Loading

DIÁLOGO PELO RIO PARANAPANEMA NOSSA JORNADA

"Ouvi, ouvi, ouvi, a voz das águas" (Caetano Veloso)

O CURSO

Este semestre de FIS 2 nos trouxe o desafio da comunicação e a importância do diálogo para as relações, o que vai muito além do que imaginamos. Partimos de um lugar em que os entendimentos mútuos são cada vez mais difíceis, mesmo em uma sociedade cada vez mais usuária das tecnologias da comunicação contemporâneas (BOHM, 1996). Recuperamos a etimologia da palavra comunicação: commun-fie, ou fazer-alguma-coisa-juntos (BOHM, 1996). Não haveria, então, uma intenção de tornar comum algo que parte de um indivíduo, mas no sentido mesmo de fazer juntos (BOHM, 1996). Para isso, é extremamente relevante ouvir com sensibilidade o outro, buscando verdade e coerência (BOHM, 1996). Assim, o importante na comunicação não é provar ao outro seu próprio ponto, ou persuadi-lo das próprias ideias (BOHM, 1996).

É preciso cuidar para que nós mesmos não nos apeguemos às nossas ideias e evitar defendê-las de maneira radical (BOHM, 1996). Como parte deste aprendizado, nos foi proposto observar em conversas com o objetivo de nos tornarmos mais conscientes da linguagem que utilizamos, do nosso nível de escuta, das generalizações realizadas e dos gatilhos que fazem emergir sentimentos bons e ruins ao longo de uma conversa. Além disso, buscamos identificar nossos próprios bloqueios e preconceitos. Estes podem ser estratégias para evitar que nos prejudiquemos, mas é importante observá-los para perceber o quanto eles também podem estar anuviando nossa comunicação por deixarmos de nos atentar às nossas próprias incoerências (BOHM, 1996).

Fomos desafiados a desenvolver um projeto em que teríamos a oportunidade de dar a nossa contribuição para alguma situação real e complexa envolvendo essa dimensão da comunicação.

Este ano, o modelo de Open Space Technology foi realizado de forma virtual, desse modo, cada pessoa que apresentava uma ideia ganhava uma sala virtual e os demais visitavam as salas para que pudessem entender melhor a proposta e decidir onde ficar.

A Salete foi uma das pessoas que apresentou uma ideia envolvendo a empresa na qual ela trabalha, a CTG Brasil, com usinas hidrelétricas localizadas no Rio Paranapanema. Assim, ela ganhou uma sala onde teve oportunidade de aprofundar o seu tema para os colegas e conseguir formar um grupo interessado em enfrentar essa jornada ao seu lado.

Para quem não conhecia nada de hidrelétrica, inicialmente a proposta podia não fazer muito sentido, porém, pareceu interessante o bastante para atrair diversas pessoas para a sala onde a Salete seguia explicando melhor o seu desafio. Ao final, permaneceram cinco pessoas na sala, além da Salete: Cenira, Cristiane, Otavio, Paula, e Vagner, formando um grupo que, cada um do seu jeito, foi tocado pela proposta.

A Salete trouxe um desafio real, bem concreto, supostamente de falta de comunicação entre a CTG Brasil (empresa que ela trabalha) e a comunidade do entorno do Rio Paranapanema, que estava sofrendo com a seca dos reservatórios e culpava a empresa, responsável por operar as usinas hidrelétricas na região, pelo problema. O desafio do grupo seria de alguma forma ajudar a quebrar esse ciclo danoso de não-comunicação. A ideia era facilitar o verdadeiro diálogo, acolhendo diferentes vozes, a fim contribuir para o desenvolvimento daquela região.

Para os próximos passos, importa, aqui, realizar uma diferenciação entre o pensamento individual e o coletivo. Enquanto o primeiro diz respeito ao pensamento de uma pessoa só e baseado nas experiências individuais, o pensamento coletivo está baseado nas experiências, pressupostos, valores e linguagens compartilhadas (BOHM, 1996). O autor compara o pensamento coletivo com feixes de luz. É comum que as ondas de luz apareçam de maneira incoerente, apontando para diversas direções. Porém, se possível for apontar esses feixes de luz para uma única direção, a potência é enorme, formando um laser e fazendo coisas que um feixe de luz disperso não pode realizar (BOHM, 1996).

Retornando à etimologia, a palavra diálogo surge do grego dia-logos, ou através-do-significado-da-palavra (BOHM, 1996). Assim, este fenômeno é algo que nos atravessa, por meio dele conseguimos nos entender mutuamente (BOHM, 1996). Ele também é algo que está entre o pensamento individual e o coletivo, com a intenção da harmonia entre eles (BOHM, 1996).

Aprendemos que o diálogo acontece quando algo novo emerge, quando as conversas não estão contaminadas por carga emocional, prejulgamentos e os interesses de cada um (BOHM, 1996). Que ele ocorre quando conseguimos observar esses elementos e nos abrimos para o novo, deixando emergir (BOHM, 1996). É importante mesmo que os pressupostos emerjam dentro do diálogo, até porque podemos nem saber que eles existem antes do diálogo acontecer (BOHM, 1996). A intenção é de perceber os pressupostos, e não suprimi-los quando eles aparecem (BOHM, 1996). Com isso também veio a importância da escuta sensível e verdadeira, a abertura para o outro, permitindo o vazio, para que algo novo possa se manifestar durante as conversas, inclusive os pressupostos dos outros (BOHM, 1996).

A suspensão dos pressupostos é condição, inclusive, para conseguirmos pensar coletivamente - não que o pensamento não seja coletivo, ele sempre o é, mas para que ele seja intencionalmente coletivo (BOHM, 1996). Entender as pressuposições dos outros é o caminho para justamente entendermos como os outros e nós pensamos, e se compreendemos como os outros pensam, então pensar coletivamente já se faz presente (BOHM, 1996).

"Todos compartilharão a totalidade dos pressupostos no grupo. Se todos perceberem juntos o significado de todas as pressuposições, o conteúdo da consciência será essencialmente o mesmo" (BOHM, 1996, p. 65).

Seguindo a Teoria U (SCHARMER, 2019), entendemos que o nosso primeiro passo seria escutar as diversas partes interessadas do entorno do Paranapanema, para nos conectarmos com a realidade de cada um sobre o que eles consideravam ser o principal desafio daquela comunidade frente ao recurso hídrico e principalmente do atual momento apresentado pelo reservatório de Jurumirim em termos de seu volume e consequências disso decorrentes.

A NASCENTE

Assim, começamos a nossa jornada com a realização de uma reunião inicial (kick-off) com a presença dos seguintes representantes, dentre as partes interessadas identificadas naquela fase:

- Suraya Modaelli: do órgão gestor do Departamento de Águas e Energia Elétrica e representante dos Comitês de Bacias Hidrográficas, do rio Paranapanema;

- Natalia Caldeira Flor: Analista de Relações Institucionais da CTG Brasil que tem interface com as partes interessadas no entorno do reservatório de Jurumirim;

- Paulo Ricardo Laudanna: gerente de operações da CTG Brasil e que foi gerente nas usinas do Rio Paranapanema por 10 anos;

- Leandro Feltran Barbieri: CTG - coordenador do Meio Ambiente da CTG Basil, que atua na região do Rio Paranapanema. Jurumirim faz parte de suas atividades diárias;

- Guilherme Gallego: professor da Faculdade do Eduvale e gestor ambiental. Idealizador do projeto Ecobarreiras do Estado de SP;

- Judésio Borges: Secretaria de Meio Ambiente de Avaré, município que é banhado pelo reservatório Jurumirim.

- Como convidada especial a pesquisadora Leticia Artuso, do GVCes que possui experiência com grandes obras e territórios, com olhar para os casos de assentamentos e deslocamentos compulsórios.

Reunião de Kick off

Como a nossa intenção era escutá-los, após as apresentações individuais, abrimos a reunião explicando que gostaríamos de compreender o contexto atual e a opinião de cada um em relação aos principais desafios do Rio Paranapanema.

A Suraya falou principalmente dos objetivos dos comitês de bacias e do problema da seca, que afeta o turismo local e a piscicultura. Falou da Sala de Crise criada para trazer mais informação para a comunidade e para que todas as partes envolvidas pudessem participar com olhares diferentes e ajudar a resolver o problema de desabastecimento. Entende como o principal desafio construir uma relação de confiança e transparência entre todos os usuários do entorno do reservatório. Nos convidou para participar da próxima reunião da sala de crise, promovida pela Agência Nacional de Águas (ANA), sobre a gestão do atual cenário (seca), que aconteceria naquela semana.

O Guilherme falou, principalmente, da falta de conscientização da população que joga resíduos no Paranapanema. Entende como o maior desafio a promoção do diálogo e conscientização de todos os agentes da comunidade, tendo em vista que muitas vezes não há o conhecimento específico sobre o reservatório e as pessoas só sabem apontar os culpados, sem entender o que está acontecendo.

O Judésio falou do passado quando as águas estavam em consonância com os continentes e com os municípios, atraindo os investimentos, embarcações, hotéis, grandes residências, casas nobres que se instalaram no entorno do reservatório. Falou que participou da sala de crise e observou que a sala é muito voltada para o interesse dos órgãos (ANA, ONS) que fazem a administração do reservatório. Entende como desafio criar consciência de todos e estudar como trazer equilíbrio ao local, sem depender só da chuva.

O Leandro trouxe a importância de reforçar o papel e as responsabilidades de cada um no reservatório e os conflitos existentes e que entende que a Sala de Crise tem um papel fundamental nessa construção. Como desafio construir uma relação de transparência para que cada um conheça o seu papel.

O Laudanna falou da necessidade de passar mais informação e alinhar o entendimento das pessoas. Enfatizou que as operações hidrelétricas são reguladas e por este motivo as operações da hidrelétrica tem suas restrições, estando à disposição para ajudar a disseminar este conhecimento. Ressaltou que o professor Guilherme seria também uma boa fonte para esclarecer o regime das hidrelétricas.

A Natália acha que o maior desafio é conseguir o engajamento da comunidade como um todo na construção de um diálogo. Sugeriu que as pessoas que não possam participar das reuniões que acontecem sobre o reservatório, acessem ass gravações das mesmas que estão disponíveis na internet.

A Letícia falou que a relação de confiança só vem quando se tem transparência e quando os interesses de todos os atores ficam em destaque. Sugeriu não deixar a visão técnica predominar e trazer um olhar de fora para perceber as tradições e culturas.

A partir dos relatos do kick-off ficou claro para o grupo a necessidade de algum tipo de intervenção que permitisse melhorar a comunicação entre as partes. Como descrito inicialmente, a abordagem dos diálogos deveria ter um caráter mais transparente e motivador para conquistar a confiança dos stakeholders - algo sugerido pelos próprios participantes da reunião de kick-off - no processo que se pretendia colocar em prática, para auxiliar essas partes interessadas do Reservatório de Jurumirim.

A sensação que permaneceu foi de que o grupo que havia participado do evento tinha potencial de interagir e assim contribuir para um bem comum. A intenção de todos era melhorar as condições do rio, do reservatório e da população do entorno. Seria então o diálogo a ferramenta de conexão e atualização das boas intenções destas partes interessadas? Falamos em atualização no mesmo sentido de Nicolescu (2009). A potência do diálogo existe justamente por hoje ele não se manifestar, mas apresentar indícios e percepções de sua falta.

Esta dinâmica entre potencialização e atualização só pode ser feita quando há a inclusão de uma outra lógica, que está além da dicotomia entre essas duas contradições (NICOLESCU, 2009). É a lógica do terceiro incluído, que atua sob uma dinâmica diferente daquela presente anteriormente (NICOLESCU, 2009). Nesta nova lógica, as contradições anteriores - a lógica do ou-isso-ou-aquilo - podem ser reapresentadas como isso-e-aquilo, ou mesmo nem-isso-nem-aquilo e seu absolutismo é contestado (NICOLESCU, 2009).

A TERCEIRA MARGEM DO RIO

O nome do nosso grupo e a nossa logomarca foi inspirada pelo título do conto de Guimarães Rosa (1994) por nos remeter à lógica do terceiro incluído (NICOLESCU, 2009). A ideia de que um rio é formado por duas margens opostas é subvertida aqui pela ideia de que existe uma terceira margem. No território que estamos analisando, existe essa mesma ideia de oposição entre as diferentes partes interessadas naquela comunidade. O diálogo e o desejo de desenvolver o rio surgem aqui como esse terceiro incluído, algo que abarca essa oposição e cria sua própria coerência. Ele representa bem o nosso objetivo de contribuir com a promoção do diálogo, acolhendo os diferentes olhares das partes interessadas sobre o reservatório, ajudando-as a se abrirem para a escuta a partir da percepção de novas realidades e da complexidade que tece as relações.

Logomarca do grupo

Nesta lógica, percebemos que a realidade é plástica (NICOLESCU, 2009). Ela pode ser modificada segundo nossos pensamentos, sentimentos e ações (NICOLESCU, 2009). E por isso mesmo somos responsáveis pela realidade (ROSENBERG, 2006; NICOLESCU, 2009), a qual é ao mesmo tempo interior e exterior (NICOLESCU, 2009).

"Um porvir sustentável é aquele da descoberta das múltiplas faces da Realidade" (NICOLESCU, 2009, p. 10)

Também conseguimos desenvolver o nosso enunciado: “Promover o diálogo, acolhendo os diferentes olhares sobre o desenvolvimento socioambiental da região no entorno do reservatório Jurumirim (Rio Paranapanema)”

Enunciado do trabalho
AFLUENTES

Ainda como resultado do kick-off, alguns membros do grupo participaram da Sala de Situação do Paranapanema, organizada pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), com a participação do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o Comitê de Bacias Hidrográficas do Paranapanema, a CTG Brasil e outras geradoras de energia, ONGs, representantes dos governos locais e membros da comunidade como um todo. Um dos diagnósticos feito pelo grupo foi de que as pessoas falam uma linguagem muito técnica, dificultando o diálogo. Além disso, a dinâmica da comunicação é pautada por julgamentos e pela busca de um culpado pelos problemas do reservatório. Ficou bem claro que o foco das pessoas está na tentativa de apenas observar e trazer relevância para seus próprios problemas, sem pensar nas demandas das outras partes interessadas ou no bem comum. Há uma falta de empatia e visão sistêmica.

O diálogo é impedido sobretudo pela ausência dos elementos que preconizam a comunicação não-violenta. É comum pensar que a violência acontece só fisicamente, como guerras e brigas, e por isso mesmo pensamos que um espaço que se propõe uma conversa não é violento (GANDHI, 2006). Mas a violência está presente, e é hoje hegemônica, na forma como nos comunicamos (GANDHI, 2006).

Essa sala de situação, que inicialmente aparentava ser um dos caminhos para a promoção do diálogo, se mostrou muito distante do que é necessário para criar um ambiente acolhedor, onde todos escutem e tenham oportunidade, de fato, de entender as demandas de cada um (BOHM, 1996; ROSENBERG, 2006). Observamos aspectos na sala que demonstram uma “comunicação que bloqueia a compaixão” (ROSENBERG, 2006, p. 37), como os julgamentos moralizadores - percebidos por meio de críticas, culpabilizações, diagnósticos e comparações (ROSENBERG, 2006).

A sala de situação é, na verdade, um espaço que exemplifica como estamos acostumados a nos comunicar uns com os outros: violentamente. É comum nos depararmos com situações em que julgamos, classificamos e dicotomizamos as pessoas e as situações, como certo-errado, bom-mau, responsável-irresponsável (ROSENBERG, 2006). Quando alguém faz algo que não gostamos, nos acostumamos a pensar o que pode ter de errado com aquela pessoa, focando mais naquilo que está errado, e menos em quais necessidades e sentimentos emergem daquela situação (ROSENBERG, 2006).

A partir dessa experiência, entendemos que incluir a comunicação não-violenta no produto já teria em si potência de real efetivação do diálogo (BOHM, 1996; ROSENBERG, 2006). Levamos em consideração também que não seria necessário ensinar o que é a comunicação não-violenta, mas que se conversássemos de forma compassiva, com empatia e respeito, e com o objetivo mesmo de nos conectar com as pessoas, a comunicação não-violenta emergiria (ROSENBERG, 2006).

Nosso próximo passo foi, então, marcar entrevistas individuais para aprofundarmos a nossa escuta e termos um mapeamento mais claro dos problemas enfrentados e interesses de cada um.

Conseguimos marcar entrevistas com diversos atores que falaram sobre as suas histórias no Paranapanema, as suas trajetórias de vida, as suas relações com a comunidade, os problemas do rio e as possíveis soluções, de acordo com seus pontos de vista, e, muitos deles, dos seus sonhos para o Rio.

Os entrevistados foram: pescador, bombeiro, professor, dono da marina e funcionários da CTG Brasil.

Os principais pontos abordados foram:

- O potencial da represa para turismo, lazer, atividades náuticas, pesca e agricultura que precisa ser explorado com responsabilidade. Importante resolver os problemas de pesca ilegal, irrigação ilegal, a falta de fiscalização, lixo, especulação imobiliária, construções ilegais, turismo predatório.

- A necessidade de um trabalho de conscientização da comunidade. É mais fácil culpar terceiros pelos problemas do que ajudarem na preservação. Eles não se conectam com o problema do aquecimento global e ainda jogam lixo no rio. A informação é imprescindível para criar a cultura da preservação. Não há um trabalho nas escolas para trazer a conscientização para as novas gerações.

- Muitos que exploram o rio só pensam no presente, não tem uma visão de futuro.

- A seca afeta muito o turismo local. As pessoas querem o reservatório cheio para atrair o turismo, pois as pessoas vão pela beleza do local, pelas praias, pela possibilidade de navegação, que só é possível com o reservatório “cheio”.

- Necessidade de criar rotas de navegação seguras para navegar mesmo na baixa.

- A seca afeta a pesca. A fauna aquática está prejudicada. Os pescadores reclamam da falta de peixe, se não há chuva os peixes não se reproduzem. Mas o pior problema é a pesca predatória.

- Necessidade de construir confiança entre as pessoas.

- Esclarecer a comunidade sobre o papel da CTG, suas ações de preservação da fauna aquática e suas limitações em relação ao nível da represa e a importância da geração de energia não só para a região, como para o Brasil todo.

Alguns atores têm seus próprios interesses e não estão sensíveis às demandas ou obrigações uns dos outros. Como sensibilizar para o que é percebido como uma “dor” ou “sofrimento” nesta relação de um com o outro e entre todos?

A CONFLUÊNCIA

Após as entrevistas, percebemos que todos pareciam realmente estar buscando o mesmo objetivo, um rio onde todos pudessem desempenhar as suas atividades por muito tempo em harmonia, equilíbrio e respeito ao próximo, ou seja, todos em busca de um Rio Sustentável.

Assim montamos o nosso primeiro mapa 3D, com nosso propósito já bem definido: “Promover o diálogo acolhendo os diferentes olhares sobre o desenvolvimento socioambiental da região no entorno do reservatório de Jurumirim.”

Mapa 2 D
O TALVEGUE

Após as entrevistas podemos dizer que chegamos ao fundo do “U” com um diagnóstico mais claro do problema. O mais bonito foi perceber que a maior parte dos stakeholders quer o mesmo: um rio saudável, capaz de gerar energia para todos e onde se possa pescar, navegar, nadar, irrigar fazendas, ou simplesmente contemplar a sua beleza.

Nosso desafio era conseguir mostrar para eles essa coincidência de interesses e que através do diálogo eles poderiam, ao invés de culpar uns aos outros pelos problemas enfrentados, juntar forças para lutar pelo rio dos sonhos de cada um.

Assim, com os sonhos deles, emergiu o nosso sonho: despertar na comunidade local, no entorno do reservatório de Jurumirim, a vontade de dialogar através de uma mesma linguagem em busca de um objetivo comum para o desenvolvimento sustentável do local.

Como fazer isso?

O DELTA

Decidimos promover um Diálogo em Grupo. A ideia seria fazer uma dinâmica com os stakeholders, em grupo e presencialmente, de forma que eles conseguissem escutar uns aos outros, deixando para trás, pelo menos durante a dinâmica, as ideias preconcebidas. O nosso papel seria o de facilitar este encontro, de forma que o diálogo pudesse emergir com a melhor qualidade possível (SHAW, 2002):

“Nós precisamos permitir reuniões que desenvolvam seu próprio ímpeto e resultados - sem conduzi-las para uma certa direção. Se há facilitação e uma certa estrutura essa deve ser a de ajudar o encontro a desenvolver sua própria dinâmica” (SHAW, 2002, p.17)

Como promover esse espaço? Afinal, nenhum de nós tinha esse tipo de expertise. Foi então que a Salete apresentou para o grupo uma dinâmica que ela utilizou com a sua equipe na CTG Brasil e que funcionou super bem chamada “Os seis chapéus do pensamento” (DE BONO, 2008).

A técnica foi criada em 1985 pelo físico e psicólogo maltês Edward de Bono, que utiliza chapéus como uma metáfora para formas de pensar. São seis chapéus que ajudam a pensar de forma diferente dividindo o pensamento em diferentes partes, evitando, assim, a armadilha de colocarmos todos os pensamentos em um único “saco” (neste caso chapéu) sem conseguir enxergar nenhuma saída.

A dinâmica é desenhada de forma lúdica, na forma de um jogo. O facilitador, utilizando o chapéu azul, organiza o diálogo, orientando o grupo para as regras de cada um dos chapéus. Os diferentes chapéus, representam diferentes pensamentos. Conforme a figura abaixo:

Método dos Seis Chapéus do Pensamento

“O Método dos Seis Chapéus permite que a inteligência, a experiência e os conhecimentos de todos os membros do grupo sejam inteiramente utilizados, pois cada um deles está olhando na mesma direção e trabalhando com um objetivo idêntico” (DE BONO, 2008, p.10). A dinâmica conversa com o que diz Bohm (1996) sobre precisarmos colocar atenção no pensamento em si no diálogo, afinal “[o] pensamento defende seus pressupostos básicos contra as evidências de que pode estar equivocado” (BOHM, 1996, p. 41). Ainda segundo o autor, o problema é mesmo o pensamento (BOHM, 1996). Por isso mesmo, é importante, em um espaço de diálogo, pensar sobre o pensamento.

Ao iniciar com o chapéu das emoções, está feita a abertura para os sentimentos e necessidades das pessoas, dois dos quatro componentes da CNV (ROSENBERG, 2006). O foco da comunicação passa a ser mais como a promoção do respeito, da empatia e da atenção mútuos, e menos como um diagnóstico e julgamento dos outros (ROSENBERG, 2006).

O segundo chapéu, dos fatos, tem conexão com outro componente da CNV, a observação. Neste estágio, constatamos o que realmente aconteceu, sem que haja avaliação ou julgamento (ROSENBERG, 2006).

Já o chapéu da criatividade - ou das ideias -, se conecta com o componente dos pedidos na CNV. Neste estágio, é realizado um pedido específico a partir daquilo que foi observado e que por algum motivo pede uma mudança, provavelmente ligada a uma necessidade não atendida e a um sentimento negativo que foi expressado (ROSENBERG, 2006).

A metodologia foi apresentada à professora Letícia, que incentivou o seu uso e ratificou a importância de um mediador durante a promoção deste diálogo. Buscando orientação sobre a forma de condução do grupo, consultamos também o professor Mário, que nos orientou a buscarmos um lugar onde se conversa, sem a presença da institucionalidade. Algo deliberativo e informal com uma agenda de desenvolvimento de longo prazo e menos uma lista de desejos. Esta orientação foi importante, e converge com a intenção de prestar atenção daquilo que emerge do diálogo. O que é realmente relevante em um diálogo é o diálogo em si (BOHM, 1996). É possível sim ter “propósitos de investigação”, mas não um objetivo específico e um apego indefinido a este objetivo (BOHM, 1996, p. 51).

O grupo todo topou e assim marcamos o nosso evento chamado “Diálogo pelo Rio Paranapanema” convidando diversas partes interessadas para um diálogo em busca de um rio e reservatório cada vez mais sustentáveis. O evento seria realizado na cantina de uma faculdade (Eduvale) que, gentilmente, nos cedeu um espaço aberto para a realização do evento em tempos de pandemia.

Infelizmente, os números da Covid voltaram a aumentar e diversos municípios voltaram a entrar em alerta, o que fez com que tivéssemos que cancelar o evento.

Mesmo assim não desistimos, afinal um dos grandes ensinamentos da pandemia foi o exercício da resiliência e flexibilidade, nunca tão necessárias como nesses tempos que estamos vivendo.

Marcamos um novo encontro chamado agora de “Diálogo Virtual pelo Rio Paranapanema” que seria realizado via plataforma Zoom. Uma de nossas preocupações para esse evento é que, nas conversas individuais, algumas pessoas tiveram dificuldade com a ferramenta e problemas com a internet. Contudo, a questão de saúde era primordial.

O evento foi realizado no dia 26/11 com a presença de pessoas da comunidade e funcionários da CTG Brasil envolvidos com o reservatório de Jurumirim. Infelizmente, algumas pessoas cancelaram a presença no próprio dia, em função de um grave acidente de ônibus que ocorreu na região e deixou mais de 40 mortos, deixando a cidade de luto.

Diálogo Virtual pelo Rio Paranapanema

Iniciamos a apresentação falando que a nossa percepção, pelas conversas individuais que tivemos, é que todos ali tinham um mesmo objetivo. Que apesar de serem pessoas diferentes, com diferentes interesses, que todos querem tornar o rio mais sustentável. Percebemos também muita confusão, desconhecimento, ideias preconcebidas, o que prejudicava o processo de comunicação. Dissemos, então, que nós gostaríamos de ajudar a promover um entendimento a partir dessa conversa que teremos hoje para que eles conseguissem responder juntos a desafiadora pergunta: “Como tornar o rio mais sustentável?”.

Esclarecemos que gostaríamos, assim, de propor uma dinâmica elaborada por um psicólogo que acredita na possibilidade de encaminharmos melhor os problemas se separarmos nossos pensamentos em cinco partes, usando chapéus como uma metáfora: chapéu das Emoções (o que a gente sente); dos Fatos (o que sabemos de fato); da Ideia (como mudar a realidade dos fatos); dos Benefícios (essas ideias são importantes por quê?); e da Cautela (a ideia é boa, mas temos que pensar se é possível implementar).

Seguimos com a dinâmica em que a cada rodada os participantes falavam de acordo com o chapéu daquela rodada e, ao final do processo, conseguimos formar interessantes e reveladoras nuvens de palavras que expressam as principais ideias trazidas pelo grupo:

Nuvens de Palavras

A dinâmica, do ponto de vista do grupo envolvido, foi um verdadeiro sucesso, todos agradeceram e se emocionaram e, ao final, ainda fizeram uma homenagem ao bombeiro que, naquela mesma manhã, tinha ajudado a retirar diversos feridos do acidente de ônibus (ACIDENTE, 2020). Combinamos com o grupo que marcaríamos uma nova reunião para apresentar para eles o resultado dessa nossa jornada.

O maior aprendizado nesse processo foi o olhar do chapéu azul, ou do moderador. Ele deve facilitar a conversa de modo a favorecer o diálogo, deixando que o grupo traga seus insights e conclusões. O dialogar passa a ser o foco, e não um resultado pré-estabelecido. O objetivo ali era permitir que aquela conversa ocorresse. Não se esperava resolver nada. Apenas ouvir e ser ouvido. E nada foi mais importante do que isso.

"Eu saio com esperança, porque quando eu começou a tentar esse tipo de conversa, há dois anos, eu falei nossa, não vai ser possível. A gente sentia uma certa resistência. Agora eu vejo coisa fluindo melhor e se encaminhado para um acaminho bom." (Douglas, CTG Brasil)
"Eu estou positivamente surpreso. Foi rico demais isso aqui, vai me ajudar a amplificar esse debate para que a gente tenha um turbilhão de ideias para chegar num ponto que tenha uma convergência de ideias e vontades" (Alexandre, SOS Represa)
"Foi muito tranquilo. Foi um ambiente gostoso de discutir e conversar. Foi bacana o respeito entre os olhares diferentes. Eu saio com essa sensação de serenidade." (Leandro, CTG Brasil)
"Eu sinto solidariedade nesse momento, porque sabendo que existe tanta indiferença, sabendo que existe tanta maldade às vezes, você ainda encontra pessoas que possam se reunir e falar e debater sobre os assuntos e buscar soluções." (Sofia, estudante)

Assim, conseguimos completar o nosso 2º mapa 2D.

Novo mapa 2D: nada estava emperrado :)

Além do espaço para o diálogo que promovemos, decidimos criar um manifesto para dar voz a todas as partes interessadas e, quem sabe, sensibilizar outras pessoas, instituições e o poder público para o problema do reservatório:

Além do espaço para o diálogo que promovemos, emergiu de forma sensível e genuína um texto, quase uma poesia, sobre os nossos sentimentos em relação ao processo e ao rio. Como uma forma de dar voz a todas as partes interessadas e, quem sabe, sensibilizar outras pessoas, instituições e o poder público para o problema do reservatório

Poesia: Somos Paranapanema

Sentimos a necessidade de envolver o maior número de pessoas interessadas em contribuir para a sustentabilidade da região e redigimos um convite, inicialmente definido para ser apresentado numa plataforma de petição online, com o objetivo de encontrar pessoas e instituições que desejam continuar esses diálogos e solicitar ao poder público apoio para a implementação desse espaço de transformação e união para o desenvolvimento da comunidade e preservação ambiental do entorno do reservatório Jurumirim.

Buscando reconhecer os impactos da seca extrema na região de Jurumirim, foram realizados diálogos entre aqueles que lá vivem e dependem do reservatório, estimulando conversas e identificando conflitos. Compreendemos a função do diálogo como um espaço que emerge algo novo, uma construção comum, através da palavra (BOHM, 1996). Encontramos muita gente que luta e acredita no desenvolvimento socioambiental da região: Ribeirinhos, empreendedores, pescadores, bombeiros, professores, estudantes, moradores e trabalhadores – gente que se importa. Governo, usina hidrelétrica, hotéis e marinas – instituições que se importam. Através destes diálogos, descobrimos que o rio traz felicidade e esperança para o povo de Avaré e dos municípios em seu entorno. É sabida a importância econômica, energética e turística do reservatório. Por isso, têm propostas para a conservação e preservação do rio, expandindo o debate com ideias inovadoras. E se preocupam com o custo de implementação, confronto político e a simplificação da linguagem para todos. Aqueles que querem construir um futuro em que o bem comum prevaleça de forma sustentável no Jurumirim precisam encontrar um espaço de diálogo onde as interações aumentem a consciência, gerando novos conhecimentos e possibilidades, construindo uma nova realidade de forma emergente e contínua. Um lugar em que todos tenham voz e possam perseguir o sonho de prosperidade da comunidade e do rio. Esta petição tem como objetivo encontrar pessoas e instituições que desejam continuar estes diálogos e solicitar ao poder público apoio para a implementação desse espaço de transformação e união para o desenvolvimento da comunidade e preservação ambiental do entorno do reservatório de Jurumirim.

Convidamos todos para no dia 7/12 conhecer o resultado da jornada que embarcamos em busca de diálogo e união de todos por um Paranapanema mais sustentável.

Neste momento foi possível contar com a presença de pessoas que participaram do kick off, entrevistas e diálogos ao longo dessa jornada e também com os professores Ana Carolina e Mário. Iniciamos apresentando as etapas que percorremos ao longo deste processo e os resultados da dinâmica dos seis chapéus do pensamento. A representante do Comitê de Bacias fez a leitura para o grupo da poesia composta em tradução ao que vivemos ao longo desse processo e a petição também foi apresentada.

Devolutiva

Deixamos como mensagem final uma pergunta: como manter o diálogo vivo para um rio mais sustentável ? Argumentamos que este passo depende de cada um que ali estava.

A FOZ

Deste momento, destacamos as seguintes contribuições e reflexões:

Que a crise vivida no reservatório precisa ser debatida pelo maior número possível de representantes daquela comunidade e que o Comitê de Crise é um espaço aberto para a promoção destas conversas;

O equilíbrio entre a geração de energia a manutenção do nível do reservatório em condições para o desenvolvimento da comunidade, somente será possível através do diálogo;

A clareza de que todos buscam um bem comum e que a dinâmica dos chapéus contribuiu para discriminar os sentimentos e ideias de forma equânime, permitindo a escuta sensível e evitando atritos desnecessários;

Apesar de termos registrado quase todas as conversas-escutas que tivemos e o diálogo em si, percebemos algo parecido com o que Shaw (2002) relata. O diálogo provocou mudanças nos participantes, na forma como eles se colocam, como entendem uns aos outros e as complexidades da Represa do Jurumirim. Isto não foi registrado, mas é possível percebê-lo e será difícil de mudar (SHAW, 2002). Assim como a autora, nós não evitamos ou ignoramos paradoxos, mas possibilitamos sua emergência e o compreendemos (SHAW, 2002).

Essa pequena intervenção que fizemos, mostrou que o diálogo é possível. O Comitê de Bacias do Paranapanema, representado pela Suraya, ficou com o compromisso de dar continuidade a essa conversa em Jurumirim. O grupo disponibilizou os materiais criados para que a própria comunidade possa decidir que rumo seguir com ele. A CTG Brasil já foi convidada a participar da primeira reunião que deve acontecer na próxima semana. O rio segue seco e todos estão preocupados sobre o futuro. Existe ainda muito conflito na região. No entanto, acreditamos que um primeiro para a transformação foi dado.

E se você chegou aqui, temos uma surpresa! Preparamos uma síntese estética dessa jornada. Uma brincadeira que traduz o sentimento desse grupo. Que no meio de toda a loucura que é essa pandemia, teve a sorte de estar navegando juntos. Espero que goste!

REFERÊNCIAS

ACIDENTE em Taguaí é o maior em número de mortes nas rodovias estaduais de SP em 22 anos. G1 SP e Globo News, São Paulo, 25 nov. 2020. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2020/11/25/acidente-na-regiao-de-avare-e-o-maior-em-numero-de-mortes-nas-rodovias-estaduais-de-sp-em-22-anos.ghtml. Acesso em: 11 dez. 2020.

BOHM, D. Diálogo, comunicação e redes de convivência. Palas Athena Editora, São Paulo, 1996. Pp. 27-67.

DE BONO, E. Os seus chapéus do pensamento. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

GANDHI, A. Prefácio. In: ROSENBERG, M. B. Comunicação não-violenta: técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais. São Paulo: Ágora, 2006. p. 13-16.

NICOLESCU, B. Contradição, Lógica do Terceiro Incluído e Níveis de Realidade. Ateliers sur la contradiction: Nouvelle force de développement en science et societé. École n.s. des mines: Saint-Etienne, 19-21 de março de 2009.

ROSA, João Guimarães. “A terceira margem do rio”. In: ______. Ficção completa: volume II. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 409-413. Disponível em: http://cogetes.epsjv.fiocruz.br/storage/Textos-e-Material-de-Apoio---4%C2%BA-Ano---Literatura---Gabrielle-n_5ee0d32b36f91.pdf. Acesso em: 11 dez. 2020.

ROSENBERG, M. B. Comunicação não-violenta: técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais. São Paulo: Ágora, 2006.

SHAW, P. Changing Conversations in Organizations. A complexity approach to change. Routledge, Abingdon, 2002. Chapter1: Changing Conversations, pp.1-22.

SCHARMER, O. Liderar a partir do futuro que emerge. Rio de Janeiro: Alta Books, 2019.

Crédito das Fotos: Henrique Manreza, Raylton Alves e Johannes Plenio

Credits:

Criado com imagens de cowins - "prairie river stream" • jplenio - "sunset ocean boat"