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O dulçor 'fortíssimo' da maestrina que venceu as desconfianças Glicínia Mendes, regente do Coral do Senado, compartilha parte de sua trajetória e das vivências na música em mais de 35 anos de carreira

Em uma área ocupada majoritariamente por homens, a da regência de orquestras e coros, o Coral do Senado é exemplo de equidade, pois a liderança fica a cargo de uma mulher: a maestrina Glicínia Mendes. Com apenas sete anos de idade, Glicínia já iniciava sua alfabetização musical. Na adolescência, foi aluna do Conservatório de Música da Universidade Federal de Goiás (UFG), em Goiânia. Concluiu o curso básico de música e, logo em seguida, o curso de Letras Modernas com habilitação em Inglês na mesma universidade. O caminho no mundo da música, porém, nem sempre foi suave.

Em 1980, Glicínia veio para o Distrito Federal aprovada para cursar o bacharelado em Composição e Regência na Universidade de Brasília (UnB), sob a orientação do maestro Cláudio Santoro. Além do bacharelado, concluiu também o curso de Licenciatura em Música. Cinco anos mais tarde, iniciou sua carreira como maestrina que continua até hoje. Atuou por 29 anos na Escola de Música de Brasília na área de regência coral e orquestral. Além disto, foi professora e coordenadora de orquestras em escolas no ensino médio no DF.

Desafios – Mesmo com capacitação, Glicínia conta que foi difícil iniciar sua carreira profissional em uma área onde não havia atuação feminina, principalmente como regente de orquestra.

Na época que iniciei minhas atividades de maestrina, poucas mulheres atuavam profissionalmente. Em especial como regentes de orquestras. No início, percebia olhares e mesmo atitudes que me mostravam com clareza a dúvida e também a falta de confiança de que eu conseguiria êxito na direção dos grupos – recorda.

As dúvidas lançadas não foram maiores que o seu desejo de alcançar cada vez mais lugares de projeção. Para Glicínia, o apoio que recebeu durante suas atuações, além de cada inspiração, foram essenciais para a persistência que manteve durante sua trajetória.

– Não posso me esquecer dos sorrisos e apoio explícito quando eu chegava à frente de muitos destes com que atuei. O mais importante de tudo é que nunca desisti e que aproveitei cada conselho, cada exemplo de músicos mais experientes, pessoas especialíssimas que encontrei pelo caminho – avalia Glicínia.

Glicínia relata que foi necessária firmeza para se impor no início da profissão (Crédito: reprodução Correio Braziliense)
Glicínia em um dos ensaios da ópera Carmen, montada pelo Departamento de Música da UnB em 2005

A rotina do Coral – Como maestrina do Coral do Senado, Glicínia conta que a rotina em tempos de trabalho presencial exige dedicação. Elaboração de projetos, programação de repertório, atendimentos individuais e ensaios gerais são algumas das tarefas desenvolvidas por ela. A rotina de administração do grupo também é exigente, afirma. Segundo ela, sua programação básica consiste em atender demandas da Casa por meio de convites dos senadores e de órgãos através de diretores e funcionários. As apresentações são realizadas frequentemente, tanto no Plenário quanto nas demais dependências do Senado. O grupo também desenvolve projetos que consistem em atender a convites de apresentação em outras instituições públicas e privadas. Anualmente, é realizada uma viagem para representar culturalmente o Senado pelo Brasil e pelo exterior, e são realizadas apresentações didáticas em escolas pelo DF e visitas de acolhimento em entidades de apoio à criança e ao idoso.

Concertos com orquestras da Escola de Música de Brasília com grupos de alunos iniciantes, com a Orquestra Sinfônica e coros da escola, fazem parte da sua coleção de atuações memoráveis à frente do Coral, que em 2021 completou 25 anos de existência. Com a pandemia, os ensaios do grupo precisaram seguir as medidas de restrição e segurança. Dessa forma, os encontros não puderam ser realizados de forma presencial, deixando a saudade ainda maior. Assim, Glicínia fala sobre a expectativa para o Coral para um futuro próximo:

— Ah! Voltar às atividades presenciais, fazer música coral na sua essência. Cantar em coro, além do encontro consigo, é vivenciar o encontro com 'o outro'. Não só o encontro de pessoas em sintonia, mas de corações e almas que procuram a essência da vida, da entrega de si pelo bem coletivo, pela união entre todos, pela realização da arte, pela evolução da sensibilidade através do canto.

Por fim, a maestrina afirma: “O Coral do Senado é um grupo de cantores muito dedicados. Cantar em coro é atividade bem complexa e exige muito estudo, preparo individual e ensaios em grupo.

Confira, abaixo, alguns registros da trajetória da maestrina com o Coral do Senado:

Fotos: Agência Senado
Fotos: Agência Senado
Fotos: Agência Senado

Direitos femininos – Em agosto do ano passado, a diretoria do Coral do Senado fez uma reunião com a diretora-geral, Ilana Trombka, enquanto aguardava a finalização do primeiro vídeo gravado de forma virtual pelo grupo durante a pandemia. Enquanto contavam sobre a recente experiência de uma produção totalmente virtual, a diretora-geral sugeriu que o próximo vídeo a ser produzido fosse voltado à temática da luta da valorização dos direitos da mulher e também contra a violência sofrida em diversos espaços.

Imediatamente a direção do Coral adotou a ideia e saiu em busca de viabilizá-la. Por indicação do colega aposentado, amigo e tenor, Helival Rios (ex-Agência Senado/SECOM), procuraram o professor da UnB Luiz Martins Da Silva, que também encampou a ideia e se comprometeu a elaborar um poema. Glicínia escolheu a música "Se todos fossem iguais a você”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, e elaborou o arranjo que foi interpretado pelos integrantes do coro e serviu de fundo durante a declamação do poema. A doçura, que é uma das características de Glicínia reconhecida por quem convive com ela, lhe pregou uma agradável peça. Quando foi ao encontro do autor para buscar o poema veio a surpresa: ele foi escrito sobre uma aquarela pintada pelo professor e continha uma dedicatória à maestrina.

Conteúdo pronto, foi iniciado o trabalho para a gravação. O processo se deu de modo quase totalmente virtual, os ensaios foram realizados de forma remota devido ao distanciamento imposto pela pandemia, assim como a edição do vídeo. Um registro que se faz necessário é que os próprios integrantes do Coral se cotizaram para custear as despesas de edição da produção. Desde novembro do ano passado, o grupo vinha se empenhando para fazer o lançamento do vídeo, mas havia questões envolvendo direito de uso de imagem de todos os participantes que precisaram ser resolvidas. A melhor oportunidade surgiu no mês de março, que costuma ser especialmente dedicado às causas femininas.

Glicínia reconhece o papel importante do espaço cedido pelo Senado Federal para realização do lançamento: "O Senado como instituição pública que acolhe o povo brasileiro em sua totalidade de maneira imparcial e acolhedora, nos proporcionou espaço para o lançamento deste 2º vídeo chamado Rios Voadores". Confira o vídeo abaixo:

Maestrinas na história
  • De acordo com dados da Agência Brasil, Francisca Edwiges Neves Gonzaga foi a primeira maestrina brasileira. Mais conhecida como Chiquinha Gonzaga, sua importância foi tão grande para a música nacional que o dia do seu aniversário foi escolhido para instituir o Dia da Música Popular Brasileira.
  • Antonia Brico foi a primeira mulher do mundo a reger uma orquestra, em fevereiro de 1930 na Orquestra Filarmônica de Berlim.
  • A Orquestra Sinfônica Brasileira foi a primeira orquestra do país, criada em 1940, atualmente é uma das mais importantes e referência no Brasil.

Credits:

Criado com uma imagem de Art of Success - "Hands of an orchestra conductor"