MISSÃO . criar condições para fazer emergir um sujeito consciente e engajado consigo mesmo, na relação com os outros e com o todo, com sensibilidade, inteligência prática e fundamentação teórica em sustentabilidade.
Como a Formação Integrada funciona na prática?
Compreendemos que aprender é uma capacidade intrínseca e constantemente presente em nossa vida. Estamos sempre, como aprendentes, nos desenvolvendo, em constante processo de produção de nós mesmos num processo que se dá de maneira integrada: pelo o que nos acontece de fora para dentro, e pelo que percebemos, sentimos e compreendemos de dentro para fora. Desta forma, buscamos combinar conteúdos e atividades que promovam:
- Espaços para o processo pessoal de produção de sentidos de cada sujeito (autoformação), para troca e aprendizagem pelas relações do grupo (heteroformação) e para aprendizagem pelo contato com o ambiente e o conjunto de relações complexas que nele acontecem (ecoformação).
- Condições para a vivência e a expressão do conhecimento por meio não apenas de conceitos e teorias (razão formal), mas também por meio de projetos aplicados, viagens de campo e outras experiências práticas (razão experiencial) e atividades de cunho corporal, artístico, reflexivo e contemplativo (razão sensível).
Nosso processo estrutura-se ao redor de dois eixos:
Projeto de Si Mesmo: atividades, vivências e conceitos que buscam provocar nos alunos uma percepção ampliada de si mesmos, dos outros e da realidade, ativando, expandindo e contribuindo com a apropriação do seu potencial sensível/perceptivo, reflexivo e criativo. Com isso, esperamos que os(as) alunos(as) possam:
- Desenvolver linguagem para perceber, abordar e atuar numa realidade complexa (multirreferencial e muldimensional);
- Integrar a dimensão subjetiva e sensível como fonte de conhecimento;
- Incorporar o diálogo como atitude de abordagem ética;
- Reconhecer a complexidade da realidade e identificar seus diferentes níveis e perspectivas/paradigmas.
Projeto Referência: projetos voltados a desafios reais, onde conhecimentos de gestão possam ser ampliados e aplicados sob a ótica da sustentabilidade. Os semestres I e II terão um Projeto Referência diferente, o qual será proposto e selecionado pelo próprio grupo. De maneira geral, o tema do PR deve estar relacionado à dimensão trabalhada no semestre e oferecer uma entrega prática e aplicável. Por seu caráter altamente prático e experiencial, o PR oferece uma oportunidade singular para o grupo entrar em contato direto com situações complexas, que envolvem diversas realidades, atores e variáveis, e onde não há respostas óbvias e prontas. Ao final do semestre, a entrega do projeto é apreciada por convidados externos e avaliada pelo próprio grupo e pelos professores da disciplina, conforme critérios de avaliação detalhados abaixo. Por meio do PR, esperamos que os(as) alunos(as) possam:
- Ampliar sua percepção sobre a realidade e suas relações, por meio do entendimento e da busca por soluções práticas a desafios reais da sustentabilidade;
- Conectar os conceitos e ferramentas que estão na fronteira do conhecimento em Sustentabilidade com suas práticas de gestão;
- Integrar conhecimentos dos diferentes temas da sustentabilidade e da gestão, com visão crítica e sistêmica.
- Atuar como agentes de mudança e transformação rumo ao desenvolvimento sustentável.
SAIBA MAIS ACESSANDO NOSSOS VÍDEOS
SOBRE ESSE RELATÓRIO
Esse relatório tem como objetivo sistematizar os conhecimentos gerados pelos Projetos Referência dos grupos que passam pela Formação Integrada para Sustentabilidade no contexto do Mestrado Profissional em Gestão para Competitividade.
- A cada turma do Mestrado, desenvolvemos de quatro a seis projetos por semestre.
- Cada projeto é composto por uma equipe de alunos(as) que define seu próprio desafio, identidade e processo de trabalho (stakeholders chave a serem procurados, conteúdos a serem investigados, formato da entrega final, recursos necessários etc).
- O percurso para este processo de trabalho é baseado na Teoria U: desenvolvida por Otto Scharmer e outros pesquisadores da área de Aprendizagem e Mudança Organizacional do MIT, “a Teoria U propõe que a qualidade dos resultados que obtemos em qualquer sistema social é consequência da qualidade de percepção e consciência a partir da qual operamos nestes sistemas.” (Presencing Institute) Trata-se de um framework; um método para liderar mudanças profundas; e uma maneira de ser – conectando aos aspectos mais autênticos e elevados do indivíduo.” Como processo, a Teoria U propõe três macro etapas: Observar, observar, observar ("descida do U"): investigar e compreender um sistema de dentro dele, interagir com os stakeholders chave, abrir-se à escuta, sentir; Retrair e refletir ("meio do U"): silenciar para conectar-se consigo mesmo e com sua fonte sensível de percepção e criatividade (Presencing); e Agir em um instante ("subida do U"): deixar emergir resultados inovadores colocando em prática as soluções possíveis - ainda que em forma de protótipos - e aprendendo com elas.
Enunciado
O nome do grupo, SIMBIOSE, foi adotado pela relação direta com 4 grandes grupos de "stakeholders" que obrigatoriamente precisam colaborar uns com os outros para coexistir. SIMBIOSE no dicionário refere-se a "associação de dois ou mais seres que, embora sejam de diferentes espécies, vivem conjuntamente, com vantagens recíprocas e são caracterizados como um só organismo". O Simbolo do grupo é um roda de bicicleta, com os aros alcançando a todas as partes envolvidas. (https://www.dicio.com.br/simbiose/)
Introdução e questionamentos iniciais
Conduzimos o processo de investigação buscando solucionar alguns questionamentos que emergiram nas primeiras discussões em grupo.
Provavelmente a humanidade enfrenta um de seus maiores desafios globais deste século. A pandemia que tem feito milhares de vítimas ao redor do mundo, se alastra com imensa velocidade e nos impõem uma série de medidas de isolamento social. Segundo a OMS, o isolamento social é melhor forma de contenção da pandemia - COVID-19.
Umas das nossas grandes inquietações nesse momento é o compartilhamento de valor gerado pelos aplicativos de entrega com principais grupos de interesse, que são os clientes, os entregadores e o comércio, em sua maioria restaurantes, farmácias e supermercados.
O Grande "Boom" dos aplicativos de entrega no Brasil, ocorreu em 2011, com a expansão do Ifood, e posterior surgimento do Rappi e Uber Eats. Essas três empresas dominam o setor e, até 2019, concentravam mais de 172 mil entregadores no Brasil. Somente o Ifood, o maior deles, em 2019, tinha uma média de 600 mil pedidos/dia. A popularização dos smartphones e ampliação do acesso a internet para as classes de menor renda alavancou este tipo de serviço.
Outra grande preocupação na fase de investigação foi entender o perfil do entregador, e o processo de ingresso nesta atividade, bem como se os direitos e deveres estão sendo respeitados, e se há algum indício de precarização do trabalho. Além disso, compreender a correlação entre emprego e atividade temporária, os objetivos dos entregadores e benefícios oferecidos pelos aplicativos era uma inquietação.
Optamos inicialmente por investigar também a potencial diferenciação em entregas utilizando bicicletas. O modal aumentaria o risco do entregador? Haveria percepção de valor dos stakeholders pela redução de impacto ambiental?
Da perspectiva do comércio, quais as vantagens e desvantagens de permanecer em um "marketplace" como os aplicativos de entrega, se as taxas são justas pelo serviço que é oferecido, com intuito de concluir se o valor esta sendo compartilhado.
Principais aprendizados e insights
Recorte de Bicicletas é muito específico, ainda não é percebido com valor pelos cliente, são poucos que atrelam bicicleta a sustentabilidade, mas não levam isso em conta em suas decisões de compra.
Ciclistas conseguem fazer menos entregas, pois são mais lentos, consequetemente ganham menos.
Os entregadores são o elo mais fraco da corrente, pois não possuem organização, articulação política e não percebem sua condição de precarização profunda de trabalho. Consideram a atividade que exercem como temporária.
Há uma invisibilidade do profissional entregador, para a sociedade uma vez que os restaurantes evitam qualquer tipo de aproximação para não configurar relação trabalhista, as plataformas se colocam na posição de intermediadoras, oferecendo regras ao qual o integrador deve obedecer, e os clientes evitam o contato devido a pandemia.
Receio quanto as implicações trabalhistas, pois as decisões judiciais são pró-empregado. Modelo tradicional de contratação via CLT é pouco favorável para os restaurantes e aplicativos.
Restaurantes entendem que as taxas atualmente impostas pelos aplicativos são abusivas, porém o contexto atual de pandemia os torna dependentes dos aplicativos.
Desconhecimento dos stakeholders envolvidos no processo sobre qual é "Fatia do Bolo" que lhe cabe, sendo os entregadores a parte mais vulnerável uma vez que estão reféns de um algorítimo desconhecido e teoricamente "neutro".
Na perspectiva do entregador, aplicativo é uma opção ao desemprego "É melhor que não ganhar dinheiro". Flexibilidade é vista como uma vantagem, auto gerenciamento "Voce é seu patrão". Não conseguem enxergar a precarização - 12 hrs por 1 salário mínimo.
Poucas barreiras de entrada para inicio imediato na atividade de entregador. Não há processo seletivo, gerenciado pelo processo e "Multidão vigilante", certifica a qualidade do trabalho.
Existe preocupação reputacional dos aplicativos em suas ações, mas não existe preocupação social genuína com os entregadores.
Presencing: retrair e refletir
Sentimentos, sensações e insights individuais (depoimentos de cada membro do grupo narrando sua percepção nesta etapa do percurso)
Gregori Boschi
Durante esta etapa do percurso, os principais sentimentos foram de empatia e compreensão das dificuldades enfrentadas pelos entregadores diariamente, associada a sensação de impotência, pois as mudanças nas leis levaria muito tempo, esses indivíduos não são "contratados nem do restaurantes e nem dos aplicativos, com se estivessem em um limbo social, prestando um serviço essencial, em uma situação totalmente precarizada e desvalorizada pela sociedade. Será que somente eu estou vendo isso? Será preciso mobilizar uma Greve para que a sociedade acorde desta metástase? Infelizmente não há representantes deste grupo para tal ação. Se ainda não acordamos para isso quando é que acordaremos então para a sustentabilidade das bicicletas?
Paula Almeida Souza
"O fundo do U foi, pra mim, especialmente diferente. Costumava ter paradigmas fortes e bem definidos e, nesse momento, vi que isso não me ajudaria. Deixei para trás várias certezas e alguns modelos mentais. Talvez não para sempre, mas com certeza para me ajudar a absorver tudo que tinha vivido até ali.
Uma cadeia inteira precisa sobreviver. E, as vezes, ela é muito mais extenso do que estamos dispostos a pensar. Consegui parar de pensar com a cabeça de empresário e perceber o impacto que o "não pensar" pode gerar na sociedade e na vida de cada um que vive nela, não só os que vivem de um mesmo lado. Comecei a falar sobre o assunto e mostrar para vários outras pessoas parecidas comigo a importância de pensarmos assim. Foi revigorante."
Beatriz Bouskela
Esta etapa do processo me conectou com diferentes emoções. Por um lado, me senti frustrada por não conseguir exercitar a escuta com o nosso principal stakeholder, uma vez que a pandemia intensificou o trabalho deles e dificultou muito o nosso acesso. Por outro lado, a mesma intensificação de trabalho que tornou o problema mais urgente, deixou mais explícito o quão essencial esses trabalhadores foram (e vêm sendo) para o abastecimento da cidade e segurança das pessoas, aumentando a sua visibilidade para parte da sociedade e movimentando diferentes atores. Dessa forma, ao mesmo tempo que faltou um contato mais próximo e direto, me senti engajada com tantas novas ideias, conteúdos, propostas e com a sensação de que o tema estava sendo abordado em diferentes esferas.
Ao mesmo tempo, o próprio processo me mostrou que não seria possível alterar a questão de forma estrutural, pelo menos não nesse período de tempo. E que tudo bem fazermos algo simples. Precisamos confiar que somos apenas uma pequena parte desse todo e que, dando um passo para frente - e possivelmente influenciando outros a darem um passo também - já não estaríamos mais no mesmo lugar.
Desenvolvimento do produto final: agir em um instante
Processos de prototipagem
A partir dos insights e conclusões obtidos pelas pesquisas secundárias, escutas e temas que atravessaram o grupo, foi elaborado uma lista de possíveis produtos que poderiam ser objeto deste projeto referência. Para escolha e prototipagem entre as possibilidades existentes, foi elaborada uma matriz de decisão, considerando viabilidade de implementação e impacto gerado para a parte interessada selecionada.
Desta forma concluímos que o produto a ser desenvolvido seria uma campanha de conscientização junto aos clientes, voltada para humanização do entregador e valorização do frete. Ao amadurecermos as idéias, percebemos que o valor monetário do frete é um dos itens mais importantes na decisão da compra, portanto decidimos alterar a ênfase da companha para valor da gorjeta. Desta forma seria possível beneficiar os entregadores, que se encontram vulnerabilizados, em situação de trabalho precarizado, humanizá-los através da campanha de conscientização e ao mesmo tempo sensibilizar os clientes para a causa através das redes sociais.
Produto Final
Por que a definição de uma campanha?
A campanha que elaboramos parte da premissa de que se o coletivo de clientes pode formar uma "multidão de gerentes", pode também aumentar o valor distribuído para os entregadores tornando este trabalho mais justo.
Para impactar essa multidão, criamos três diferentes pilares de comunicação:
- Perguntas reflexivas: questionamentos que buscam deslocar os clientes de sua realidade e exercitarem a empatia. Exemplo: é arriscado ir ao mercado? como a comida chegou até mim? O que é essencial?
- Conteúdos informativos: dados selecionados para evidenciar a realidade dos entregadores e funcionamentos do aplicativo. Exemplo: você sabia que 70% dos entregadores de bicicleta são negros? Você sabia que 100% da gorjeta vai para o entregador.
- Depoimentos dos entregadores: frases ditas por entregadores, em entrevista ou em entrevistas públicas, que aproximem os clientes do dia-a-dia destes trabalhadores. Exemplo: "Se eu pegar COVID hoje o meu grande medo é trazer pra casa, vou me sentir um assassino. Só que eu não posso parar."
A proposta é que com esses três pilares podemos trazer maior consciência para o dia-a-dia dos clientes, de forma que eles não só aumentem a remuneração dos entregadores, mas também se aproximem de sua realidade e sejam vigilantes, não só da qualidade de serviço, como os aplicativos sugerem, mas também da entrega de valor recebida por esses trabalhadores.
Credits:
Criado com imagens de Marcus Chis - "untitled image" • Kai Pilger - "untitled image" • Patrick Connor Klopf - "bike delivery in nyc "