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Formação Integrada para Sustentabilidade MESTRADO PROFISSIONAL EM GESTÃO PARA COMPETITIVIDADE FGV EAESP . LINHA DE SUSTENTABILIDADE

MISSÃO . criar condições para fazer emergir um sujeito consciente e engajado consigo mesmo, na relação com os outros e com o todo, com sensibilidade, inteligência prática e fundamentação teórica em sustentabilidade.

Como a Formação Integrada funciona na prática?

Compreendemos que aprender é uma capacidade intrínseca e constantemente presente em nossa vida. Estamos sempre, como aprendentes, nos desenvolvendo, em constante processo de produção de nós mesmos num processo que se dá de maneira integrada: pelo o que nos acontece de fora para dentro, e pelo que percebemos, sentimos e compreendemos de dentro para fora. Desta forma, buscamos combinar conteúdos e atividades que promovam:

  • Espaços para o processo pessoal de produção de sentidos de cada sujeito (autoformação), para troca e aprendizagem pelas relações do grupo (heteroformação) e para aprendizagem pelo contato com o ambiente e o conjunto de relações complexas que nele acontecem (ecoformação).
  • Condições para a vivência e a expressão do conhecimento por meio não apenas de conceitos e teorias (razão formal), mas também por meio de projetos aplicados, viagens de campo e outras experiências práticas (razão experiencial) e atividades de cunho corporal, artístico, reflexivo e contemplativo (razão sensível).

Nosso processo estrutura-se ao redor de dois eixos:

Projeto de Si Mesmo: atividades, vivências e conceitos que buscam provocar nos alunos uma percepção ampliada de si mesmos, dos outros e da realidade, ativando, expandindo e contribuindo com a apropriação do seu potencial sensível/perceptivo, reflexivo e criativo. Com isso, esperamos que os(as) alunos(as) possam:

  • Desenvolver linguagem para perceber, abordar e atuar numa realidade complexa (multirreferencial e muldimensional);
  • Integrar a dimensão subjetiva e sensível como fonte de conhecimento;
  • Incorporar o diálogo como atitude de abordagem ética;
  • Reconhecer a complexidade da realidade e identificar seus diferentes níveis e perspectivas/paradigmas.

Projeto Referência: projetos voltados a desafios reais, onde conhecimentos de gestão possam ser ampliados e aplicados sob a ótica da sustentabilidade. Os semestres I e II terão um Projeto Referência diferente, o qual será proposto e selecionado pelo próprio grupo. De maneira geral, o tema do PR deve estar relacionado à dimensão trabalhada no semestre e oferecer uma entrega prática e aplicável. Por seu caráter altamente prático e experiencial, o PR oferece uma oportunidade singular para o grupo entrar em contato direto com situações complexas, que envolvem diversas realidades, atores e variáveis, e onde não há respostas óbvias e prontas. Ao final do semestre, a entrega do projeto é apreciada por convidados externos e avaliada pelo próprio grupo e pelos professores da disciplina, conforme critérios de avaliação detalhados abaixo. Por meio do PR, esperamos que os(as) alunos(as) possam:

  • Ampliar sua percepção sobre a realidade e suas relações, por meio do entendimento e da busca por soluções práticas a desafios reais da sustentabilidade;
  • Conectar os conceitos e ferramentas que estão na fronteira do conhecimento em Sustentabilidade com suas práticas de gestão;
  • Integrar conhecimentos dos diferentes temas da sustentabilidade e da gestão, com visão crítica e sistêmica.
  • Atuar como agentes de mudança e transformação rumo ao desenvolvimento sustentável.

SAIBA MAIS ACESSANDO NOSSOS VÍDEOS

SOBRE ESSE RELATÓRIO

Esse relatório tem como objetivo sistematizar os conhecimentos gerados pelos Projetos Referência dos grupos que passam pela Formação Integrada para Sustentabilidade no contexto do Mestrado Profissional em Gestão para Competitividade.

  • A cada turma do Mestrado, desenvolvemos de quarto a seis projetos por semestre.
  • Cada projeto é composto por uma equipe de alunos(as) que define seu próprio desafio, identidade e processo de trabalho (stakeholders chave a serem procurados, conteúdos a serem investigados, formato da entrega final, recursos necessários etc).
  • O percurso para este processo de trabalho é baseado na Teoria U: desenvolvida por Otto Scharmer e outros pesquisadores da área de Aprendizagem e Mudança Organizacional do MIT, “a Teoria U propõe que a qualidade dos resultados que obtemos em qualquer sistema social é consequência da qualidade de percepção e consciência a partir da qual operamos nestes sistemas.” (Presencing Institute) Trata-se de um framework; um método para liderar mudanças profundas; e uma maneira de ser – conectando aos aspectos mais autênticos e elevados do indivíduo.” Como processo, a Teoria U propõe três macro etapas: Observar, observar, observar ("descida do U"): investigar e compreender um sistema de dentro dele, interagir com os stakeholders chave, abrir-se à escuta, sentir; Retrair e refletir ("meio do U"): silenciar para conectar-se consigo mesmo e com sua fonte sensível de percepção e criatividade (Presencing); e Agir em um instante ("subida do U"): deixar emergir resultados inovadores colocando em prática as soluções possíveis - ainda que em forma de protótipos - e aprendendo com elas.

A cada semestre, desenvolvemos projetos e estudos, derivados de desafios reais e complexos, essenciais à formação acadêmica e prática em temas de sustentabilidade. São trabalhos acadêmicos, porém de natureza aplicada.

Neste semestre, optamos por investigar as relações entre os atores envolvidos com a questão dos resíduos sólidos e nas dinâmicas de logística reversa de embalagens, que ainda são um grande gargalo para aumentar a reciclagem no Brasil.

Somos o grupo CIRANDA.

Ciranda

Carlos Carraro, Carolina Falluh, Deborah Camara, Monique Cardoso, e Sabine Milioni

Enunciado

No momento de escolher nossos projetos referência do segundo semestre, surgiu, à princípio a ideia de abordar a logística reversa de uma grande marca de calçados com grande rede de franquias. A ideia inicial seria justamente fazer um projeto junto à empresa atuando nas franquias para fazer a logística reversa das embalagens pós indústria e eventualmente também poderíamos estender para os resíduos pós consumo. Algumas informações chamavam a atenção:

Taxa de reciclagem no Brasil: 3%

Cerca de 600 mil catadoras e catadores de resíduos recicláveis no Brasil, sendo mais de 25 mil em São Paulo

Os catadores aumentam a eficiência na coleta seletiva por sua capilaridade. Estima-se que eles são responsáveis por cerca de 90% de todo o material que chega a ser reciclado no Brasil (Ipea, 2010a).

Nesse contexto, conforme afirmou Benvindo (2010, p. 71), “não há reciclagem sem catador”, independentemente de sua forma de organização.

Investigação e escuta: observar, observar, observar

Iniciamos o processo de investigação no evento de lançamento, o kick-off, em 27 de setembro, conversando com alguns convidados, todos profundos conhecedores de temas, buscando entender melhor o contexto em que atuam ou que estudam.

Contamos com a presença, conhecimento, experiências e apoio de André Pereira de Carvalho (professor da FGV), Cristiano Cardoso da cooperativa Recifavela, e de Leandro, um franqueado da Havaianas.

Da conversa surgiram insights valiosos sobre os drivers dos esforços de logística reversa, sobre membros menos visíveis (ou formais) da cadeia da reciclagem como os morcegões e seus arranjos informais com ferros velhos, e dos incentivos e valor do material reciclado - frequentemente mais custoso do que o material virgem.

Ainda, decididos a propor uma contribuição/intervenção nas relações entre franqueador e franqueado, nos aprofundamos em uma próxima etapa investigativa. Conduzimos ampla pesquisa de literatura sobre resíduos sólidos, aprofundamos o conhecimento sobre a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) e outras leis, revisamos os acordos setoriais bem como relatórios de associações como Abrelpe, ABRE e Abihpec; pesquisamos relatórios do IPEA e de sustentabilidade de grandes franqueadores. Além disto realizamos entrevista em profundidade e conversas com diversos takeholder.

● Diretor de sustentabilidade na indústria de papel e celulose

● Especialista em economia circular da indústria do plástico

● Representante da área de resíduos sólidos e logística reversa de órgão ambiental de São Paulo

● Especialista em sustentabilidade de grande empresa de gestão de resíduos

● Analista de Sustentabilidade de empresa do varejo têxtil

● Advogado ambiental

● Grande gerador de resíduos (indústria e comércio de produtos de higiene pessoal líder de mer-cado)

● Varejista franqueado de grande marca

● Órgão ambiental de São Paulo

● Advogado especialista na Política Nacional de Resíduos Sólidos

● Especialista em cadeia de suprimentos - professor

● Especialista em sustentabilidade na estratégia empresarial - professor

● Gerenciador de resíduos sólidos em grande volume

● Cooperativas de grande porte da cidade de São Paulo

● Representante de associação de bairro São paulo

● Síndicos e porteiros de diferentes bairros de São Paulo

● Catadores de recicláveis das ruas de São Paulo

Apesar dos melhores esforços, repetidos ao longo de semanas, não obtivemos atenção alguma da empresa que tínhamos eleito como parceira e alvo de nossa intervenção. Iniciamos, então, uma nova trajetória - ouvindo as falas dos nossos entrevistados, buscando entender o contexto que descreviam e as dificuldades para identificar nova demanda ou espaço para uma contribuição.

Exploramos a possibilidade de atuar junto a outra franqueadora ou contribuir de alguma forma dentro dos acordos setoriais; pensamos em atuar juntos às cooperativas de catadores, também. A cada ideia ou direção nova, íamos a fundo na pesquisa e nos contatos. Para nossa supresa, de forma recorrente nos deparamos com situações onde aqueles problemas que tínhamos identificado como questões a serem abordadas já eram tidos como solucionados ou endereçados, entre outros obstáculos.

Chegamos em um momento bastante complexo em que acreditamos que nosso trabalho estava sem rumo e em vão. Entendemos que o tema logística reversa de resíduos era extremamente difícil de trabalhar quando havia pouca informação, muitas divergências e muitos atores fora da legalidade. Além disso, poder público, privado e sociedade não se conversam e muitas vezes não tem interesse em resolver o problema. Após mudarmos de estratégia, saindo do foco de realizarmos um projeto com a logística reversa de embalagens de franquias de calçados, nossa próxima ideia seria um projeto relacionado a articulação entre uma relação entre cooperativas e bairros. Desse acordo, as cooperativas coletariam os seus resíduos secos de bairros ou condomínios (prédios residenciais), mas vimos que na informalidade isso não era um problema e esse projeto poderia trazer novos e mais sérios dilemas, interferindo arranjos já estabelecidos. Então entendemos que, mais uma vez, precisávamos de uma nova ideia.

Havíamos pesquisado muita legislação, decretos e em um dos nossos encontros de PR percebemos que havia uma atuação viável em um dos Projetos de Lei (PL) que pesquisamos. Foi assim que tivemos a ideia de fazer uma simulação de uma audiência pública, na qual poderíamos analisar melhor o PL escolhido, melhorar o texto, entender as visões dos atores envolvidos e ainda contribuir para a sua. Foi uma experiência enriquecedora onde pudemos perceber problemas que não havíamos enxergado, melhoras no texto e contribuir com novas formas de se conversar em uma audiência pública.

REFERENCIAL TEÓRICO

Das leituras e conversas levantamos informações sobre legislação, dados sobre reciclagem e mais conhecimento sobre um elo, considerado prioritário na reciclagem que são os catadores de material reciclável.

A PNRS, sua função social e o catador como elo da cadeia de reciclagem:

A gestão e disposição inadequada dos resíduos sólidos tem impactos socioambientais graves, entre eles a degradação do solo, comprometimento de mananciais e a intensificação de enchentes (JACOBI E BESEN, p. 135, 2011). É evidente que a adoção de padrões de produção e consumo sustentável e o gerenciamento adequado dos resíduos sólidos podem reduzir significativamente os impactos nocivos ao ambiente e à saúde. Por isto, a gestão de resíduos sólidos tem se mostrado questão prioritária no mundo e no Brasil.

No Brasil, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), Lei Federal 12.305/2010, dispõe sobre os princípios, objetivos e instrumentos para alcançar o correto gerenciamento de resíduos.

Institui a responsabilidade compartilhada dos geradores de resíduos: dos fabricantes, importadores, distribuidores, comerciantes, o cidadão e titulares de serviços de manejo dos resíduos sólidos urbanos na logística reversa dos resíduos e embalagens pós-consumo e pós-consumo. (Ministério do Meio Ambiente, MMA, Política Nacional de Resíduos Sólidos, disponível em: https://www.mma.gov.br/cidades-sustentaveis/residuos-solidos/politica-nacional-de-residuos-solidos, acesso em 9.12.2019)

A PNRS também cria metas importantes que contribuem para a eliminação dos lixões e institui instru-mentos de planejamento nos níveis nacional, estadual, microrregional, intermunicipal e metropolitano e municipal; além de impor que os particulares elaborem seus Planos de Gerenciamento de Resíduos Sólidos.

Importante observar que diversos de seus artigos abordam – a partir da determinação de priorização – a função dos catadores de materiais recicláveis incentivando o fortalecimento da atuação de associações ou cooperativas, consideradas fundamentais na gestão dos resíduos sólidos. Este é, ao mesmo tempo, ponto forte pois reconhece a função/profissão do catador; e desafio pois requer a reeducação da população para a coleta seletiva, aporte de recursos e a profissionalização do catador.

Acerca dos catadores, segundo estimativas do IPEA (2013) que usam como base dados o último Censo Demográfico do IBGE, no Brasil 387.910 pessoas declararam exercer como atividade principal a coleta e comercialização de materiais recicláveis. Estimativas anteriores (IPEA, 2012) realizadas a partir da Pesquisa Nacional de Saneamento Básico de 2008, mostravam que aproximadamente 30.000 catadores formavam parte de 1.175 cooperativas e associações no Brasil o que significa que menos de 8% do total de catadores trabalham de forma associada.

O trabalho realizado pelos catadores atende à demanda da indústria recicladora de papel, papelão, vidro, metais e plástico, por materiais descartados para sua reincorporação ao ciclo produtivo como matéria prima.

.A atividade dos catadores é realizada seguindo diferentes modalidades: mediante coleta e classificação dos materiais descartados pós-consumo nas ruas e lixões ou mediante coleta dos materiais separados na fonte geradora, ou seja, residências, empresas e instituições que entregam o material às cooperativas ou a programas de coleta seletiva. A catação de materiais recicláveis é uma atividade desprotegida, exercida em grande medida em condições de precariedade e insalubridade extremas: riscos sanitários, ergonômicos, acidentes, violência física e moral, dentre outros. Também existe um desgaste psicológico pelo forte estigma que a figura do catador continua carregando.

Segunda artigo da Revista Tecnologia e Sociedade (v. 11, n. 22, 2015), o Estado desenvolveu políticas públicas de apoio aos catadores, com investimentos significativos em capacitação e estruturação de cooperativas. Dados do IPEA (2012) indicam que entre 2007 e 2010 foram introduzidos mais de R$ 280 milhões no segmento, mediante recursos provenientes de diferentes órgãos e instituições do Governo Federal. No entanto, mesmo com estímulos, as cooperativas continuam enfrentando dificuldades e desafios, e os catadores permanecem na sua grande maioria obtendo renda insuficiente.

Percebemos que a população de um modo geral, especialmente em centros urbanos, tem demonstrado mais preocupação com a destinação de seu lixo, porque reconhece a proximidade dos efeitos de uma má gestão de resíduos e tem acesso a informações. Apesar disto apenas 22 milhões de brasileiro são contemplados por programas municipais de coleta seletiva. Isto representa apenas 18% da população e constitui barreira à efetividade da reciclagem no país.

E concluímos, que existe espaço para a criação de políticas públicas que fortaleçam os elos da cadeia, econômica e socialmente, enquanto fomentam a formação/capacitação profissional de catadores e outros trabalhadores da cadeia de resíduos sólidos, bem como encorajam a educação e conexão com a questão do resíduo pela população, tanto a sociedade civil como empresarial, com relação ao potencial desperdiçado representado pelo material não coletado, nem reciclado.

O PLS 90/2018

A proposta de lei (PL), da Senadora Rose de Freitas do ES, altera o artigo 21o da Lei nº 12.305, de 2 de agosto de 2010 - PNRS, postulando a inclusão no conteúdo mínimo do plano de gerenciamento de resíduos sólidos das empresa geradoras de resíduos, a destinação de materiais recicláveis descartados a cooperativas de catadores ou organizações da sociedade civil que tenham por finalidade o aproveitamento econômico desses materiais.

O acompanhamento da tramitação desta PL revelou sua inclusão, sucessivamente, na pauta da comissão do Senado, e novamente, em final de novembro. Dado a informação de que o texto é terminativo e que votado com quórum mínimo na Comissão de Meio Ambiente do Senado, vai direto para o Congresso, optamos por focar nosso exercício nesta PL.

Principais aprendizados e insights

De início nos deparamos com o fato de cidade de São Paulo, apesar de ser bem atendida por uma estrutura para reciclagem, ter um volume de resíduos destinados à reciclagem muito baixo. No campo das relações, constatamos que falta de diálogo transversal entre os grupos de atores e como parte disso que existe baixo acesso das cooperativas às empresas geradores de grandes resíduos de uma forma direta.

Uma descoberta que nos inquietou também foi que diversos geradores de resíduos residenciais não se engajam com o tema de reciclagem e não se esforçam para encontrarem soluções conjuntam e que beneficiem a todos. Por outro lado, acontecem arranjos informais entre catadores individuais na coleta de reciclados, que trazem um avanço no tema, de maneira desordenada.

Durante as consultas, o grupo constatou que muitas vezes a força da lei não é suficiente para concretizar a mudança. Ouvimos de algumas fontes que a PNRS “não pegou” e que é falha. Por outro lado, especialistas em direito defendem que a política tem qualidade e o arcabouço jurídico é bastante completo, porém são necessários arranjos adicionais para que ela seja aplicada em sua totalidade. Isso se dá, pois a política é bastante ampla pelo fato de ter vigência federal, e por isso conta com instrumentos para sua aplicação. Os acordos setoriais, que detalham os combinados que cada setor determinou para o atendimento à PNRS, estão em diferentes níveis de maturidade. Há setores extremamente avançados e outros ainda em fase inicial. Ainda assim, dentro de acordos de setores maduros há uma diferença entre as empresas comprometidas e que assinam esse acordo e outras que não participam dele. Há um desequilíbrio aí, pois aqueles que são participantes do acordo estão mais suscetíveis à fiscalização e cobrança por parte dos entes públicos.

Além disso, também descobrimos que há lentidão no avanço das legislações para o tema, que poderiam dar mais especificidade ou qualidade à PNRS e alta quantidade de PLs sem votação por adiamentos constantes. Complementar à isso, não existe legislação nacional que beneficie as cooperativas, mas sim a determinação que se inclui catadores no processo da gestão de resíduos.

Como descoberta do grupo, também levantamos que um grande gerador não tem incentivo para reduzir matéria prima de embalagem secundária, pois pode vender como resíduo. Dessa forma, gera receita com os resíduos de seus processos e não teria estímulo para ser mais eficiente e reduzir os resíduos gerados.

Presencing: retrair e refletir

Sentimentos, sensações e insights individuais (depoimentos de cada membro do grupo narrando sua percepção nesta etapa do percurso)

Carlos: “oportunidade de dar um salto no tema de resíduos no Brasil e no mundo”

Deborah: "Tem muitos atores envolvidos e diversos deles acreditam que a questão está endereçada o que não condiz nem com os números e volumes de coleta seletiva, reciclagem e nem com a existência continuada de aterros e lixões. Como este, há vários outros exemplos de desencontros de informação ou expectativas - os advogados ambientais acham que a lei é boa mas não explicam porque empresas não se tornam signatárias dos acordos setoriais; cooperativas reclamam da falta de contato direto com o empresariado que por seu lado, questiona níveis de capacitação e compliance ao envolverem estes grupos. Signatários dos acordos setoriais não sabem ou não querem falar os nomes dos não-signatários mas todos falam do custo de implementar logística reversa ou programas de tratamento de resíduos . Nos bairros, associações de moradores fazem mutirões de limpeza mas não empreendem esforços maiores de conscientização. A solução que testamos neste PR aproximou pessoas de uma forma inusitada que foi super bem recebida. Fica a convicção da necessidade de construir pontes e canais de comunicação entre todo tipo de ator, aproximar iniciativas boas de novos interessados e criar sinergias, disputando espaço com outras questões de igual importância. Isto tudo leva tempo para construir. E eu me dou conta de que estou dos dois lados da questão - ainda parte do problema, querendo contribuir para sua solução."

Monique: "Por muito tempo, os resíduos de produção e consumo foram uma externalidade ignorada pelo setor público e, principalmente, pelo setor privado, sem esquecer da sociedade. A dificuldade de converter isso para o campo das oportunidades encontra muitos entraves. O maior deles está nas pessoas. Na vontade de fazer, de incluir. O que mais me sensibilizou foi o contato próximo com cooperativas de catadores, pessoas que fazem tanta diferença nesse cenário e que são tão relegadas à própria sorte e que precisam de um olhar mais atento tanto dos governos como das empresas. Há uma potência latente de inovação nessas cooperativas, inclusive com a criação de negócios sociais, que grandes empresas estão ignorando. O que mais me mobilizou neste projeto foi contribuir para facilitar esse acesso."

Sabine: “O tema é complexo e para que avance será necessário muito trabalho em conjunto. A questão dos resíduos é muitas vezes varrida para debaixo do tapete, mas cada vez mais tem aparecido como assunto importante a ser tratado.”

Desenvolvimento do produto final: agir em um instante

Processos de prototipagem

Como dito anteriormente, o PLS 90/2018 emergiu como potencial fomentador de oportunidades para contribuir para melhoria da legislação que especifica pontos da Política Nacional de Resíduos Sólidos. Na medida em que prevê que a destinação de resíduos recicláveis para cooperativas ou associações similares se faça presente no conteúdo mínimo do Plano de Gerenciamento de Resíduos Sólidos, documento integrante do licenciamento ambiental, consideramos importante levantar as oportunidades e também os riscos para o melhor entendimento de seus propósitos e, se aprovado, do cumprimento deste novo inciso ao artigo 21 da Lei 12.305/10 e seus efeitos.

A partir da pesquisa teórica apresentada anteriormente, decidimos incluir uma etapa de fórum presencial com o objetivo de levantar dados sob a ótica do mercado, considerações, expectativas, contribuições e observações acerca de pontos críticos do PLS 90/2018. Decidimos, ainda, realizar este fórum como uma Audiência Pública Simulada, aplicando formato/dinâmica inovadora em relação ao roteiro e protocolo normalmente seguido por tais encontros.

As audiências públicas se configuram em espaços de pouco ou nenhum consenso, e, diante da sociedade, são instrumentos necessários, porém esvaziados, uma vez que os atores vão para estes pleitos com o foco de defenderem seus interesses, e não o do todo em torno do tema tratado. Além disso, não é um espaço ocupado pelos entes de mercado. Estes buscam levar seus argumentos e ganhar suas disputas de outras maneiras.

Considerando todos esses aspectos, o grupo de pesquisa buscou realizar um encontro que extrapolasse a fronteira das reivindicações, com formato mais enxuto, construir um momento de escuta e de diálogo, promovendo uma dinâmica participativa em que diferentes pontos de vista são valorizados, criando a oportunidade de gerar ideias a partir do coletivo e não somente do individual.

Apresentamos, abaixo, o roteiro do encontro (realizado em sessão única), no Salão Nobre da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (EAESP-FGV) tendo duração total de 1h30 minutos.

Abertura: contextualização do tema, motivações, explicação do PLS 90/2018 a partir de material de apoio previamente enviado.

Etapa 1 - Fala dos convidados: todos tiveram oportunidade de falar, livremente, e em tempos iguais, sobre o que conhecem sobre gestão de resíduos, PNRS, PGRS, e sobre o que acharam do PLS 90/2018.

Etapa 2 - Dinâmica: sessão generativa em que todos contribuem e compartilham conhecimentos e análise de cenário a partir de diversos lugares, pontos de vista, sem necessariamente argumentar em próprio favor.

Fechamento e considerações finais

A Dinâmica Aplicada: Six Thinking Hats

A dinâmica Six Thinking Hats é uma ferramenta de solução de problemas e de geração e discussão de ideias. Gerar ideias, testar as ideias e alcançar uma solução de um ponto de vista racional e positivo, uma vez que considera que todas as perspectivas são válidas: a sessão evita qualquer confronto que possa ocorrer quando pessoas com diferentes estilos de pensamento discutem um problema.

De uma forma inteligente e ágil, dando oportunidades a todos os participantes de trazerem seu conhecimento, Six Thinking Hats se baseia no que Edward Bono chama de pensamento paralelo, deixando um pouco de lado apenas a técnica argumentativa de defesa de ideias – o que, no âmbito sócio-político é o mais comum. Neste modelo, o consenso é construído naturalmente e de forma inevitável. O grupo decide junto quais são as melhores ideias dentre as apresentadas. Não há espaço para que nenhum participante desqualifique o outro. As ideias menos produtivas ou de maior risco são eliminadas pelo grupo a partir de testagem.

Na prática, a dinâmica convida o participante a sair do seu estilo de pensamento habitual e a observar as coisas de várias perspectivas diferentes, a considerar um problema de outros ângulos. No caso da Audiência Pública Simulada para o PLS 90/2018, foi usada para construir uma análise imparcial dos benefícios e riscos potenciais que o PLS abarca, permitindo a emergência de novas ideias e discutindo os aspectos da viabilidade do projeto proposto com maior neutralidade.

A dinâmica deve ser realizada em grupos de seis participantes, sendo um deles o facilitador. Num grupo maior, podem se formar núcleos de seis, ou propor a participação em pares. Cada participante usa um chapéu. A partir deste momento, nenhum dos participantes fala a partir do ponto de vista pessoal ou da empresa ou órgão que representa, e sim do papel que irá assumir, de acordo com a cor do chapéu. A intenção é de fato despersonalizar, mas nunca desumanizar. Six thinking hats pode ser bem aproveitada de duas maneiras:

Opção 1: cada participante assume somente o seu chapéu e fala a partir do que lhe cabe. A jornada se inicia com o facilitador (azul) apresentando o tema a ser debatido e pedindo ao Branco que liste dados, fatos, pesquisas, informações etc. Tudo é anotado em lousa ou no flip chart. Em seguida, o Verde apresenta as ideias em torno do tema. Depois, o Amarelo sustenta porque aquelas ideias são boas. O Facilitador, então, separa as ideias que serão testadas. Como contraponto, convida o Preto a apresentar pontos negativos e os riscos de se implementar as ideias, uma a uma. A ideia não é desqualificar ou derrubar a ideia, mas olhar sob o ponto de vista crítico. Em seguida, o facilitador pede ao vermelho para expressar os sentimentos sobre o que foi dito até então e se volta para o grupo para que, juntos, cada um diga como resolver os pontos críticos levantados pelo Preto para as ideias 1, 2, 3, assim por diante. Mesmo que as propostas de neutralização das críticas apresentadas não se apliquem ao escopo do que está sendo discutido, o grupo fica com a sensação de que os problemas têm solução.

Opção 2: os participantes, à exceção do facilitador (azul) se manifestam por rodadas de cores. Assim, cada um pode contribuir em cada etapa, respeitando o propósito das cores. Ou seja, na primeira rodada, todos acrescentam 1 informação (Branco), depois todos falam 1 aspecto positivo do PLS cada (Amarelo); em seguida, cada um assume o chapéu verde e contribui com 1 ideia para os senadores considerarem; em seguida, o grupo, falando um a um, levantam os riscos das ideias escolhidas pelo facilitador (Preto). Então, o facilitador começa a etapa de neutralização desses pontos negativos e, por fim, encerra com cada um usando o chapéu Vermelho e expressando o sentimento que fica sobre o tema depois da sessão.

Além do grupo de mestrandos, participaram do encontro e da dinâmica:

• Diretor de sustentabilidade na indústria de papel e celulose

• Especialista em economia circular da indústria do plástico

• Representante da área de resíduos sólidos e logística reversa de órgão ambiental de São Paulo

• Especialista em sustentabilidade de grande empresa de gestão de resíduos

• Analista de Sustentabilidade de empresa do varejo têxtil

• Advogado ambiental

Durante o momento de escuta da Audiência Pública Simulada surgiram diversos insights, entre eles:

• Indústrias recicladoras também tem interesses nesses resíduos e o PL só contempla cooperativas.

• É preciso esclarecer o escopo do PL, quais resíduos e a quais geradores se aplica (porte, localidade).

• Ponto importante para aprimorar no texto da lei é deixar claro a quem se refere. Do ponto de vista de aprovação, deve-se tomar especial cuidado com relação à inclusão das empresas como grandes geradoras.

• Outra distinção importante a explorar é entre geradores urbanos e grandes geradores.

• Sustentam que a empresa dá o destino adequado vendendo e gera uma significativa receita para a companhia. Obrigar que doassem seus resíduos seria prejudicial às empresas. Foi mencionado que empresas já têm obrigação legal e cumprem licenciamento ambiental para poderem operar.

• Houve uma preocupação em associar resíduo industrial pois terá impacto no licenciamento ambiental. O licenciamento de empresas passa por condição crítica de ter muito clara e estabelecida a cadeia de destinação de seus resíduos. Mencionaram inclusive que há recicladoras verticalizadas dentro das empresas, portanto a maior parte dos resíduos recicláveis já estaria endereçada.

• Sustentam que o problema está nos resíduos sólidos urbanos (RSU) que não são segregados corretamente e consideram que ajudaria dar foco no RSU.

• Enfatizaram que a origem do problema está nos domicílios onde não se faz a separação adequada e os resíduos, falta educação ambiental e conscientização da população.

• Acreditam ser benéfico colocar a questão das cooperativas para RSU.

• Em um momento de foco nas cooperativas, falou-se da necessidade de reforçar o papel das cooperativas dentro da PNRS, mas não dessa forma como está posto. Consideram que falta apoio à profissionalização e afirmaram que isto demanda investimento grande, pois contempla auditorias periódicas para manter e monitorar as condições de trabalho, ambientais, sociais etc).

• Foi levantado que hoje é difícil adquirir de forma lícita material proveniente de cooperativas, há um desafio de rastrear e legalizar.

Produto Final

O projeto resultou em três produtos.

• Relatório enviado para o Senado (implicações para as políticas públicas): Foi possível redigir um documento robusto com contribuição importante para qualificar o debate sobre a PL. Elencamos os ganhos percebidos a partir de sua aprovação como o aumento das taxas de reciclagem e de renda de catadores, assim como pontos de atenção como aspectos tributários (bitributação) e de modelos de negócios que incorporam o valor dos resíduos reciclados aos resultados. (A íntegra do relatório enviado à Comissão do Senado, pode ser acessado através do link que consta no anexo desta apresentação.)

• Teste de audiência pública simulada com dinâmica (implicações para o ensino - podendo interessar às coordenações de AP: Teste de uma dinâmica e estrutura diferente de audiência pública envolvendo aspectos de design thinking e, primordialmente, aplicando técnica de aproximação com potencial de desarmar posturas defensivas/agressivas de debate, mais conducente à construção de soluções. Trata-se de abordagem com potencial de ensino, podendo interessar às coordenações de algumas disciplinas da administração pública.

• Vídeo registro: Por fim, a experiência resultou na produção de um vídeo-registro para uso interno, e fins educativos, podendo alimentar a concepção/desenho de um caso de ensino.

Em conclusão: Resíduo é o que não falta”. Mesmo com a crise econômica que assola o país, freando o consumo das famílias, a curva de resíduos gerados aumenta. Constatam que é preciso pensar em soluções, independentemente se incluem cooperativas ou não. Desafios e oportunidades convivem na mesma proporção: quando há muitos atores, muitas soluções são possíveis.

Anexo: Íntegra do relatório enviado ao Senado (acesso ao documento pelo botão abaixo)

Credits:

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