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A Selva dos Animais Domésticos

Karine Torres: “As pessoas continuam a pensar que os animais são bonecos”

As leis que afetam os animais domésticos estão ainda difusas e em períodos de transição. Canis e associações protetoras de animais têm que se adaptar diariamente. O controlo da aplicação das medidas é questionado pelos profissionais da área.

São 7:27 da manhã. O frio sente-se no ar. Em Caminha estão apenas 2ºC, uma temperatura que afasta qualquer pessoa de sair de casa. Em frente ao portão da Associação Protetora de Animais de Caminha, aproxima-se um carro, nele estão quatro pessoas: Karine Torres, Diogo Santos, Sónia Torres e Carlos Ferreira. Estes são os voluntários da Selva dos Animais Domésticos.

Ao se aproximarem, o primeiro instinto de Karine Torres é de retirar a matrícula do carro em que chegamos. A engenheira zootécnica, gestora responsável pelo abrigo dos animais, explica que não seria a primeira, nem a última vez, que abandonariam animais à porta do espaço. Felizmente, este não é o caso.

Entrada da associação A Selva dos Animais Domésticos, Caminha. Artista: João Pinto

Entre risadas, Karine abre o portão da associação. Todos entram sem exceções. Ouve-se um aviso, “cuidado, acho que ninguém quer levar presentes para casa.” O caminho de entrada para o local de trabalho é também o espaço disponibilizado aos animais para irem tratar das suas necessidades básicas.

Depois do percurso, abrem a porta para o espaço. Um corredor com um sofá para as visitas, atulhado de comida e brinquedos para animais. Ao fundo, vê-se uma casota com um cão de porte pequeno e, ao lado, uma gaiola com um passarito que odeia banana e faz questão que toda a gente o saiba.

Além disso, o espaço é composto por vários compartimentos, uma sala onde estão dispostas todas as angariações conseguidas; uma cozinha, onde se prepara o arroz para dar aos mais velhinhos; uma banca de limpeza, que funciona simultaneamente como uma banheira dos animais; e outros espaços onde se encontram animais com debilitações.

Chegou a hora de pôr mãos à obra. Os quatro funcionários começam por mudar de roupa para algo mais confortável. Karine Torres dirige-se para a zona dos gatos. Prepara todo o material e começa o trabalho. Abre fechaduras, faz festinhas, retira folhas de jornal, limpa a gaiola, coloca novas folhas de jornal, repõe comida e água, fecha fechaduras. O processo repete-se.

Enquanto isso, Diogo Torres limpa panelas e prepara os materiais para prosseguir com o trabalho. Graças à insistência de Rosa, vai imediatamente buscá-la para a tratar. Coloca-a numa cadeira de rodas, que não é propriamente para o seu tamanho. Contudo, não há dinheiro para investir em melhor material, mas já lhe dá alguma liberdade para circular junto dos seus amigos.

Sónia Torres e Carlos Ferreira encontram-se lá fora, tratando de todos os cães. Abrem fechaduras, fazem festinhas, limpam as gaiolas, repõem a comida e água, fecham fechaduras e repetem o processo. Atualmente, a Selva dos Animais Domésticos conta com, estimadamente, 300 cães e 100 gatos, levando a que o processo demore cerca de quatro horas.

Cão da instituição ainda com espírito natalício.

Fim do abate, microchips, esterilização e sensibilização

De acordo com o Relatório anual no âmbito da Lei n.º 27/2016 de 23 de agosto da Assembleia da República (de 2018, atualizado a 5 de junho de 2019), foram recolhidos em território nacional 36558 animais. Dos quais, nem metade são adotados.

Karine Torres clarifica que a lei antiga do fim do abate previa que os animais podiam ser abatidos ao fim de 8 dias, sendo assim, “supunha-mos que pudessem ser também adotados no fim de 8 dias. No entanto, aqui na associação nunca os dou com menos de 1 mês, 2 meses, o máximo que conseguir aguentar”. Explica que nem toda a gente tem facebook e que muitas pessoas não conhecem a instituição, por isso não acha bem dar um animal logo que aparece.

O período transitório de dois anos para a adaptação da medida de proibição do abate de animais errantes como forma de controlo da população terminou em setembro de 2018. Para Karine sempre foi impensável a existência de tal possibilidade, “não tem lógica nenhuma de nós estar a condenar um porque é mais bonito do que o outro, porque é mais adotável ou menos adotável, porque é mais saudável ou menos saudável”.

Na associação, os velhinhos são os que merecem um fim de vida mais digno, “ passaram 15 anos numa corrente, se calhar nunca tiveram carinho. Agora, no fim da vida, posso-lhes dar o que eles nunca tiveram”. Para a gestora o aumento do número de animais abandonados deve-se ao “bom trabalho nestes dois anos”, sorri.

Desde o fim dos abates que Karine acredita não haver muita diferença entre um canil e uma associação protetora de animais. No entanto, não deixa de acreditar que na sua instituição agem “mais com o coração e eles (os canis) agem mais com as leis porque são obrigados por lei a fazer certas coisas. Nós não somos obrigados por lei, mas o coração manda mais do que qualquer lei.”

Admite não conhecer a verdadeira realidade dos canis. Crê que a associação é mais sensível, nomeadamente com os velhinhos, “pôr mais uma mantinha, vestir um casaco”. Recorda com tristeza os tempos em que o abate era permitido. “Quem faz isto por gosto, por amor, não abate e ali era indiscriminado - velhos, doentes, novos, bebés. Era tudo abatido quando não existia espaço.”

A gestora responsável pelo abrigo dos animais acredita que as medidas que ainda podem ser aplicadas ou melhoradas para combater o abandono animal resumem-se à identificação com microchip, a esterilização e a contínua sensibilização.

“A identificação com o microchip é a única forma de podermos identificar o dono e, caso haja provas de que foi um caso de abandono, de o punir. Não quero dizer que vamos entregar esse cão ou esse gato ao dono, mas temos de o castigar porque as pessoas continuam a pensar que os animais são bonecos, que são seres não sencientes.”

Desde julho de 2018 que todos os cães têm de estar chipados e registados. Contudo, uma nova atualização do decreto de lei em 2019 acrescenta a obrigatoriedade de identificação com microchip de gatos e furões. Com algumas dúvidas sobre a aplicabilidade da medida, Karine refere que existem ainda 2 ou 3 anos de transição para que a medida seja verdadeiramente aplicada.

Mais tarde, reconhece que na “lei é tudo muito bonito. Desde 2008 que os cães têm de ter chip. No entanto, já passaram 12 anos e continuamos a apanhar cães sem chip e os gatos vai ser muito complicado”.

Na Selva dos Animais Domésticos todos os animais saem chipados. Karine Torres explica que “desde que (os animais) saem daqui oferecemos a vacina da raiva e o microchip. A oferta é para garantir que as pessoas cumprem essa parte e que não os vão abandonar na esquina seguinte”.

Reconhece a importância da identificação através do microchip, mas também acredita ser um custo desnecessário. “Já gastámos cerca de 900 euros em chips que dá para 300 gatos. Esses 900 euros podiam ser aplicados em mais esterilizações porque ninguém vai andar atrás de gatos errantes ou silvestres a ver se têm microchip.”

A associação aderiu ao programa CED - Captura, esterilização e devolução. O programa consiste na captura dos gatos de uma colónia, a sua esterilização, um pequeno corte na orelha esquerda para fins de identificação, desparasitação e, por fim, a devolução dos animais ao seu território de origem. Karine Torres afirma que o método do corte na orelha é mais eficaz do que o microchip, uma vez que informa automaticamente que o animal já está esterilizado, não obrigando à sua nova captura.

A responsável acredita que a esterilização é essencial porque quantos menos nascem, menos são abandonados. Para além disso, entre a esterilização de fêmeas ou machos, aconselha a esterilização de fêmeas e afirma que nunca poderá ser feita antes dos seis meses.

Atualmente, a Câmara Municipal de Caminha está a oferecer a esterilização de felinos para famílias carenciadas, graças ao “Programa de Esterilização Animal” do Orçamento Participativo. Um programa que levou ao investimento de 30 mil euros. De qualquer das formas, a Selva dos Animais dá os gatos para adoção já esterilizados ou, dentro das suas possibilidades, promete a esterilização a baixo custo.

Karine acha que a principal medida seria “a sensibilização das pessoas, abrir mentalidades. Há pessoas ainda muito fechadas, acham que o cão é para aquilo, que é para estar no fundo do quintal numa corrente para dar sinal. Mas um cão e um gato sentem, têm medo, dão amor, recebem amor e já não se justifica ter um animal por ter.”

Detalhes do exterior da associação A Selva dos Animais.

História da instituição

Com nacionalidade francesa, Karine Torres chegou a Portugal em 1990. Relata que a realidade do abandono lhe chocou desde o início. Na França essa expressão era ainda desconhecida. Não indiferente à situação, começou por apanhar os cães que lhe apareciam à porta. A situação tornou-se insustentável. “Já tínhamos seis cães e não dava, pedimos um terreno emprestado a um senhor que tinha gado e pudemos pôr lá os cães. Rapidamente passamos de seis cães para 70.” Na altura, os pais possuíam um restaurante, a única ajuda disponível.

Em 2003, após o protocolo de colaboração e cedência de instalações do Centro de Acolhimento Canil e Gatil de Caminha, surgiu a “Selva Dos Animais Domésticos”. A partir desse ano, a instituição assume-se como legalmente fundada. Passaram a contar com a ajuda de sócios e quotas. “Conseguimos ter outro tipo de apoio que não tínhamos enquanto independentes e assim manter os nossos animais com as melhores condições”

“Quando estávamos em piores condições tínhamos mais voluntários, as pessoas estavam mais sensibilizadas, tinham mais pena.”

Karine revela existir um problema na associação. Falta de mão de obra. Apesar de terem as condições materiais necessárias, desabafa que não existem pessoas preocupadas em colaborar com a causa. “Aqui temos as condições físicas todas, mas falta o lado humano. Não é só limpar, pode ser dar mimos, passear, pentear, outras coisas que nós, os poucos que cá estamos, não conseguimos fazer.”

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