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Formação Integrada para Sustentabilidade MESTRADO PROFISSIONAL EM GESTÃO PARA COMPETITIVIDADE FGV EAESP . LINHA DE SUSTENTABILIDADE

MISSÃO . criar condições para fazer emergir um sujeito consciente e engajado consigo mesmo, na relação com os outros e com o todo, com sensibilidade, inteligência prática e fundamentação teórica em sustentabilidade.

Como a Formação Integrada funciona na prática?

Compreendemos que aprender é uma capacidade intrínseca e constantemente presente em nossa vida. Estamos sempre, como aprendentes, nos desenvolvendo, em constante processo de produção de nós mesmos num processo que se dá de maneira integrada: pelo o que nos acontece de fora para dentro, e pelo que percebemos, sentimos e compreendemos de dentro para fora. Desta forma, buscamos combinar conteúdos e atividades que promovam:

  • Espaços para o processo pessoal de produção de sentidos de cada sujeito (autoformação), para troca e aprendizagem pelas relações do grupo (heteroformação) e para aprendizagem pelo contato com o ambiente e o conjunto de relações complexas que nele acontecem (ecoformação).
  • Condições para a vivência e a expressão do conhecimento por meio não apenas de conceitos e teorias (razão formal), mas também por meio de projetos aplicados, viagens de campo e outras experiências práticas (razão experiencial) e atividades de cunho corporal, artístico, reflexivo e contemplativo (razão sensível).

Nosso processo estrutura-se ao redor de dois eixos:

Projeto de Si Mesmo: atividades, vivências e conceitos que buscam provocar nos alunos uma percepção ampliada de si mesmos, dos outros e da realidade, ativando, expandindo e contribuindo com a apropriação do seu potencial sensível/perceptivo, reflexivo e criativo. Com isso, esperamos que os(as) alunos(as) possam:

  • Desenvolver linguagem para perceber, abordar e atuar numa realidade complexa (multirreferencial e muldimensional);
  • Integrar a dimensão subjetiva e sensível como fonte de conhecimento;
  • Incorporar o diálogo como atitude de abordagem ética;
  • Reconhecer a complexidade da realidade e identificar seus diferentes níveis e perspectivas/paradigmas.

Projeto Referência: projetos voltados a desafios reais, onde conhecimentos de gestão possam ser ampliados e aplicados sob a ótica da sustentabilidade. Os semestres I e II terão um Projeto Referência diferente, o qual será proposto e selecionado pelo próprio grupo. De maneira geral, o tema do PR deve estar relacionado à dimensão trabalhada no semestre e oferecer uma entrega prática e aplicável. Por seu caráter altamente prático e experiencial, o PR oferece uma oportunidade singular para o grupo entrar em contato direto com situações complexas, que envolvem diversas realidades, atores e variáveis, e onde não há respostas óbvias e prontas. Ao final do semestre, a entrega do projeto é apreciada por convidados externos e avaliada pelo próprio grupo e pelos professores da disciplina, conforme critérios de avaliação detalhados abaixo. Por meio do PR, esperamos que os(as) alunos(as) possam:

  • Ampliar sua percepção sobre a realidade e suas relações, por meio do entendimento e da busca por soluções práticas a desafios reais da sustentabilidade;
  • Conectar os conceitos e ferramentas que estão na fronteira do conhecimento em Sustentabilidade com suas práticas de gestão;
  • Integrar conhecimentos dos diferentes temas da sustentabilidade e da gestão, com visão crítica e sistêmica.
  • Atuar como agentes de mudança e transformação rumo ao desenvolvimento sustentável.

SAIBA MAIS ACESSANDO NOSSOS VÍDEOS

SOBRE ESSE RELATÓRIO

Esse relatório tem como objetivo sistematizar os conhecimentos gerados pelos Projetos Referência dos grupos que passam pela Formação Integrada para Sustentabilidade no contexto do Mestrado Profissional em Gestão para Competitividade.

  • A cada turma do Mestrado, desenvolvemos de quarto a seis projetos por semestre.
  • Cada projeto é composto por uma equipe de alunos(as) que define seu próprio desafio, identidade e processo de trabalho (stakeholders chave a serem procurados, conteúdos a serem investigados, formato da entrega final, recursos necessários etc).
  • O percurso para este processo de trabalho é baseado na Teoria U: desenvolvida por Otto Scharmer e outros pesquisadores da área de Aprendizagem e Mudança Organizacional do MIT, “a Teoria U propõe que a qualidade dos resultados que obtemos em qualquer sistema social é consequência da qualidade de percepção e consciência a partir da qual operamos nestes sistemas.” (Presencing Institute) Trata-se de um framework; um método para liderar mudanças profundas; e uma maneira de ser – conectando aos aspectos mais autênticos e elevados do indivíduo.” Como processo, a Teoria U propõe três macro etapas: Observar, observar, observar ("descida do U"): investigar e compreender um sistema de dentro dele, interagir com os stakeholders chave, abrir-se à escuta, sentir; Retrair e refletir ("meio do U"): silenciar para conectar-se consigo mesmo e com sua fonte sensível de percepção e criatividade (Presencing); e Agir em um instante ("subida do U"): deixar emergir resultados inovadores colocando em prática as soluções possíveis - ainda que em forma de protótipos - e aprendendo com elas.

LONGEVA

Emiliano Graziano, Fabiano Meira, Flavia Moraes, Ivani Benazzi, Mirela Sandrini, Sabine Milioni

Investigação e escuta

O despertar para o tema veio de maneira espontânea a partir da sugestão do colega Fabiano Meira durante uma das aulas da Formação Integrada. A partir de uma dinâmica no formato world café, Fabiano expôs o motivo pelo qual o tema lhe tocava: ele convive com alguns idosos em sua família e observava os dilemas e preocupações dessas pessoas ao longo do tempo. Mirela Sandrini havia tomado contato com o tema em 2012 com a publicação Viver Muito do economista Jorge Félix. Outros colegas foram circulando pela mesa e alguns foram se juntando ao time pela convergência de interesses. Sabine Milioni, a mais jovem da nossa equipe relatou sua angústia em relação à sensação de lentidão e ritmo incompatível para seu convívio com idosos. Flavia e Ivani estavam muito interessadas em possibilidades de novos negócios e empreendedorismo para longevos e Emiliano também mostrou interesse pelo fato por observar a mudança de estilo de vida em alguns familiares quando atingiram 60 anos. Desde essa decisão de formar o grupo, todos passaram a observar melhor o quanto o convívio com idosos está presente no dia-a-dia de todos: nas famílias, na vizinhança, nas ruas. Permitimos a nós mesmos observar e escutar em todos os momentos de nossos dias, fizemos o exercício de nos colocarmos no lugar dessas pessoas, de observar o quanto nossa cidade não está adaptada para acolher os idosos em termos de infraestrutura, como o assunto é desprezado nas escolas, nos negócios, por cada um de nós. Descobrimos vizinhos que se acidentaram em quedas por resistir ao uso de bengalas, pais e mães com depressão por ter interrompido suas atividades profissionais por conta de aposentadorias, filhos incomodados por ter que cuidar de pais e avós longevos. Mas afinal de contas, qual a origem comum de todos esses problemas? Quanto mais investigávamos, mais presente estavam os dilemas e as possibilidades e iniciativas em direção à melhoria da qualidade de vida na longevidade: rodas de conversa, clubes para idosos, aplicativos de relacionamento e plataformas de empreendedorismo e recolocação profissional para longevos, áreas inteiras de pesquisa da longevidade dentro de universidades. Até mesmo a questão atual da Reforma da Previdência emergiu nesse instante no Brasil. Decidimos então agrupar tudo o que observamos, experimentamos e conhecíamos em quatro dimensões, em concordância com os fundamentos dos Quatro Capitais trazidos pelo médico gerontólogo Alexandre Kalache: social, saúde, conhecimento e financeiro. Também observamos o quanto estas dimensões estão interligadas e são interdependentes.

Fontes de investigação

No dia 15/03/19 foi realizado no salão nobre da FGV o kick-off dos Projetos Referência. Levantamos stakeholders que possuem envolvimento com o tema longevidade para contribuir com insights. José Roberto Bueno é mestre de Ai Ki Dô, fundador do Instituto Harmonia e o movimento 50-70, juntamente com Mario Sato. Cely Mantovani é esposa de Zé Bueno e participante do 50-70. Mórris Litvak é empreendedor social, fundador da plataforma Maturijobs que conecta pessoas 50+ com oportunidades de recolocação no mercado, além de possibilidades de networking e empreendedorismo na longevidade. Mariam Dimitri faz parte da plataforma Lab60+ e da Uni-Inversidade, que promove orientação psicológica e coaching para quem quer replanejar a vida após 60 anos. Maria Aparecida Doro é funcionária pública aposentada, trabalhou a vida toda na CET. Mario Marcondes Rezende, aposentado, trabalhou a vida toda em sua vidraçaria. Após uma rodada de apresentação, os convidados comentaram temáticas que acreditam estar relacionadas ao envelhecimento. Foi recorrente a constatação de que quando uma pessoa se aposenta ela perde seu rumo e questiona sua utilidade, pois não é mais considerada produtiva. Parar de trabalhar é muito difícil, pois é natural querer continuar produzindo e continuar a usar tudo o que aprenderam durante a vida. Trabalhar é fazer a cabeça funcionar, é manter relacionamentos com os colegas de trabalho e uma forma de equilibrar o orçamento. Continuar trabalhando após a aposentadoria também é difícil, porque o isolamento também se dá dentro deste ambiente. Muitas vezes, apenas tarefas básicas são divididas e delegadas, os colegas de trabalho não compartilham problemas. A percepção é que os idosos não têm pressa e são mais lentos, não estão atualizados. Soma-se aí a pressão existente para a entrada de pessoas mais jovens, tanto porque há muitos jovens precisando iniciar carreira, como também porque são mais ágeis, conectados, atualizados tecnologicamente e ávidos para crescer profissionalmente.

A necessidade de se reinventar ainda existe, mesmo aos 60 anos, mas ainda é pouco praticada na sociedade. Terminado o período produtivo e de trabalho, sente-se inútil e sem valor. Outra afirmação comum a todos e bastante enfatizada foi a importância das relações. Percebe-se uma diminuição dos relacionamentos com o avançar da idade, os círculos de amizades diminuem, há menos eventos sociais para os quais se é convidado, seus amigos se vão e se você for afortunado, lhe resta sua família. Também ficou bem evidente o preconceito perante os velhos e sua desvalorização e como são tratados com descrédito. Os líderes das iniciativas para os idosos também se mostraram muito cientes e preocupados com o fato dos idosos serem tratados em grupos separados, pois há muita demanda para abertura para diálogo intergeracional.

Surgiu também a temática dos medos. O maior deles é o isolamento, a aposentadoria vem com todo preconceito e redução drástica de possibilidades. Perdem os amigos do trabalho, a família também não tem tempo, todos muitos ocupados, têm pressa e querem falar apenas de atualidades, inovação, o que está acontecendo de mais importante no momento cria-se uma quebra na conexão. Há também a preocupação de como pagar as contas e principalmente como manter a saúde sem dinheiro.

Em um momento de debriefing, organizamos os inputs trazidos pelos presentes no kick-off. Uma fala comum, é que não há preparo para ficar se velho, eles se depararam com este fato quando pararam de trabalhar, como num passe de mágica tudo mudou e com isso muitas perdas: financeira, relacionamentos, uso de sua capacidade intelectual e física, isolamento, muito preconceito. Do lado do idoso está presente o medo do isolamento, de a família se afastar, gerando mágoa e depois arrependimentos. Do lado dos empreendedores há muita energia com identificação de oportunidades, de gerar conhecimento, atualização profissional, criação de plataformas de encontros e rodas de conversas para descobrirem o que podem fazer com o seu tempo livre e gerando espaços de convivência como forma de alternativa ao isolamento.

Em suma, fica evidente a preocupação com a questão financeira. Muitos sobrevivem com sua aposentadoria que por vezes nem paga o plano de saúde. Além disso, faltam espaços inclusivos para idosos, tanto pela dificuldade de acessibilidade quanto pela falta de ofertas de negócios voltados para este público. Faltam políticas públicas ou o cumprimento das mesmas. Também está presente a falta de atenção da família e dos amigos. Mobilidade também é um tema, como a existência de moradias não adaptadas, ou quando há, feitas em isolamento, ocasionando guetos de idosos, sem integração e inclusão. Há também a falta de atualização frente a novos conhecimentos tecnológicos e a resistência em assumir o envelhecimento. Percebe-se o medo e o preconceito e por isso ninguém quer falar sobre a velhice ou se preparar para ela. É tão assustador que lutamos contra até quando for possível. Um ponto que chamou a atenção do grupo, foi que não existe um preparo para aposentadoria e para a velhice, até o dia que chega. Existe uma negação, sem ficar muito claros os motivos. De repente, nos encontramos velhos e assustados e despreparados.

Como primeiro insight de projeto na temática de idosos havia sido levantado o empreendedorismo. O tema endereçaria a temática da produtividade após aposentadoria e o estímulo ao envelhecimento ativo. Essa ideia inicial foi reforçada pelo perfil dos convidados do kick-off. Havia representantes desse universo, tanto empreendedores que trabalham com e para este público e idosos que ainda estão trabalhando e mantendo-se ativos. Percebemos então que o desafio de tratar o tema é muito mais complexo que o empreendedorismo e que o Kickoff nos trouxe um recorte muito específico da sociedade, brancos de classe média e boa escolaridade. Sentimos a necessidade de ampliar esses recortes da sociedade e de aprofundá-los nos dados Brasil. Saímos do kick-off com as percepções fornecidas pelos convidados e com referências de eventos voltados para a terceira idade para participarmos, além de questionamentos que nos provocam para mais pesquisas e entrevistas, para observarmos outras perspectivas sobre os desafios e oportunidades, como por exemplo "como é envelhecer para os indígenas e os negros? Há mais desafios e oportunidades?

Formas de coleta de dados e fontes de investigação

1) Realização do Kick off

2) Entrevistas

Foram realizadas entrevistas para investigação mais aprofundada. O objetivo foi a coleta de informações de especialistas e a busca de percepções sobre como o tema do envelhecimento afeta os diferentes recortes da sociedade. Também foram considerados as oportunidades de ação ainda pouco ou nunca exploradas, em especial para diálogo intergeracional.

Recortes da sociedade:

Negros: Este recorte da sociedade é muito representado por uma população de baixa renda que convive com outras carências que agravam o problema do envelhecimento. As limitações financeiras são maiores, a aposentadoria do idoso é para toda família e as necessidades de alimentação e tratamento de saúde ficam incompletas. Moradias pequenas e pouca infraestrutura nas quais moram filhos e netos. O isolamento se dá mesmo morando com a família. Geralmente trabalham por mais tempo, porque precisam e aceitam condições de trabalho inferiores. Um outro fato comum é a violência que se faz presente influenciado pelo consumo de drogas entre os familiares. Para mulheres é ainda mais difícil o envelhecer porque fica para ela a responsabilidade de cuidar de todos os familiares com necessidades especiais, inclusive o marido que a abandonou com os filhos e retorna doente ao final da vida para que ela cuide dele. As mulheres que sofreram violência durante sua jornada ainda convivem com lembranças muito dolorosas e assustadoras que levam à problemas psíquicos.

Entrevistados: Irene Santana, 74 anos, ex-moradora de rua, líder comunitária da Ilha do Maruim, Olinda PE, montou uma creche para 120 crianças e criou mais de 20 órfãos da comunidade. Saulo Sotero 49 anos, casado, 2 filhas, motorista particular, mora na Comunidade Vila Imperial, São José, Recife PE. Regina Célia, 54 anos, advogada e professora universitária. Cofundadora do Instituto Maria da Penha, trabalha em defesa de mulheres vítimas de violência.

Índios: Diferente de outras representações da sociedade o envelhecer do índio é de bem-estar conquistado. O ancião tem o status do saber, é a fonte de conhecimento para todas as fases da vida. Até os pajés se aconselham com os mais velhos. São os guardiões da cultura e do trabalho, mesmo em aldeias que tem escolas do estado. Os anciãos são chamados a compartilhar conhecimento. Quanto a saúde, sofrem das mesmas doenças e falta de assistência como o homem urbano.

Entrevistados: Saulo Ferreira, Indigenista, Missionário da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), Professor do UFPE, Campus Caruaru PE. Eliane Amorim, Indigenista, Assessora da Comissão de Professores Indigenistas de PE, Drª em Educação, Professora de Antropologia das Culturas Indígenas , Recife, PE. Marcos Luidson, Cacique Xucurus, em Pesqueira, município do agreste pernambucano, a maior etnia do estado. José Mendes, agente de saúde do IMIP Instituto de Saúde que coordena o programa da saúde indígena em PE.

Executivos: Este recorte apresenta um envelhecer com uma perda de status muito grande. Perde-se a referência de influenciar, decidir, ser consultor. Se esvai a responsabilidade por muitas pessoas e que estão em sua maioria atualizados com tecnologias, política, mercado e negócios. Por outro lado, nunca exercitaram fazer outra coisa e vivenciam uma disruptura grandiosa. O medo da perda financeira também aparece como fator muito assustador, mais do que nos outros recortes da sociedade, por conta de diferença de rendimentos ser muito mais acentuada. Esses têm uma menor preocupação com o isolamento, porque mantêm uma vida social ativa e são provedores de bem-estar aos seus familiares.

Entrevistados: Theo van der Loo, ex CEO Bayer América Latina, trabalhou na empresa por mais de 30 anos, holandês, reside em São Paulo. Mariângela Schoencker, 54 anos, paulista, casada , diretora executiva da consultoria americana Lee Hecht Harrison de Outplacement e Desenvolvimento, reside em Recife PE.

Professores Universitários: A perda financeira impacta da mesma forma que nos outros recortes, pois há igual medo de não pagar plano de saúde. Ficou mais evidente o medo e a constatação do isolamento. O trabalho em sala de aula na qual há convívio diário com jovens, orientando trabalhos de pesquisas, os mantêm muito atualizados e mente viva. Sair dela e parar é muito assustador. Não sabem, mas também não se preparam para esta fase.

Entrevistados: Lúcia Maria, 62 anos, professora aposentada de Curso de Zootecnia da UFRPE, Universidade Federal Rural de Pernambuco. Mércia Santos, 55 anos, professora de Zootecnia da UFRPE, em atividade. Professor Valdemir Alexandre , 66 anos professor do curso de Engenharia Química da UNICAP, Universidade Católica de Pernambuco

Além dos recortes da sociedade, ouvimos uma psicóloga especializada em gerontologia sobre suas percepções sobre o tema do envelhecimento, sua área de estudo.

Perspectiva geral: Os principais pontos trazidos pela psicogerontóloga foram que não se fala sobre o envelhecimento e que o tema ainda é tabu. Mais recentemente, a partir do momento que o velho começa a ser um problema para sociedade, passou-se a dar mais atenção à questão. O velho é constantemente excluído, foi colocado à margem da sociedade e em um lugar de exclusão. Há casos de idosos que moram em casas de repouso que sofrem de abandono, as famílias não os visitam. Mais grave é a ocorrência de violência contra eles, seja psicológica ou física. Essa população é dependente, vulnerável e suscetível à violência. Ocorre também negligência e a violência advém de familiares, profissionais e criminosos. O abuso acontece com o idoso por entender que ele é frágil e um alvo fácil. Os maduros na maioria das vezes são pessoas muito solitárias. O idoso é responsabilidade da família e do Estado. Na terminologia, não se usa mais asilo, se fala Casa de Repouso ou melhor ainda Instituições de Longa Permanência para Idoso. (ILPI) A psícóloga ressaltou que o uso de eufemismos como “melhor idade” reforça o tabu da velhice e esconde a realidade. É tabu pois, para olhar para a velhice é preciso olhar para a nossa iminente velhice. Coloca o fato de que a partir do momento em que nascemos, passamos a envelhecer. Falar da velhice é falar da morte, é falar e pensar na nossa velhice e na nossa morte. Por isso há essa negação. Citou que atualmente se fala muito em envelhecimento ativo e que há muitas críticas da psicogerontologia a isso. O conceito parte dessa negação de não reconhecer a fragilidade da velhice. Na sua visão é preciso entender a individualidade e a fragilidade daquele idoso. Junto com a velhice podemos estar falando de doenças, de fatores que não permitam que ele seja ativo. Parte do pressuposto que o idoso, por não produzir mais, é inútil e que para combater esse definhar deve continuar nesse ciclo produtivo e ativo. Mencionou que também há um caráter subjetivo, de que a passagem do tempo é percebida de diferentes formas pelas pessoas. Para alguns é contínua e uniforme, mas para muitos há uma ruptura. Muitas vezes a situação está ligada a um adoecimento e nessa fase a pessoa se coloca na questão e repensa sua vida. Trouxe o ponto de que hoje há uma falta de identificação do idoso. Pessoas estão chegando à velhice e quando se dão conta dessa condição ocorrem efeitos que causam uma negação, uma paralisia, idoso não se reconhece mais. Acontece toda uma ressignificação de toda uma vida. Vão surgindo as fragilidades e a pessoa precisa olhar para isso, muitas vezes ela se desespera. Daí a importância de falar sobre o envelhecimento, de colocar a questão em pauta e discutir, para que se chegue na velhice e se compreenda seu processo de envelhecimento e suas fragilidades. Para que você se prepare melhor ou entenda que você vai deixar de ser essa pessoa ativa que você foi toda vida. Levantou o fato de que o idoso inicialmente era quem continha a sabedoria, quanto mais velho, mais se sabe. Era a pessoa mais importante, que viveu mais, que tinha mais conhecimento. Historicamente esteve nesse lugar de sabedoria e o longevo sempre foi muito valorizado por causa disso. Na lógica capitalista ele perde o valor. A expectativa de vida aumenta, pessoas começam a mostrar mais essas fragilidades dessa condição. Quando aparecem essas fragilidades, é excluído. Se não é mais produtivo, se torna inútil e deve sair de cena. Não quer mostrar. É o não lugar, é o preconceito. Por isso a grande importância de falar, é a quebra de tabu, o respeito em todas as idades. Na sociedade há um culto ao novo, ao jovem, à perfeição a à juventude eterna. Muitas propagandas trazem mulheres totalmente “plastificadas”, que não são a representação real do idoso. Essa é a resposta para não ficar com a “cara” do idoso. É preciso estar sempre bonito, usufruindo de cirurgias plásticas, mulheres querem cada vez menos mostrar as rugas ou os cabelos brancos. A consequência é que o maduro vai se isolando, não há lugar pra ele. Existe também o desejo pela imortalidade. Valores predominantes ainda são a riqueza, rapidez, beleza. Percebe-se um conflito da singularidade com os estereótipos. Resultado disso é que é muito difícil envelhecer nessa realidade.

Entrevistada: Maria Julia Swenson, 26 anos, Psicóloga com especialização em Psicogerontologia, fez trabalho voluntário em uma casa de repouso na África do Sul.

Das entrevistas extraímos que é um tabu falar na velhice. Existe preconceito, tanto dos jovens quanto dos próprios velhos, além daquele que ainda não chegou lá, mas se aproxima desta nova fase, com muita negação. Há convergências no medo do isolamento e de não conseguir cuidar da saúde. Há grandes preocupações financeiras. Existe medo de deixar de ser produtivo e ser deixado de lado. Todos eles acreditam que o Estado é ausente no momento que todos mais precisam.

3) Eventos:

Alguns membros do grupo tiveram a oportunidade de participar de diferentes eventos, a fim de experienciar o tema e vivenciar a questão da longevidade com mais proximidade.

Participação em Roda 5070 Vida

Idealizado por José Bueno, convidado presente no kick off, o Roda 5070 Vida, é um ciclo de palestras abertas com o intuito de promover reflexões, compartilhar histórias inspiradoras e motivar qualquer pessoa, em especial aquelas entre 50 e 70 anos, para novas possibilidades a partir da aposentadoria. Também participaram nesse dia alguns jovens empreendedores que, a partir de experiências pessoais com pais, tios e avós, desenvolveram negócios paralelos às suas profissões escolhidas para trazer uma solução para alguns desafios vividos em suas famílias, dentre eles: suplementos vitamínicos e terapias de grupo para longevos. O envolvimento desses empreendedores a partir de situações vividas em seus cotidianos nos revelaram parte do caminho para as soluções que nosso PR buscava até então.

Participaram cerca de 20 pessoas com diferentes históricos. Segundo Zé Bueno, cada edição do 5070 é única, pois dependendo da configuração do grupo, os temas variam, mas os resultados são sempre muito inspiradores: "já vi gente sair da palestra e escrever um livro, outros voltam para todas edições e trazem filhos e netos, ou indicam para outros amigos". Sem dúvida, o 5070 é um espaço muito valioso para motivar a reinvenção não apenas no modo de viver dos longevos a partir de 60 anos, mas também para propor uma nova forma de entender as possibilidades infinitas que existem para todos em termos de convívio social, abertura para novas experiências e amor próprio.

Participação no Café da Manhã de Lançamento do evento "Longevidade Expo+Forum"

O evento de café da manhã contou com a apresentação comercial do evento e duas palestras informativas sobre o tema que trouxeram informações e contatos importantes para a descida do U do grupo. Uma fonte de informações muito importante para dados e até terminologias relacionadas ao tema foi o Tsunami 60+. Também foi feita uma palestra da jornalista Mara Luquet que trouxe muitos dados e depoimentos sobre a longevidade.

4) Pesquisas e coletas de dados secundários

Dados estatísticos e contextuais

Além de dados oficiais do IBGE e OMS, também buscamos referências estatísticas em sites e publicações dos especialistas: Jorge Félix, economista da Longevidade e Professor da USP, PUC-SP e FESP-SP; e do médico gerontólogo Presidente da Centro Internacional de Longevidade Alexandre Kalache. Estes dois autores foram as principais referências teóricas e estatísticas para nosso PR.

O envelhecimento populacional no mundo e no Brasil alcançará cifras recordes, nunca, nem de perto, vistas na história da humanidade. As economias mundiais e nacionais terão que lidar com uma estrutura etária desfavorável em termos de produtividade e as diferentes nações terão que se preparar para as consequências de uma alta razão de dependência demográfica. No Brasil, até 2050 a cada 4 habitantes, 1 será idoso e será o 6º país mais idoso no mundo.

A expectativa de vida do brasileiro mudou de 45,5 para 75,2 anos. Enquanto a taxa de fecundidade caiu de 6 para 1,8 filho por casal.

O Brasil também envelheceu antes de enriquecer. Atualmente metade dos idosos brasileiros é chefe de domicílio e contribui com mais da metade da renda familiar. No nordeste o percentual é de 67% dos lares.

Do ponto de vista de saúde, as quedas são a terceira a causa de mortalidade. Para o idoso brasileiro, as despesas com saúde equivalem a 15% das despesas (a média das famílias é 10%). Além disso 75% dos idosos brasileiros apresentam problemas de atrofia óssea. O uso de preservativo entre os idosos é um tabu. Na primeira década dos anos 2000 triplicou o número de casos de AIDS entre mulheres com mais de 50 anos. Em 1996 havia 3,7 casos por 100mil habitantes, em 2006 o índice já era de 11,6 casos.

O avanço da idade quase sempre dificulta a manutenção das relações pessoais. Nesse aspecto, o Estado, a empresa e a família devem desempenhar uma função integradora, seja pela promoção de eventos, seja pela criação de espaços públicos de convivência ou outras facilidades que quebrem a tendência ao isolamento.

Moradia para longevos

Durante as pesquisas sobre as opções de moradias para os longevos, nota-se que o foco maior está relacionado ao objetivo de se agrupar, apreciar boas amizades, construir vínculos duradouros, estimulando a interação social, a atividade esportiva e, consequentemente, a intelectual. Também para desenvolver a autoestima e a satisfação com o estilo de vida. A existência de condomínios direcionados para idosos remete a ideia de segurança, lazer e cuidado. Portanto, o ambiente físico, onde o idoso reside, é um dos fatores determinantes para sua independência ou não. Se a residência dos seniores não for funcional, ou seja, mal localizada ou não adaptada, estarão mais propensos a se isolarem e desenvolverem doenças relacionadas ao corpo físico e ao psíquico.

Contatos com arquitetos sobre as moradias especializadas para o público Senior:

  • Conjunto Residencial Senior Parque do Ibirapuera, Mariana
  • Co-housing dos Professores da Unicamp, Bento
  • Informações sobre construção de Co-housing, arquiteta Lilian Luboschinski
  • Ouvidoria da USP, Maria Cristina Olaio Villela
  • Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, em busca de informações sobre pisos antiderrapantes, barras de segurança, vasos sanitários adaptados, móveis fixos, rampas entre outras adaptações para o público idoso.

Economia da Longevidade

No livro Viver Muito: outras ideias sobre envelhecer bem no século XXI, o autor Jorge Félix trata de temas variados como: culto à juventude, a indústria da beleza, o Viagra, as famílias menores, o preconceito, a financeirização econômica, a revolução tecnológica, o avanço da medicina e o aquecimento global. O livro é cheio de dados estatísticos comparando Brasil e outros países para o enfrentamento do envelhecimento da população. Não se trata de um livro para idosos, ou somente para quem vai cuidar ou já cuida dessa população. Trata-se de um material riquíssimo que pode ser estudado por qualquer pessoa, em qualquer momento da vida.

Também consideramos as linhas de pesquisa voltadas para economia social, visando entender o paradigma da velhice na pobreza, onde nos deparamos com obras de:

Ricardo Abramovay que alerta para o fato de que por mais que se avance a inovação e por mais generosos que sejam os programas de transferência de renda aos mais pobres, se não houver limites na desigualdade de renda, de acesso a bens e serviços e, sobretudo, limites na desigualdade que marca o uso dos recursos materiais, da energia e da ocupação do espaço carbono, se esses limites não atingirem os segmentos de maior renda e poder, nada mudará efetivamente em tempo hábil na sociedade do século XXI.

Ignacy Sachs também chama atenção para a responsabilidade do Estado frente ao desafio da economia social, onde esta “não rejeita o lucro...é preciso rentabilizar certas produções e investir na pesquisa, na renovação das ferramentas, na formação. Ela não se baseia, porém, na apropriação individual do lucro. O aprofundamento nesse estudo reforça o papel do Estado, enquanto esse for enxuto, desburocratizado, limpo, porém ativo em termos de planejamento descentralizado e não autoritário, e, sobretudo, das diferentes formas de cooperação que a sociedade civil pode e deve experimentar”.

Em ambos os casos, a utilidade principal para o PR foi constatar que a longevidade não se trata de uma questão somente para quem atinge 60 anos, mas sim, é uma questão viva, presente e de cada pessoa, física ou jurídica, enquanto existente em qualquer sociedade. Envelhecer é determinante, e humano.

Amartya Sen e de Mahbubel Haq, dois notáveis economistas, criadores do IDH, também defendem que só há desenvolvimento quando os benefícios do crescimento servem à ampliação das capacidades humanas, entendidas como o conjunto das "quatro coisas" que as pessoas podem ser, ou fazer na vida: ter uma vida longa e saudável, ser instruído, ter acesso aos recursos necessários a um nível de vida digno e ser capaz de participar da vida da comunidade.

Principais aprendizados e insights

No início, o assunto escolhido havia sido “empreendedorismo da terceira idade”. O grupo focou inicialmente nessa questão econômica e mercadológica. As discussões iniciais recaíam sobre a decisão de tratar o “empreendedorismo na terceira idade”, sendo os idosos os protagonistas e empreendedores ou o “empreendedorismo para a terceira idade, visando um nicho de mercado e um público alvo crescente e ávido para produtos voltados aos longevos. Por algum tempo a busca focou nesses dados como tamanho do mercado potencial, taxa de sucesso de empreendimentos liderados por pessoas 60+, produtos adaptados e plataformas voltadas ao empreendedorismo dos maduros.

Em vista dos números alarmantes, o aumento da expectativa de vida e redução da natalidade, percebemos a emergência de um cenário bem difícil e completamente inevitável. A sociedade não parece se dar conta desta imensidão. Percebemos que foco apenas no empreendedorismo seria muito pequeno. Entendendo que para lidar com todos esses anos a mais que estamos ganhando, teremos que repensar a economia, as políticas públicas, o preconceito e isso envolve todos os atores da sociedade, incluindo o papel do indivíduo como agente principal. Percebemos uma necessidade urgente surge, de como fazer as pessoas perceberem o inevitável e passarem a ser protagonistas de sua história. Entendendo que ganhando muito ou pouco uma fração para o envelhecer deverá ser guardada. Uma mente ativa, aprendendo a fazer coisas diferentes, não apenas ajuda a esticar as possibilidades do trabalho, mas também para não se isolar das coisas e das pessoas pela falta de acessibilidade digital. Além de cuidar de corpo da maneira que for possível, mas aprendendo acima de tudo ler, aprender o que faz bem e investir nisso, de olho na velhice.

Em suma, deixamos de focar no empreendedorismo quando nos demos conta do tamanho do desafio. Ou seja, quando vimos que o longevo não precisava só de trabalho mas também de saúde, moradia digna e adaptada, de vida social e também de preparo e auxílio psicológico. Essa suspeita foi confirmada definitivamente quando o paradigma do sujeito foi superado e o grupo percebeu que o sujeito de nossa ação não deveria ser o outro ( o longevo no caso) mas nós mesmos, que seríamos longevos em breve e que a sociedade não estava sendo construída (por nós mesmos) para que esse longevo tivesse uma vida de qualidade e sem preconceitos.

Em um dos encontros em aula realizamos a atividade do iceberg. Nessa dinâmica levantamos eventos, padrões, estrutura e modelos mentais relacionados ao viver muito, aos longevos a ao envelhecimento. O exercício trouxe diversas constatações que nos auxiliaram a ter uma visão mais ampla do tema, podendo organizar a sinergias entre os membros do grupo. Passamos a perceber muitas similaridades entre os colegas e entender a dimensão do assunto.

Os eventos identificados estavam relacionados à pessoas que tinham medo da redução do padrão de vida após a aposentadoria, casos de quedas, acidentes e internações, interdição de idosos por não controlarem seus gastos, aplicação de golpes em velhos pela sua vulnerabilidade, esgotamento físico e emocional por ter que cuidar de parentes idosos, depressão por isolamento e dependência, falta de produtos de beleza para o público 60+, entre outros. Também levantamos eventos positivos como novos recomeços de idosos voltando a estudar, relacionando-se e casando novamente depois de velhos.

Os padrões identificados concentravam-se em baixa taxa de natalidade, população global estar vivendo mais, mais problemas de saúde atrelados ao envelhecimento, violência e maus tratos sofridos, solidão na maturidade e abandono, medo de se tornar inútil, ausência da família e perda de independência e autonomia. Seniores são alvos fáceis para assaltantes e golpistas, estruturas não são adaptadas para os maduros, padrão de vida cai, pois aposentadoria é menor que o salário, dificuldade de recolocação no mercado após os 50 anos, entre outros.

As estruturas levantadas foram o mal uso dos impostos, Brasil não ter política pública adequada, sistema de mobilidade mal planejado, leis trabalhistas, sistema previdenciário, brecha na lei para tornar o idoso incapaz, ausência de estrutura legal. Também o preconceito com o idoso, o sistema de remuneração por produtividade e que grande parte dos aposentados mantém/sustenta a família.

Os modelos mentais ou mindsets identificados foram bastante duros como “Burro velho não aprende truque novo”, para ter sentido na vida tenho que produzir, eles têm que me bancar já que estou cuidando deles, o Google sabe tudo, a vida acaba aos 60, velho é inútil, velho fede, velho atrapalha.

Posteriormente na microimersão, realizamos a atividade novamente, com uma perspectiva mais pessoal. O levantamento de eventos, padrões, estruturas e modelos mentais estava relacionado aos pontos que nos tocavam enquanto participantes de uma realidade com mais longevos e velhos presentes, na sociedade e nas nossas relações e com nós mesmos.

Eventos que surgiram foram familiares darem entrada no hospital com um problema e sairem com outro, mudanças na vida de parentes após aposentadoria como mudança de país, queda de padrão de vida ou surgimento de depressão, depressão de conhecidos por não se recolocar no mercado na faixa dos 60+, parente não saber como lidar com o envelhecimento e resistir. Também o surgimento de doenças da longevidade, perda de mobilidade, dependência dos vizinhos, falta de autonomia e dependência, o medo e a satisfação gerados pelo cuidado com os familiares idosos.

Os padrões se concentraram na constatação de que não acumulamos riquezas, não fazemos exercícios físicos, não temos paciência no trânsito com motoristas idosos, negação de parente com o envelhecimento, temos todos amigos da mesma idade que a nossa, negação da própria velhice. Também existe a preocupação com o futuro e uma organização do e para o futuro, alguns guardam dinheiro para a própria longevidade, se preocupam com os idosos que o rodeiam, preparo para cuidar dos próprios pais.

No caso de estrutura, identificamos que não procuramos saber dos projetos dos candidatos relacionados ao tema. Levamos parentes para passear, reformamos a casa dos pais para evitar quedas, apoiamos os pais e avós emocionalmente, como nossos ouvidos, ombros e braços para ajudar no caminhar. Economizamos, poupamos, fazemos previdência privada e reservas para a velhice, mas também auxiliamos os parentes idosos financeiramente. Cultivamos amigos para servirem como a nossa família na velhice.

Os modelos mentais presentes nos membros do grupo se resumem à crença de que há sabedoria nos idosos, que o idoso precisa de agenda. Queremos deixar um legado que acrescente. Falta vontade política. Somos os apoios familiares dos longevos das nossas famílias, atuamos como voluntários nesse tema. Existe um mercado que pode ser um caminho para o tema evoluir e que para o pobre, ser velho é mais cruel. Os “60” são os novos “40”, a velhice é inevitável e é um privilégio, não dá pra fazer tudo como antes, a velhice é cara, ser “velho” é uma opção, estamos todos “fadados” às velhice, todos chegaremos lá.

Presencing: retrair e refletir

Sentimentos, sensações e insights individuais: As descobertas tocaram de maneira diferente cada membro do grupo. A seguir, um depoimento individual acerca dos sentimentos, sensações e insight de cada um.

Fabiano: O processo de escuta das minhas observações e contextualizações não estava tangível, em princípio. A inquietação e a busca era intensa. Porém, o importante era recuar e refletir sobre o foco da pesquisa e sobre o que estava relacionado com o escopo do trabalho. O importante não era, somente ou totalmente, a longevidade em si. Certamente, o antes, o presente e o futuro que emerge, é importante. O “como” depende da condição interna do interventor, em razão de perceber que faço parte da história do que está por vir, ou seja, o futuro. Assim, as relações apreciam maior sinergia e qualidade.

Sabine: Me toca o fato do tema ser emergente e urgente. É um assunto extremamente relevante e inevitável. A frase “todos vamos envelhecer” soa como uma maldição, porém o complemento que ouvimos “porque a alternativa é morrer jovem” mostra que essa constatação é a que ocorrerá “na melhor das hipóteses”. Nas pesquisas surgiu também uma afirmação de que a responsabilidade pela velhice é da sociedade ou do Estado e também individual. Recai um peso grande sobre nossas escolhas e o planejamento para o futuro. Nesse momento fica evidente o questionamento “o que eu estou fazendo para me preparar para a velhice?” Toda mudança de comportamento e atitudes a qualquer momento da vida é válida, porém o quanto antes as fizermos, melhor. Particularmente, por ser a mais jovem do grupo, fica a sensação de que tenho a obrigação de tomar essas atitudes por estar mais no “quanto antes”, em relação aos colegas.

Ivani : Quando escolhi para colaborar, me aprofundar no tema, dentro de mim naquele momento era apenas estudar algo interessante, emergente, necessário de ser cuidado. Com a descida do U fui me envolvendo cada vez mais no assunto e percebendo que não havia feito uma escolha aleatória, eu havia escolhido um tema relacionado ao meu momento de vida. Completei 50 anos esse ano e comecei a sentir o peso, mesmo que ainda, de leve as consequências de bons anos vividos, a saúde, o emocional, a insegurança com relação ao futuro tudo isso emergindo dentro de mim. O PR me abriu novas maneiras de ver todo esse processo do envelhecimento e me mostrou que eu poderia através do Projeto alertar, ajudar pessoas que como eu, podem escolher viver melhor a vida hoje e se preparar para um envelhecimento saudável.

Mirela: tomei contato com o tema pela primeira vez em 2012, lendo um livro de Jorge Felix (economista) e minha primeira reação foi a de choque, pois a urgência da questão demanda que o assunto de aceitar a velhice como parte da vida, já deveria ser discutido desde sempre nas escolas, nas famílias por toda a sociedade. O PR me fez ver o tema por outras perspectivas, onde é mais transformador aceitar que é humano e natural envelhecer. Conviver com isso sem segregar grupos ou definir estereótipos é um caminho que poderá gerar a mudança na sociedade.

Emiliano: o ponto mais forte para mim é o preconceito com o velho e para o velho. Não só é tratado como um tabu por toda a sociedade em todas as camadas sociais mas também é muito presente em mim esse preconceito e isso eu não havia percebido até começar o PR. Foi doloroso mas ao mesmo tempo libertador esse processo porque me vi como um possível agente de mudança deste preconceito através exatamente do PR.

Desenvolvimento do produto final: agir em um instante

Durante a imersão, a repetição do exercício do iceberg partindo de eventos reais vividos e identificando padrões pessoais que reforçam os eventos destacados, positivos ou não foi determinante para o encaminhamento do projeto. A experiência foi difícil para o grupo, pois foi preciso identificar essas conexões na primeira pessoa que até então eram sobre o outro, um comportamento da sociedade de maneira geral. Assim, nos obrigando a refletir quanto que nossos padrões colaboram e reforçam o difícil cenário estudado, fomos coletivamente construindo e reforçando a ideia de um padrão comum, a negação do envelhecer.

A dinâmica seguinte consistiu na encenação de forma simples do tema do viver muito. Com isso, o grupo conseguiu sensibilizar alguns colegas e professores. O tema além de latente é de fácil aproximação. Reforçando o que já emergia dentro do próprio grupo precisávamos estar unidos e muito próximos para entrar em contato com o tema que assusta e parece inevitável, em face dos problemas associados. Uma atmosfera cheia de humanidade, tudo que sentimos no kickoff com nossos convidados. Presença de medo, mas uma explosão de contato consigo mesmo, falar do que sente, os sentimentos estão à flor da pele. Nesta fase da vida encontram espaço para serem percebidos, viver o hoje, o poder escolher, uma fase incrível, mas que para gozar dessa abundância que o envelhecimento traz, precisa de ações na primeira pessoa.

O que sentimos com a dinâmica foi, que mais uma vez, as pessoas foram tocadas pela preocupação com o outro, terceira pessoa. O problema não é comigo e sim como lido com os velhinhos ao meu redor. E aos poucos cada um do grupo foi se dando conta de uma nova dimensão do problema: “a terceirização do envelhecer“. O que nos acomete é a negação coletiva do envelhecer. Percebemos que poderíamos gerar um impacto positivo ao chamar atenção de pessoas de todas as idades para o fato se ser uma questão intergeracional, que o envelhecer é inevitável e que acima de tudo é um privilégio. Podemos influenciar a todos positivamente e daí a inspiração do filme “ Que velho você já é?“ Nos demos conta de que era necessário minimizar a escassez e a maldição prometida para velhice tão presente em nossas pesquisas, acreditando na participação do indivíduo como protagonista, mudando o hoje. Tomando atitudes hoje para se preparar para o amanhã, porque, na melhor das hipóteses, iremos todos envelhecer.

Processo de prototipagem

A partir de todos os dados levantados na pesquisas feitas, entrevistas realizadas, participação de eventos e exercícios em sala de aula nos reunimos em torno da missão de concretizar um vídeo curto que sensibilizasse as pessoas para a responsabilidade individual de zelar pela própria velhice. No livro Viver Muito, Jorge Félix pontua essas duas responsabilidades, a da sociedade (na figura do Estado) e a individual. Optamos por focar no estímulo à responsabilidade de cada um frente sua própria senioridade, por acreditar ser mais certeira. Todo o levantamento de dados e o roteiro foi desenvolvido pelo grupo, incluindo os infográficos. O grupo contou com o apoio técnico da empresa Alcateia Filmes do produtor Ricardo Guidara para execução do vídeo.

Produto Final

Além do vídeo lançado em 15/06/19, em rede com com a 5070, Lab60+ e Maturijobs lançamos nas redes sociais uma série de posts as marcações #velhofobia e #velhofilia, para chamar a atenção sobre as questões de preconceito e segregação desse público. O vídeo também disponível no Facebook na página do Longeva

O filme como produto final de 4 meses de imersão foi elogiado por nossos convidados, tendo tocado em especial os mais jovens. Esse fato muito nos tocou também pelo nosso propósito intergeracional . Entre algumas sugestões destacamos o incentivo à divulgação do filme para organizações que convivem com longevos e jovens no mesmo ambiente, de forma a sensibilizar à urgência e potência da intergeracionalidade. Entre os especialistas a sugestão maior foi que poderíamos perenizar o produto, produzindo novos vídeos curtos com diálogos reais entre gerações. Eles acreditam que poderíamos continuar impactando muito mais pessoas e que eles em suas plataformas gostariam de ter esse produto para explorar o tema. Assim encerramos essa parte da jornada, tocados como nossa contribuição ao tema e com a sensação que podemos fazer ainda muito mais

Agradecemos a presença e os feedback dos convidados na nossa apresentação final no dia 15 de junho de 2019.

Agradecemos a equipe da disciplina de formação Integrada I, Ana Carolina Aguiar, Paulo Durval Branco e Vicente Góes pelas orientações, apoio e inspiração. Agradecemos também todos os entrevistados que doaram parte de seu tempo e conhecimento para construção desse trabalho. Agradecemos os presentes no kick-off e na apresentação final. Agradecemos nossos colegas de turma pelo companheirismo. Agradecemos nossas famílias e os Longevos pertencentes à elas. Cuidemos de nossa velhice, já!

Referências:

  • FELIX, Jorge. Viver Muito: Outras ideias sobre envelhecer bem no século XXI - E como isso afeta a Economia e o seu futuro. São Paulo: Ed. Leya Brasil, 2010.
  • SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. Ed. Companhia das Letras.
  • VEIGA, José Eli da. Para entender o desenvolvimento sustentável. Ed. 34.
  • ABRAMOVAY, R. Muito além da economia verde – São Paulo: Ed. Abril, 2012.
  • SACHS, I. A terceira margem. Em busca do Ecodesenvolvimento. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
  • www.ibge.gov.br
  • www.tsunami60mais.com.br/
  • www.projetodraft.com/
  • www.portaldoenvelhecimento.com.br
  • http://nacoesunidas.org/acao/pessoas-idosas/
  • Filme: Antes que eu me esqueça
  • Filme: E se vivêssemos todos juntos?
  • Agência FAPESP - Ciência Aberta | Envelhecimento
  • A Invenção de uma Bela Velhice | Mirian Goldenberg | TEDxSaoPaulo
  • Roda Viva | Alexandre Kalache | 14/01/2019

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