Home é uma instalação/performance que pretende responder à pergunta “O que é um lar”. A partir de dezenas de encontros com pessoas de todo o mundo, a criadora Mariana Ferreira habita um jardim composto por plantas e pelos vídeos dos registos dos encontros, enquanto viaja poética e digitalmente pela sua própria história.
SOBRE
O interesse fundador desta criação é o conceito de lar e como este se altera, se transforma, expande ou comprime constantemente, em particular, após um processo de mudança - mudança de casa, de cidade, de país, de continente. Como se constrói um lar? E o que é, na verdade, um lar? O que sobrepõe e o que distingue as palavras lar e casa? Quando alguém constrói um novo lar, de qualquer tipo, o que é que deixa para trás? O que é que leva? O que é que escolhe?
De um ponto de vista pessoal, a minha relação com a palavra altera-se constantemente porque me altero eu, porque mudo, porque a vida ressignifica a palavra. Mas esta desconforto com a palavra, esta insuficiência conceptual, fez-me querer investigar o assunto profundamente. Decidi, então, explorar diferentes relações com a palavra. Decidi ter encontros com pessoas, muitas pessoas, e registá-los em vídeo. Cada conversa/encontro inicia-se da mesma forma: “mostra-me os sítios que consideras terem sido o teu lar”. Em particular, pedi às pessoas para começarem por me mostrar lugares do passado e, assim, fazer uma espécie de viagem no tempo até ao presente, permitindo um mergulho biográfico, expandido as memórias sensoriais e emotivas.
Para fazer essa viagem, utilizámos o Google Street View e o Google Earth. Os encontros foram todos registado pela webcam do computador, que filma os rostos dos viajantes, e é também gravado o desktop do computador, onde o mergulho digital acontece. Cada encontro é único, decorre sem fórmulas ou guiões, e produz material próprio e intimamente conectado à pessoa que o gerou. Em cada encontro, fixo pequenos detalhes gerados na conversa. São de diversas naturezas - artísticos, estéticos, históricos, culturais, sociais, políticos, biográficos, ecológicos, relativos a questões de identidade ou direitos- humanos, entre outros. Esta matéria é posteriormente pesquisada na internet, selecionada e integrada durante a edição dos vídeos. Alguns dos vídeos apresentam, assim, uma espécie de coreografia de desktop, um entra-e-sai, minimiza-maximiza de pesquisas, janelas, ficheiros, links e imagens que brotam do discurso daquela pessoa em particular.
Após 30 encontros com pessoas de vários lugares do mundo, uma série de palavras-chave foram surgindo: casa, espaço, comunidade, família, identidade, trabalho, cultura, projeção. Após 30 encontros, construo agora a teoria de que lar equivale a desejo. A ideia de um lar é uma ideia projetada, existe no espaço mental da imaginação, diz respeito ao futuro. Durante todo o processo, que incluiu diversos encontros e residências artísticas, fui descobrindo e esculpindo uma conexão entre mudança de lar e a relação com as plantas. Interessa-me a forma como trazemos plantas para dentro de casa, como as envasamos, como as trasladamos, lhes criamos condições - aparentemente essenciais - à sua sobrevivência. Porque precisamos tanto delas? Precisam elas de nós? Como se adaptam as plantas para sobreviverem? Que mutações, que adaptações genéticas? Durante os lockdowns a compra de plantas subiu 500%. Pergunto-me porque o fazemos. Que necessidade é esta de colocar plantas junto a nós, plantas em vasos, plantas de decoração, plantas exóticas, plantas de interior, plantas medicinais. Que categorias são estas? Deonde vêm?
O domínio sobre a natureza é proporcional ao antropocentrismo.
A co-existência e intersecção dos mundos digital e natural é uma das bases conceptuais e plásticas deste projeto, que reconhece a importância do acesso a ambos universos como imprescindíveis na construção de uma ideia de lar e, em geral, na composição de uma sociedade mais justa e democrática.
CONCEITO
Home é um espaço de plantas e de terra, plantas vivas, flores, ervas daninhas, árvores, mas também de plantas doentes, demasiado doentes para serem vendidas. Durante o tempo da instalação, habito o espaço tentando criar as condições ideais à sobrevivência das plantas, correndo o risco de ter de deixar alguma morrer. Por entre as plantas, nos vasos, na terra, vivem vídeos de alguns dos encontros que tive durante o processo. Vivem entre as plantas, como pedaços do jardim.
Existe uma paisagem sonora criada pela desenhadora de som Cigarra durante todo o tempo de vida da instalação. A iluminação da sala, criada pelo diretor técnico Roger Madureira é ténue mas colorida, utilizando muitas das cores presentes nas próprias plantas e flores e, dentro das possibilidades de cada sala, permite a entrada de luz natural para dar às plantas, todas as condições de vida naquela que é a sua casa durante o tempo do espectáculo.
Em cena teremos, ainda, vídeos captados e editados pelo artista de vídeo Tiago Moura, que filmou folhas, pétalas, madeira e água, que organizou para a cena com minúcia e delicadeza.
A organização do espaço cénico, o jardim, foi pensado e desenhado pelo artista Vítor Serrano e a viagem dramaturgica do texto que eu digo em cena, foi suportada pela dramaturga Keli Freitas.
VÍDEO
Ficha Artística
Concepção, Direção artística e Interpretação: Mariana Ferreira
Apoio à Criação: João Estevens
Apoio à Dramaturgia: Keli Freitas
Direção Técnica: Roger Madureira
Desenho de Som: Cigarra
Fotgrafia e Vídeo: Tiago Moura
Espaço Cénico e Fotografia: Vítor Serrano
Figurino: Marina Tabuado
Comunicação: Maria Tsukamoto
Produção Executiva: Maria Paula
Produção: CAMA a.c.
Residências Artísticas: Linha de Fuga, Largo residências
Residência de coprodução: O Espaço do tempo
Apoios: Casa Independente, Leroy Merlin e Horto do Campo Grande
Home é um projecto financiado pela República Portuguesa – Cultura / DGArtes e pela Câmara Municipal de Lisboa - Apoios FES
APRESENTAÇÕES
Rua das Gaivotas 6 • 17 a 19 março 2022
Casa Independente • 20 outubro 2022
Centro Cultural de Lagos • 21 janeiro 2023
MARIANA FERREIRA
Iniciou o seu percurso no TEUC. Tem uma licenciatura em Teatro – actores - pela ESTC e uma pós-graduação em Artes da Escrita pela FCSH - Universidade de Lisboa. Desde 2015 que trabalha profissionalmente em artes performativas. Trabalhou com artistas como Bouchra Ouizguen, Alex Cassal, Keli Freitas, Raquel André, Monica Calle ou Mário Coelho. Em 2015 estreia-se profissionalmente com a encenação e dramaturgia de Musgo e Urze. Em 2019 integra a IV edição do Laboratório de escrita para teatro do TNDMII, onde escreve Pin my Places publicado pela Bicho do Mato/edições do TNDMII, e apresentado no mesmo teatro em Outubro de 2021 com encenação de Rui Horta. Foi uma das artistas selecionadas a integrar o Laboratório e Festival Internacional Linha de Fuga 2020 e uma das duas dramaturgas portuguesas a integrar a edição especial de dramaturgia da École des Maîtres 2020/2021, onde escreveu Et cetera, et cetera.
Desde 2020 que trabalha no seu projeto on-going Home, uma investigação à palavra lar. Está a escrever e a dirigir o Teatro Universitário do Porto num projeto sobre o amor a estrear em Junho de 2023. Ainda em 2023 cria a Cooperativa Dramatúrgica com Filipa Matta, um espaço de encontro onde vários artistas partilham e se apoiam nas componentes da escrita e pensamento das suas criações pessoais. Na sua pesquisa usa a memória e a biografia como matéria, que pode ser questionada, subvertida ou manipulada, usando o digital e o poético como formas de pensar e compreender os mundos.
Contactos
producao.cama@gmail.com / mariana.rs.ferreira@gmail.com
Mariana Ferreira : +351 917 524 591
Maria Paula: +351 961 563 317
Credits:
©Vitor Serrano