Um caminho para a transparência das relações inter-humanas
Todo o ser humano tem uma coisa em comum: necessita do outro para viver. Ninguém pode viver isolado da sociedade, porque é na sociedade, e com ela, que cada indivíduo descobre o sentido da sua vida. O humano, na sua singularidade, é, por excelência, um ser que, embora consciente da sua vocação à comunidade em que se incorpora, isto é, a de um ser chamado a ser e a estar com os outros, movido pelo seu individualismo exacerbado, almeja, a todo o custo, a sua prosperidade. Ora, com esta atitude, quanto mais o ser humano se julga superior em relação aos outros, mais esplendorosa considera que se torna a sua vida. Contudo, o desejo de buscar a excelência não é um problema, pois faz parte da vida e dignifica o ser humano. O problema desponta quando, para se chegar ao sucesso e ao esplendor da vida, se descarta tudo, incluído os humanos, como se o Mundo fosse criado unicamente para o eu. Esquecemo-nos de que o Mundo foi criado para o Nós. Esquecemo-nos de que, no princípio, eramos irmãos, eramos chamados a ser irmãos, a ser responsáveis uns pelos outros. Hoje, mais do que nunca, faz falta recordar a questão que Deus coloca a Caim após este matar o seu irmão: Deus pergunta: «onde está o teu irmão?», e a mesma pergunta pode ser feita hoje, em qualquer lugar onde haja um pingo de injustiça e discriminação social. Se virmos bem o que sucede com Caim, após o homicídio, podemos inferir que a nossa felicidade nunca provém da infelicidade dos outros, a nossa graça nunca vem da desgraça dos outros, uma vez que, se assim for, tal felicidade não passa de uma ilusão.
Um coração que não saiba ser fraterno é um coração vazio. Uma pessoa que não saiba ser irmão é uma pessoa estéril, sem vida. A fraternidade há de ser sempre o princípio sobre o qual se constroem as nossas sociedades e onde assenta a nossa liberdade, que nos abre as portas da solidariedade, que nos leva a viver a beleza da fraternidade e nos permite sentir o aroma do amor do Deus solidário, que nos quer também solidários uns para com os outros. Essa experiência de irmandade, essa consciência de que todos somos parte da Família Humana, predispõe-nos a cultivar a cultura de encontro onde se cultivam os laços da fraternidade. Somos todos chamados à transparecia social, a sermos, a fazermos, a pensarmos, a sentirmos e a dizermos. Só desta forma seremos verdadeiramente irmãos e, como irmãos, é preciso estarmos atentos aos gritos desesperados dos inocentes, aos gemidos dos pobres, às lágrimas daqueles que não têm voz nem vez para se afirmarem. É preciso cultivar uma fraternidade transparente que defenda o inocente da injustiça deste mundo. Que defenda a vida, repudie as guerras e promova a paz. Uma fraternidade que é capaz de reconhecer em cada ser humano a imagem do Deus que ama a diversidade que habita a Sua criação e que nos convida a amarmo-nos na diferença.
Um coração que não saiba ser fraterno é um coração vazio. Uma pessoa que não saiba ser irmão é uma pessoa estéril, sem vida.
Que a aspiração de uma sociedade fraterna, justa, pacífica e solidária comece por transformar os nossos corações para que, por sua vez, estes possam transformar o mundo que habitamos, porque só um coração transformado e configurado em Cristo pode transformar.