredita que o jornalismo impresso nunca vai ter um fim, aliás, ainda existem pessoas que “preferem sentir o toque do papel”. Para Clarisse, “agora o papel acaba por marcar pela diferença”, o que antes era o habitual, agora tornou-se “especial”.

Apesar de se considerar uma leitora digital, não é subscritora de nenhum jornal online. Um forte entrave para a jovem, pois não consegue ter acesso ao conteúdo exclusivo. “Não estou nesse patamar em que compro notícias online”, salienta.

A aspirante a jornalista admite gostar ler “de tudo” e a sua maior prioridade é estar sempre informada. No entanto, tem preferências no que toca às suas escolhas: “gosto muito de saber temas mais gerais”. É neste sentido que procura informar-se, maioritariamente, a nível nacional.

Quanto ao jornalismo regional, apesar de não ser a sua primeira opção, Clarisse reconhece as suas vantagens, recorrendo a este sempre que precisa de uma notícia “mais especifica”. “O jornalismo nacional não consegue cobrir todos os pontos”.

A jovem sente que os jornais regionais “estão muito velhos” e não conseguem ir ao encontro dos interesses dos mais novos. Pela falta de jovialidade e dinâmica nestes meios locais, Clarisse teme que “enquanto não houver essa mudança, eles [jornais regionais] estagnem”.

Ficha Técnica

Ana Sousa

Juliana Martins

Agradecimentos

António Fernandes, proprietário do quiosque

Clarisse Castro, estudante de Ciências da Comunicação na Universidade do Minho

Eduardo Costa, presidente da ANIR

Manuel Pedro, leitor do Correio do Minho

Ricardo Oliveira, diretor do DN Madeira

Rui Miguel Graça, chefe de redação do Correio do Minho