MISSÃO . criar condições para fazer emergir um sujeito consciente e engajado consigo mesmo, na relação com os outros e com o todo, com sensibilidade, inteligência prática e fundamentação teórica em sustentabilidade.
Como a Formação Integrada funciona na prática?
Compreendemos que aprender é uma capacidade intrínseca e constantemente presente em nossa vida. Estamos sempre, como aprendentes, nos desenvolvendo, em constante processo de produção de nós mesmos num processo que se dá de maneira integrada: pelo o que nos acontece de fora para dentro, e pelo que percebemos, sentimos e compreendemos de dentro para fora. Desta forma, buscamos combinar conteúdos e atividades que promovam:
- Espaços para o processo pessoal de produção de sentidos de cada sujeito (autoformação), para troca e aprendizagem pelas relações do grupo (heteroformação) e para aprendizagem pelo contato com o ambiente e o conjunto de relações complexas que nele acontecem (ecoformação).
- Condições para a vivência e a expressão do conhecimento por meio não apenas de conceitos e teorias (razão formal), mas também por meio de projetos aplicados, viagens de campo e outras experiências práticas (razão experiencial) e atividades de cunho corporal, artístico, reflexivo e contemplativo (razão sensível).
Nosso processo estrutura-se ao redor de dois eixos:
Projeto de Si Mesmo: atividades, vivências e conceitos que buscam provocar nos alunos uma percepção ampliada de si mesmos, dos outros e da realidade, ativando, expandindo e contribuindo com a apropriação do seu potencial sensível/perceptivo, reflexivo e criativo. Ao longo dos três semestres da Formação Integrada esperamos que os alunos possam:
- Desenvolver linguagem para perceber, abordar e atuar numa realidade complexa (multirreferencial e muldimensional);
- Integrar a dimensão subjetiva e sensível como fonte de conhecimento;
- Incorporar o diálogo como atitude de abordagem ética;
- Reconhecer a complexidade da realidade e identificar seus diferentes níveis e perspectivas/paradigmas.
Projeto Referência: projetos voltados a desafios reais, onde conhecimentos de gestão possam ser ampliados e aplicados sob a ótica da sustentabilidade. Os semestres I e II terão um Projeto Referência diferente, o qual será proposto e selecionado pelo próprio grupo. De maneira geral, o tema do PR deve estar relacionado à dimensão trabalhada no semestre e oferecer uma entrega prática e aplicável. Por seu caráter altamente prático e experiencial, o PR oferece uma oportunidade singular para o grupo entrar em contato direto com situações complexas, que envolvem diversas realidades, atores e variáveis, e onde não há respostas óbvias e prontas. Ao final do semestre, a entrega do projeto é apreciada por convidados externos e avaliada pelo próprio grupo e pelos professores da disciplina, conforme critérios de avaliação detalhados abaixo. Por meio do PR, esperamos que os alunos possam:
- Ampliar sua percepção sobre a realidade e suas relações, por meio do entendimento e da busca por soluções práticas a desafios reais da sustentabilidade;
- Conectar os conceitos e ferramentas que estão na fronteira do conhecimento em Sustentabilidade com suas práticas de gestão;
- Integrar conhecimentos dos diferentes temas da sustentabilidade e da gestão, com visão crítica e sistêmica.
- Atuar como agentes de mudança e transformação rumo ao desenvolvimento sustentável.
SAIBA MAIS ACESSANDO NOSSOS VÍDEOS
SOBRE ESSE RELATÓRIO
Esse relatório tem como objetivo sistematizar os conhecimentos gerados pelos Projetos Referência dos grupos que passam pela Formação Integrada para Sustentabilidade no contexto do Mestrado Profissional em Gestão para Competitividade.
- A cada turma do Mestrado, desenvolvemos de quarto a seis projetos por semestre.
- Cada projeto é composto por uma equipe de alunos(as) que define seu próprio desafio, identidade e processo de trabalho (stakeholders chave a serem procurados, conteúdos a serem investigados, formato da entrega final, recursos necessários etc).
- O percurso para este processo de trabalho é baseado na Teoria U: desenvolvida por Otto Scharmer e outros pesquisadores da área de Aprendizagem e Mudança Organizacional do MIT, “a Teoria U propõe que a qualidade dos resultados que obtemos em qualquer sistema social é consequência da qualidade de percepção e consciência a partir da qual operamos nestes sistemas.” (Presencing Institute) Trata-se de um framework; um método para liderar mudanças profundas; e uma maneira de ser – conectando aos aspectos mais autênticos e elevados do indivíduo.” Como processo, a Teoria U propõe três macro etapas: Observar, observar, observar ("descida do U"): investigar e compreender um sistema de dentro dele, interagir com os stakeholders chave, abrir-se à escuta, sentir; Retrair e refletir ("meio do U"): silenciar para conectar-se consigo mesmo e com sua fonte sensível de percepção e criatividade (Presencing); e Agir em um instante ("subida do U"): deixar emergir resultados inovadores colocando em prática as soluções possíveis - ainda que em forma de protótipos - e aprendendo com elas.
Teoria da Mudança
O Bixiga é um dos bairros mais tradicionais de São Paulo, tendo abrigado, ao longo de sua história, tanto a população negra que fugia dos açoites como a comunidade italiana que migrou para o Brasil. Nos últimos anos, o bairro, que ainda carrega uma história viva — seja pelas cantinas, por espaços culturais e pelo samba, seja pelo casario tombado – tem sido protagonista de disputas entre interesses públicos e privados, calcados na especulação imobiliária, incluindo as obras da nova estação de metrô na região, que ameaçam seu patrimônio histórico cultural e social.
CONTEXTO. Pano do fundo da expeculação inmobiliaria no Bixiga.Pano do fundo da especulação imobiliária no Bixiga. Nos últimos anos, o Bixiga tem sido destaque em manchetes da grande imprensa nacional e de veículos independentes como um bairro sob alvo da pressão imobiliária que ocorre na região metropolitana de São Paulo, e devido à articulação de sua estrutura própria de governança na disputa por preservar seu patrimônio histórico, cultural, social e urbano. A especulação imobiliária, no entanto, não é novidade para o Bixiga. Desde a década de 1940, importantes intervenções urbanas foram feitas na região, como a construção das Avenidas 9 de Julho na década, da Av. 23 de Maio na década de 1960 e da Av. Brigadeiro Luís Antônio na década de 1980, que impulsionaram a valorização dos imóveis do entorno e, consequentemente, ocasionaram na migração de pessoas residentes em situação de maior vulnerabilidade social.
PROBLEMA.Diante deste contexto, algumas ações foram adotadas a fim de proteger a história e as características originais e tradicionais do bairro. Em 2002, o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp) tombou parte do casario do bairro da Bela Vista como patrimônio cultural, fazendo valer assim uma série de regras e limitações na feitura de novos empreendimentos da construção civil. Já em 2014, o novo Plano Diretor Estratégico do Município de São Paulo destacou o caráter da Bela Vista enquanto Zona Especial de Interesse Cultural (ZEPEC). No entanto, o que se observa hoje é a inação dos órgãos de tombamento para proteger os próprios bens tombados e um favorecimento na aprovação de empreendimentos que desregulam os próprios laudos de tombamento (AMARAL, 2019). Dezenas de empreendimentos estão aprovados ou em fase de aprovação pela Prefeitura de São Paulo, ameaçando regiões como a do grota do Bixiga, que conta com uma geomorfologia única, abrigando diversas nascentes que formam o córrego Saracura. Uma disputa que ocorre há mais de 40 anos exemplifica o sentimento da população diante da pressão imobiliária no bairro. Em terreno de 11 mil metros quadrados no coração do bairro é travada uma batalha entre a comunidade local, liderada pelo diretor do Teatro Oficina, e o Grupo Silvio Santos. A comunidade almeja a criação do Parque do Rio Bixiga, enquanto o Grupo Sílvio Santos prevê a construção de três torres residenciais com mais de 100 metros cada. No último ano, uma nova onda de investimentos em empreendimentos imobiliários passou a ser impulsionada pela chegada da Linha 6 de Metrô na Parça 14 Bis, com previsão de inauguração em 2025, que endossa o argumento, por parte de construtoras e da Prefeitura, da necessidade de adensamento da região. A comunidade contrapõe, no entanto, que o Bixiga figura entre os bairros mais adensados da cidade de São Paulo. São 69.460 habitantes em 2,6 km², uma taxa de 26.715 hab/km², de acordo com o censo de 2010. Toda a população está abrigada em aproximadamente 32 mil domicílios, que incluem prédios e o casario que integra o patrimônio tombado do bairro, e o bairro conta com uma área pública verde, projetada como praça — a Praça Dom Orione. A construção da estação de metrô também tem sido marcada por disputas e impulsionado a pressão imobiliária. Um importante ícone cultural do bairro teve de ser realocado, a escola de samba Vai-Vai, e durante as escavações foi encontrado um sítio arqueológico do Quilombo Saracura, considerado uma evidência material do que movimentos sociais do bairro já atestavam: o Bixiga é, antes de tudo, o bairro negro. Diante deste contexto, moradores, grupos organizados, coletivos e movimentos sociais, como o Salve Saracura, a Rede Social Bela Vista e o Movimento Saracura Vai-vai, têm se articulado sobre as preocupações relativas ao novo contexto: o risco de perda do patrimônio histórico-cultural do bairro das características originais que compõem o Bixiga, como a ocupação da rua, os impactos nas nascentes dos rios que permeiam a região e nas encostas verdes e, principalmente, a expulsão da população residente.
PROPOSTA:Diante dessa problemática, o objetivo deste Projeto Referência foi acolher diferentes vozes do bairro e das demais partes envolvidas nesta problemática — representantes de movimentos sociais do bairro, porta-vozes de conselhos comunitários, proprietários de espaços culturais, líderes religiosos, assim como construtoras e representantes da prefeitura — para dar luz às especificidades e dilemas do bairro na atualidade.
Nossa expectativa é por tanto poder contribuir para um desenvolvimento urbanístico que ouça as vozes do presente, e construa um futuro que preserve a história e o patrimônio trazendo maior qualidade de vida, desenvolvimento e bem estar para os moradores
Investigação e escuta
Questões e inquietações iniciais
Identificou-se rapidamente que a situação era complexa, envolvia diversas realidades,atores e variáveis, onde não havia respostas óbvias e prontas. Queríamos que o trabalho fosse rico, mas com o objetivo prático de poder criar um produto que tivesse um impacto nos problemas que definimos acima sobre o Bixiga. Assim, decidimos sobre nosso objetivo: elaborar uma série de recomendações disponíveis para aqueles que desejam realizar projetos no bairro que lhes permitam levar em consideração as vozes dos habitantes do Bixiga para que possam ser levadas em consideração e conciliar a riqueza histórica e patrimonial e a inclusão dos atuais habitantes.
Fontes de investigação (stakeholders envolvidos, bibliografias, dados secundários etc) e Formas de coleta de dados (kick off, entrevistas, observações)
O processo de construção se deu a partir de dois eixos principais. O primeiro a escuta das partes envolvidas, com base em elementos relacionais trabalhados na disciplina de Formação Integrada II, pautados nas percepções das relações coletivas e relações com o sujeito (Construcionismo Social, Comunicação Não Violenta e Desenvolvimento organizacional dialógico). Foram realizadas 11 entrevistas em profundidade, a partir de roteiros semiestruturados. Os entrevistados foram elencados por meio de indicações de membros da governança do bairro e são representantes de movimentos sociais, de coletivos e de grupos de influência, entre eles, o coletivo Salve Saracura, a Rede Social Bela Vista, a escola de samba Vai-Vai e a igreja Achiropita. Para além dos membros dos coletivos e movimentos sociais do bairro, por meio desse projeto, buscou-se ouvir a percepção dos poderes público e privado envolvidos nos dilemas que cercam o Bixiga. Foram realizadas entrevistas com representantes de ambas as esferas. Assim, fizemos uma entrevista com representante da Secretaria de Assuntos Internacionais da Prefeitura de São Paulo e com a Responsável de sustentabilidade de uma das construtoras mas importantes de São Paulo atuante no bairro do Bixiga. Já o segundo eixo se constituiu em torno da avaliação dos temas e demandas emergentes a partir desta coleta de dados e a consequente classificação destas necessidades coletivas nas tipologias associadas ao conceito de cidades sustentáveis. Assim, este trabalho apresenta os pontos de vista capturados por meio das entrevistas sob a ótica da codificação proposta pelo mosaico das cidades sustentáveis, elaborado pelo FGVCes, a fim de promover uma análise sobre as especificidades do Bixiga, seus dilemas e sobre como essas frentes dialogam com a agenda de desenvolvimento sustentável.
Principais aprendizados e insights
O desenvolvimento urbano sustentável passa por orientar as transformações urbanas para atender as necessidades coletivas e perspectivas de longo prazo, tendo como ponto de partida e guia fundamental a legislação municipal e as características de um bairro. No caso do Bixiga o seu patrimônio histórico-cultural, as tradições e hábitos de seus moradores, os padrões geográficos e urbanísticos, além de uma construção participativa que envolve a governança existente do bairro, entre outras.Diante da relevância do desenvolvimento de dinâmicas de monitoramento de processos e resultados para assegurar a sua perenidade e das necessidades de mudanças nas práticas implementadas, apontadas durante as entrevistas, fica evidente a necessidade de interlocução entre agentes responsáveis por influenciar as transformações urbanas, sejam eles entes públicos ou privados, organizações ou coletivos da sociedade civil. Neste contexto, com base nos eixos estruturantes dos conceitos de Cidades Sustentáveis e na coleta de dados que levantou as dinâmicas e necessidades dos representantes do bairro surgiram as recomendações como produto final
Presencing: retrair e refletir
Sentimentos, sensações e insights individuais (depoimentos de cada membro do grupo narrando sua percepção nesta etapa do percurso)
“Como moradora do Bixiga há mais de 16 anos, foi complexo desassociar minha história das percepções obtidas com o Projeto Referência. Colher os relatos, em sua maioria de forma presencial, e viver o Bixiga durante o processo me trouxe sentimentos paradoxais: tristeza pela deslegitimação de movimentos sociais genuínos e pela ameaça ao patrimônio histórico, cultural e social do bairro, e esperança com a articulação engajada dos coletivos e com a abertura ao diálogo por parte dos poderes público e privado. O processo também acentuou um aspecto que eu já sentia, mas não materializava em palavras: o Bixiga é um estado de espírito — e eu fui, e continuo sendo, atravessada por ele.” – Bárbara Calache.
“A proposta deste trabalho me atraiu desde o início por diferentes fatores. O primeiro é que havíamos tido uma aula de serviços ecossistêmicos culturais alguns dias antes da definição dos PRs. O tema foi exposto de maneira muito interessante. Assim, eu teria a chance de fazer a mesma exploração com as pessoas do Bixiga. Ou, ao menos, tentar algo parecido! O segundo é que tenho um contato muito próximo com o bairro, como frequentador dos teatros, das cantinas, dos shows de rock no Café Piu Piu e como voluntário na Festa da Achiropita. Por último, sempre me intrigou a geografia do bairro e as diferenças visíveis de classes sociais, quase castas: o Morro dos Ingleses lá em cima e um baixadão de casas simples na parte baixa, na direção do Vai Vai. Aquelas ruazinhas com curvas e descidas íngremes. Também tem aquelas partes em que não se consegue construir por serem muito inclinadas - e um barranco com mato não é uma visão muito comum dentro de São Paulo! Com esse cenário, a ansiedade por explorar o bairro e realizar as entrevistas é muito grande. Será um trabalho gratificante, no qual espero contribuir e fazer a diferença para as pessoas com quem eu mantiver contato.” - Marcelo Rosa
“Moro em São Paulo há mais de 30 anos e o Bixiga sempre ocupou um espaço reservado no meu imaginário, assim como no de tantos paulistanos, por conta da sua cultura, que é o patrimônio sobre o qual foi erguido. O bairro é um retrato vivo dos processos urbanos e de conflitos que a cidade atravessa, em que a história e memória são renegadas ao segundo plano em detrimento dos interesses de mercado, dando vazão a uma demanda de adensamento urbano e de maior disponibilidade de moradias nas áreas centrais. Participar deste trabalho, conhecer mais a fundo algumas das histórias que exploramos e constatar a força dos coletivos e lideranças do bairro em questionar este processo me fez refletir que estes são os grandes guardiões da essência da cultura de São Paulo. Ao buscarem incorporar suas particularidades e preservar sua história nos processos contínuos de transformação urbana, perpetuam e conservam o patrimônio imaterial que pertence a todos nós.” - Tomás Kovensky
“Quando as propostas de PR foram apresentadas, escolhi esta pois é algo muito diferente do meu dia a dia, então entrei no grupo com a mente, coração e ouvidos abertos para aprender e o que mais me interessou nesse trabalho foi o processo de escuta das pessoas do Bixiga, como o processo de escuta fluiu de forma leve e interessante, a cada agendamento de entrevista, era uma curiosidade do que iríamos descobrir, a cada nova entrevista novas descobertas aconteciam, e assim, mais o grupo ia se engajando e construindo esse PR. O que fica de lição para mim é a importância das relações, a importância do diálogo e o quanto as pessoas se tornam fortes quando se organizam, quando dialogam com respeito e acolhida. Confesso que mesmo sendo uma Paulistana, eu só frequentava o bairro do Bixiga nos dias da festa da Achiropita, e hoje, depois de viver o processo de escuta do Bixiga, já frequento o bairro em outras situações e com outro olhar, um olhar com mais respeito pelas vidas das pessoas que ali colorem a cada dia um bairro tão rico e diverso culturalmente.” - Juliana Pinheiro.
"Como estrangeira, para mim o projeto tinha uma motivação de descoberta, de mergulhar em outra das mil culturas e problemáticas que estão no coração de um país continental como o Brasil. Entretanto, foi curioso ver como os problemas da evolução das cidades são semelhantes se bem com casuísticas diferentes, em todo o mundo e como o envolvimento e o respeito por todos as partes interessadas são decisivos para a coexistência e para que os resultados sejam multiplicados e transformados em um verdadeiro desenvolvimento para todos" - Laura Arias
"O tema do PR me ganhou logo de largada. As transformações urbanas, ao métodos brasileiro - sem planejamento, inclusão e não tropical - é algo que me incomoda na verdade. Assim, foi muito interessante poder me aprofundar num bairro que não tinha relação com meu cotidiano, e ainda mais quando ele possui toda uma mística na cidade e, quando se visita, comprova-se a fama. Uma energia ímpar quando consideramos a localização.Enfim, foi incrível mergulhar nessas conversas t ão profundas e íntimas quando falamos da relação das pessoas com o bairro em que vivem e defendem. E, nada fácil, escutar outros agentes envolvidos nessas transformações urbanísticas que ameaçam o bairro e seus elementos" - Jay Neto
"Desde o primeiro momento o tema do Bixiga me conquistou, ter a possibilidade de estudar a fundo um dos bairros mais emblemáticos de São Paulo. Por não ser paulistano e nem viver a cidade, confesso que fiquei surpreso com toda a cultura e paixão que exala no bairro, Bixiga não é só Achiropita e Vai-Vai. Através do processo de escuta com figuras chaves, fui apresentado a essência do bairro, descobri o poder e organização comunitário, os problemas e desafios que o bairro enfrentou e vem enfrentando para preservar as suas heranças contra as transformações urbanas que a décadas assola a região, descobri a mais orgânica das tradições do Bixiga: a relação da população com a rua e os espaços comuns." - Guilherme Buck
Desenvolvimento do produto final: agir em um instante
RECOMENDAÇÕES DE AGENDAS DE LONGO PRAZO PARA O BAIRRO DO BIXIGA
1. Planejamento Multissetorial: Harmonizar políticas, instrumentos e espaços de tomadas de decisão
→ Integrar com demais espaços e instrumentos de planejamento: O Bixiga dispõe de diversos espaços de uso coletivo que têm um papel importante por servirem como espaços de compartilhamento para a comunidade, como é o caso do Museu do Bixiga, das escadarias que recebem o evento da “Escadaria do Jazz”, da “Rua de Lazer”, ou da própria Rua 13 de Maio, que é espaço de inúmeros eventos e atividades, como a “Festa da Achiropita" ou as famosas rodas de samba da cidade de São Paulo. Adicionalmente, todos os patrimônios tombados do Bixiga, na forma das casas e casarões do bairro, representam uma morfologia urbana única, de valor inestimável. A estruturação de modelos de habitação e uso comercial imobiliário precisam considerar estas características únicas do patrimônio urbanístico no bairro. Para além do respeito à legislação de tombamento, ao Plano Diretor e à Lei de Zoneamento, é possível buscar alternativas, como as reformas destes imóveis a partir da prática do “retrofit”, respeitando suas fachadas e estruturas, dando para eles um novo uso coerente com a necessidade de adensamento e demanda por moradias no bairro. De acordo com as entrevistas, este modelo já é adotado no mundo e contribui para a preservação da história e da paisagem construída, incorporando-a no processo de adensamento e expansão urbana.
→Atentar para antagonismos e sobreposição de esforços. Conforme mencionado anteriormente, o Bixiga é um lugar de pluralismo e “diversidade social muito forte, portadora de uma importante memória”. Assim, caracteriza-se como um espaço em que, se esta diversidade não estiver incorporada no seu planejamento, pode transformar-se em elemento antagônico à convivência harmônica e fonte de possíveis conflitos. O diálogo entre os diversos interlocutores do bairro mostrou-se como elemento fundamental na construção de soluções que atendam diferentes demandas.
→ Promover apropriação e uso em outros espaços de participação. Como relatado anteriormente, o bairro utiliza a rua como uma extensão das casas. É comum a população ocupar a rua, seja para dinâmicas cotidianas, seja para uma série de eventos de lazer. Neste cenário, continuar tratando os espaços públicos como um direito de todos é fundamental. Adicionalmente, aproveitar a governança e participação social já existente no bairro é um caminho para compreender as demandas da população e articular ações e o envolvimento em políticas públicas que gerem valor para os diferentes elos envolvidos.
2. Recursos: É importante ter estratégias desde a etapa de formulação
→ Dar as condições necessárias para implementação. Incluir nas regulações vigentes etapas que obriguem audiências públicas e conversas com os agentes do bairro é um elemento constante na fala dos entrevistados, que apontam para a necessidade de entendimento acerca do patrimônio histórico, social e cultural do bairro. Houve consenso sobre a necessidade de construtoras e o poder público considerarem as especificidades e complexidade do entorno, bem como os impactos dos empreendimentos na região, como como impacto no trânsito, sombreamento, expulsão da população residente, entre outros.
→ Planejar vínculo das estratégias a fontes de recursos e parceiros. Este item trata da articulação com a comunidade local para incorporação das suas demandas e de suas perspectivas. A conexão com lideranças comunitárias, como a Rede Social Bela Vista e o Movimento Saracura Vai-Vai é apontada como elemento fundamental para que o planejamento das estratégias de recursos esteja conectado com as demandas do bairro. Estes movimentos são expressões fundamentais do convívio entre os moradores e lideranças comunitárias. Qualquer estratégia comercial na região deve ser pensada a partir da criação de vínculos com estes importantes grupos, qualificando-os para construir conjuntamente os planos para o bairro, que não são contrários ao mercado imobiliário, mas que demandam escuta e atenção às especificidades do Bixiga e à sua história.
3.Explorar outros arranjos, tais como consórcios municipais
→ Planejar recursos para a governança e coconstrução contínua e atentar para demandas de atores mais vulneráveis. Incluir nos projetos, sejam de lei ou de aprovação e desenvolvimento de empreendimentos, etapas de debate com os moradores locais e novos moradores se faz essencial para o processo de cocriação acerca das mudanças urbanas pretendidas. Nesta linha, o processo de adensamento e de requalificação do bairro do Bixiga vem acontecendo gradualmente, alinhado com a alteração da regulamentação da Lei de Zoneamento e do Plano Diretor. No entanto, para que este processo se dê de forma a não só respeitar a legislação vigente, mas considerar a realidade e história da região e dos seus habitantes, evitando um processo de gentrificação ou de resistência, é imprescindível o estabelecimento de um diálogo com grupos de gestão pré-estabelecidos e uma atenção para as demandas dos atores mais vulneráveis afetados por este processo. Se por um lado o Bixiga foi um bairro marcado por um processo lento e gradual de gentrificação desde os anos 1950, a aceleração desse processo leva a um risco iminente de expulsão da população residente em situação de vulnerabilidade social e financeira, decorrente da inflação de preços de aluguel, de imóveis e de itens essenciais para sua subsistência. Grupos como o Salve Saracura e a Rede Social Bela Vista já dialogam com toda a comunidade, inclusive com os mais vulneráveis, a partir de processos naturais de acolhimento e escuta. Dessa forma, o diálogo com estes grupos contribui para que qualquer a ação comercial na região compreenda estas realidades e seja implementada considerando alternativas viáveis para conciliar estas demandas prévias com as expectativas de um empreendimento imobiliário e seus impactos na região.
→ Identificar demandas e oportunidades não financeiras.Em um Bairro como o do Bixiga, que tem uma forte tradição de convivência social e integração nos espaços abertos e públicos, é importante que a iniciativa privada imobiliária e a gestão pública se atentem para a criação de espaços de utilização para todos os moradores do bairro, como praças públicas e outros espaços de lazer e convivência. O aspecto ambiental também é fundamental para o desenvolvimento sustentável, principalmente considerando os rios que atravessam o bairro (Saracura, Itororó, Bixiga) e as encostas verdes que possuem impacto direto sobre processos de escoamento da chuva e drenagem de água. As iniciativas pública e privada devem se atentar para capacidade de drenagem da região, desenvolvendo estudos que viabilizem projetos urbanos de drenagem e saneamento conectados com esta particularidade. Assim, recomenda-se uma gestão atenta para gestão de recursos, mobilidade, adaptação à mudança do clima, e proteção de nascentes e de áreas verdes.
4 .Diálogo Inclusivo: Equilíbrio entre conhecimento técnico e experiência real dos cidadãos ao longo de toda a trajetória
→ Equilibrar e potencializar participação e conhecimento técnico; Usar o acesso a boa informação como instrumento de mobilização; Reconhecer a sabedoria e a experiência real dos cidadãos; e Identificar e combinar diferentes formas de acesso e diálogo. Como já apontado anteriormente, o Bixiga dispõe de uma governança própria e de movimentos e coletivos que fortalecem a interlocução com toda a comunidade, como a Rede Social Bela Vista e o Salve Saracura. Esses grupos reúnem não somente os nativos do bairro, muitos deles com uma história familiar que se confunde com a história do Bixiga, como representantes da academia, do movimento negro unificado, especialistas em urbanismo, em arquitetura, em direito e outras áreas do conhecimento. Ao estabelecer a escuta ativa das perspectivas destes grupos, que detém um rico conhecimento acerca da complexidade que cerca o bairro, a construção de projetos e a mitigação de conflitos tende a ser mais eficiente e harmônica. Erros de projeto, como o empreendimento construído com a saída de carros para a Rua do Lazer, poderiam ser evitados se houvesse diálogo e melhor entendimento com o entorno. O aspecto ambiental, materializado pelas nascentes e rios e encostas verdes também podem ser melhor mapeados e integrados nas decisões que afetam os moradores e as evidências materiais históricas do bairro.
5.Transparência pública e Monitoramento: Catalisadores do capital social e do fortalecimento das capacidades
→Monitorar a efetividade da agenda ao longo da implementação e complementar dados com fortalecimento contínuo dos atores. Para a medição da efetividade do planejamento, recomenda-se a criação de ferramentas que viabilizem o acompanhamento das iniciativas realizadas, não apenas com foco no mercado, mas com o intuito de entender as dinâmicas e possibilidade de melhorias contínuas, envolvendo também as associações do bairro. Nesta frente, o uso de tecnologias já foi apontado como realidade no poder público, mas há oportunidades de transformação da base de dados em informação para uma gestão efetiva e para a mensuração de impactos.
→Preservar visão integradora evitando-se apropriação particular. Essas discussões envolvem “conexão das agendas com políticas públicas e transversalidade; a demanda por recursos financeiros, humanos e intangíveis; a busca por equilíbrio ótimo entre diálogo inclusivo e conhecimento técnico; e a oportunidade de incremento do capital social e das capacidades por meio de transparência e monitoramento” (GVCES, 2017, p.6). Como pontuado anteriormente, “é na governança dos processos de construção das agendas futuras de uma cidade sustentável que se dará a criação de uma narrativa condizente com a soma dos anseios e a explicitação dos conflitos entre os diferentes atores de um determinado território urbano, rumo a objetivos comuns”. (GVCES, 2017, p.6).
Produto Final
Relatorio "Diálogos do Bixiga"
https://docs.google.com/document/d/1KOUU2rFN6g9qTgY5X4qWcx1yovPnOS7I