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Pesca Artesanal da Tainha Revista Comida com História

São 5 horas da manhã.

É o começo do dia no rancho de pesca…

O cozinheiro coloca água para esquentar…

Ele logo vai fazer um café novinho para os pescadores antes de irem ao mar.

E enquanto o dia nasce…
já tem alguém de olho na tainha.

Em cima das dunas da praia, há uma pessoa encarregada de vigiar o movimento dos cardumes quando o sol ainda nem nasceu. É o chamado vigia, que fica esperando ver o peixe para avisar o resto dos camaradas.

Quando isso acontece, é hora de sair com a canoa.

No mar, os pescadores fazem o cerco ao cardume.

Com a rede, puxam os peixes para a praia, um trabalho sempre feito a muitas mãos.

Quem vai para o mar, quem fica no rancho e quem está só observando: todo mundo é convocado a ajudar no arrasto, que é tradicionalmente uma atividade coletiva.

Uma tradição antiga que é a base da comunidade do bairro Campeche, em Florianópolis.

Quem nasceu vendo e vivenciando tudo isso, incorpora esses rituais ao seu próprio jeito de ser.

É o caso de Liberato Jorge Braz, que aos seis anos de idade começou a pescar tainha com o pai. Hoje, aos 68, segue sendo pescador artesanal e é um dos guardiões dos saberes locais.

"Meu pai e meus tios todos eram pescadores. E desde pequeno acompanhei meu pai nessa tradição.

Apesar do resultado não ser sempre o esperado, a pesca da tainha é muito importante pra nós."

A Pesca Artesanal da Tainha começa sempre no dia primeiro de maio e vai até 31 de julho. No Campeche, são quatro ranchos em atividade, alguns com mais de sessenta anos.

As canoas usadas na pesca são verdadeiras cápsulas do tempo: algumas são centenárias.

A atividade é tão importante que, em 2019, a Pesca Artesanal da Tainha no Campeche foi decretada Patrimônio Cultural de Santa Catarina pela Fundação Catarinense de Cultura. No bairro, a pesca do peixe é mais do que uma atividade econômica ou gastronômica.

É o símbolo de uma identidade.

O reconhecimento como patrimônio fortalece as tradições das famílias locais num momento crucial, quando elas são obrigadas a reafirmar seu território.

Tem se intensificado uma disputa por espaço entre comunidades pesqueiras e grandes construtoras.

Roberta Braz, filha, neta, sobrinha de pescadores - e também pescadora, lamenta ver a especulação imobiliária avançando com novos condomínios e centros comerciais sobre áreas que antes pertenciam a comunidades pesqueiras.

Uma história que corre o risco de ser apagada pouco a pouco.

"Eles estão vendendo a praia como se a praia fosse de quem compra um apartamento grande…”

“Assim, eles negam toda aquela cultura, aquele modo de vida que ainda existe ali, dos pescadores artesanais da tainha."

Outro problema grave é o turismo irresponsável praticado principalmente nos meses de pesca.

A travessia de embarcações grandes indo e vindo o dia inteiro espantam os mantos de tainhas e atrapalham o trabalho dos pescadores que aguardam desde madrugada pelo momento do arrasto. Uma das soluções tem sido o turismo de base comunitária, uma das bandeiras erguidas por Roberta.

Um turismo feito em harmonia com os costumes, saberes e a qualidade de vida das populações tradicionais.

Roberta foi uma das criadoras do Projeto Tekoá Pirá, que em tupi guarani significa aldeia do peixe.

É uma ação para conservação e proteção do modo de vida do povo que resiste em torno da pesca da tainha no Campeche. É uma proposta de turismo que não visa o retorno financeiro, mas a disseminação cultural e a valorização das tradições.

"A especulação imobiliária estava quase concretando a nossa história. Eu queria resgatar tudo isso."

Roberta Braz

Para subsidiar as ações turísticas de base comunitária é preciso participar de editais e linhas de financiamento, o que nem sempre é fácil. Mas tem também uma outra aposta quando o assunto é futuro da pesca artesanal: o interesse das novas gerações das famílias pesqueiras.

O curso de remo é uma das soluções encontradas pelos ranchos de pesca para trazer o jovem para dentro da atividade, que tem atraído a atenção dos filhos de pescadores.

"A gente vê um movimento muito bonito da nova geração, se envolvendo, abraçando esse pertencimento, esse modo de vida, honrando aqueles que já passaram e a pesca que conseguiu manter sua família", diz Roberta Braz.

São geralmente cinco pessoas envolvidas na pesca: na canoa vão o patrão e os remeiros, e em terra firme ficam pelo menos mais dois camaradas. É assim mesmo que são chamados: camaradas.

A pesca da tainha é mesmo um encontro de grandes camaradas homens, mulheres e crianças.

Quando o mar tem peixe, todo mundo se encontra na beira da praia esperando para puxar a rede e, claro, levar pra casa a sua parte da tainha.

"Quando tem pesca da tainha, vem toda a comunidade, tem aquele encontro, aquela troca.Quem ajuda ali na praia, sempre ganha um peixe. É uma pesca coletiva, uma pesca de identidade cultural.”

“O rancho vira uma base comunitária."

Muito além de uma atividade econômica e cultural, é um espaço de encontro.

Encontro de uma pessoa com a outra…

E de cada um consigo mesmo. Um encontro com a própria identidade.

"Nesses últimos 10 anos, os nativos estão se encontrando somente na Pesca da Tainha e em algumas festas religiosas das comunidades.”

Roberta Braz

“O movimento cresceu e a nossa ilha dobrou, a gente está com mais de 500 mil habitantes. Então hoje, nesses momentos tradicionais, como a Pesca da Tainha, é quando os nativos da ilha ainda se enxergam.

É onde eles se identificam.”

“Essa é a palavra: identidade."

Fotos: Ronaldo Andrade

Esta história termina aqui.

O projeto do Guia Cultural Gastronômico de Florianópolis é totalmente patrocinado pela Secretaria de Turismo, Cultura e Esporte e Fundação Cultural de Florianópolis Franklin Cascaes por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura nº 3659/91.