Texto: Marcos Kontze, Gabriel Pfeifer. Diagramação: Lucas Cirolini e Maria Vitória Pafiadache. Fotos: Marcos Kontze.
Ao contrário do que ouvimos falar no dito popular de que religião e espiritualidade não se discutem, vamos discutir este tema muitas vezes considerado um tabu e ao mesmo tempo uma vivência diária para outros, a espiritualidade na vida das pessoas. E antes de você virar a página, falaremos sobre algumas das principais religiões praticadas no país que seguem a doutrina cristã como base de sua crença.
Denominações cristãs são o que chamamos de diferentes vertentes do Cristianismo que funcionam com um nome, uma estrutura e uma doutrina própria. De certo modo, são considerados versões da mesma coisa, apesar de suas características distintas. Mas nem todas as denominações ensinam isso. De acordo com o teólogo Peri Clóvis, "a maioria dos cristãos pertencem a Igrejas que aceitam outras congregações, e entendem essa multiplicação de vertentes como um problema, e aí que entram as divergências". Há também outros grupos que são vistos como incrédulos e hereges por praticamente todos os outros. No entanto quando há denominações, a conciliação de teorias ou a fusão de diferentes cultos ou doutrinas religiosas, é o que chamamos de Ecumenismo, um movimento favorável à união de todas as igrejas cristãs. Clóvis explica que o Ecumenismo "é um processo de entendimento que reconhece e respeita a diversidade entre as igrejas, cada vez mais necessário na sociedade em que vivemos". A ideia dessa prática é justamente a de reunir o mundo cristão, mesmo com suas vertentes.
As diferentes versões do Cristianismo
As divisões mais básicas no cristianismo contemporâneo ocorrem entre a Igreja Católica Romana, a Igreja Católica Ortodoxa e as várias denominações formadas durante e depois da Reforma Protestante, movimento que teve início do século XVI na Europa Central com Martinho Lutero. Essa reforma foi vista como um protesto contra as doutrinas da Igreja Católica, e propunha uma reforma no Catolicismo Romano, dominante naquela época. Apesar das semelhanças com o Catolicismo, como a Bíblia sendo a fonte de sua fé, o Protestantismo condenava as imagens de santos, suspendeu o celibato e proibiu o latim nas celebrações. Com isso, deu-se origem a diferentes correntes religiosas, e igrejas clássicas surgiram com a reforma, como a Presbiteriana, a Batista e a Metodista.
Por outro lado, o Pentecostalismo, originado nos Estados Unidos, aceita a manifestação do Espírito Santo, assim como a Congregação Cristã, a Assembleia de Deus, Deus é Amor e Evangelho Quadrangular, conhecidas no Brasil por costumes rígidos. Já o Neopentecostalismo prega uma visão liberal quanto aos costumes. Aqui no país as mais conhecidas são a Igreja Universal do Reino de Deus, a Igreja Renascer em Cristo e a Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra.
Igreja Romana X Igreja Ortodoxa
Com relação às diferenças entre a Igreja Católica Romana e a Igreja Católica Ortodoxa, podemos citar algumas: enquanto os romanos seguem rigorosamente a figura do Papa como um líder, os ortodoxos são mais independentes. Se por um lado não negam a importância de um líder cristão, por outro também não reconhecem o Papa como uma autoridade e um cargo máximo, já que o que prevalece é a unidade e independência da igreja. Peri Clóvis explica que "as diferenças entre Ortodoxia e Catolicismo são basicamente culturais e hierárquicas, enquanto as denominações Protestantes apresentam diferenças teológicas mais acentuadas".
Objetos comuns em templos religiosos, as cruzes nas igrejas também são outro diferencial. Enquanto a Cruz Romana possui apenas uma barra, a Ortodoxa possui três, sendo uma delas adicional em cima e outra em baixo. De acordo com os Ortodoxos, a barra adicional em cima foi colocada por acreditarem que teria servido para a famosa inscrição INRI (Iēsus Nazarēnus, Rēx Iūdaeōrum), abreviação de Jesus de Nazaré em Latim. Entretanto, o crucifixo de Jesus Cristo aparece somente em forma de pintura na Igreja Ortodoxa, visto que a mesma rejeita o uso de estátuas de santos, ao contrário da Romana que não apresenta nenhuma restrição quanto ao seu uso.
A barra de baixo teria recebido os pés de Cristo, que teriam sido pregados em separado e não juntos, ao contrário do que defende o Catolicismo Romano. Vale lembrar que ambas as Igrejas eram uma só até o final do século X. Entretanto, devido a muitas divergências entre os cristãos do ocidente e do oriente, principalmente quanto a língua oficial, já que os ocidentais queriam o latim, enquanto os do oriente não abriam mão do grego e do hebraico, uma separação das igrejas foi feita em 1504, e criada a Cisma do Oriente, com Romanos radicando para o oeste e ortodoxos para a Europa Oriental, na Grécia e Turquia.
Além das diferenças já mencionadas, outras dissidências diferenciam o Catolicismo Romano do Catolicismo Ortodoxo (Oriente). O polêmico voto de castidade, que até hoje é motivo de dúvidas entre muita gente, é obrigatório apenas para os padres católicos. "Assim como os diferentes dias de Quaresma para cada igreja, essa é só mais uma das diferenças entre as vertentes cristãs, já que na Igreja Ortodoxa, apenas o Bispo é obrigado a seguir o voto de castidade. O padre é livre para escolher.”, explica o teólogo. “Já na Igreja Romana, todos os sacerdotes devem seguir obrigatoriamente o voto de castidade.”, destaca.
A ordem Franciscana e o Cristianismo
No Século XI na cidade de Assis na Itália, um jovem chamado Giovanni di Pietro di Bernardone, o São Francisco de Assis, filho de um rico comerciante, recebe um chamado de Deus, que do crucifixo de São Damião lhe envia: "Vá e reconstrua a minha Igreja". Diante deste chamado, Francisco se converte ao Cristianismo e funda a Ordem Religiosa dos Frades Menores, também conhecida como Ordem Franciscana ou Franciscanismo , uma ordem que se espalhou pelo mundo inteiro com a proposta de que seus membros devem seguir de acordo com o espírito de seu fundador São Francisco de Assis, uma vida sem luxúria, extremamente simples, em pregação, dando exemplos de humildade e devoção. Os Franciscanos vivem em conventos geralmente dentro das cidades, e o Franciscanismo tem uma enorme influência dentro do Cristianismo: "O Cristianismo e o Franciscanismo fazem esta grande aliança. O Franciscanismo anuncia o Cristianismo, anuncia a vida, a paz e o bem”, conta Frei Valdir Pretto, teólogo e fundador da pastoral Universitária Ser Unifra do Centro Universitário Franciscano. Frei Valdir também é professor do curso de Pedagogia na instituição.
Anunciando a vida, a paz e o bem, o Franciscanismo está anunciando o nome de Jesus Cristo e o cuidado com a vida. Frei Valdir explica também que é a partir da conversão de Francisco de Assis que ocorre um “casamento” entre a Ordem Franciscana e o Cristianismo: "É a partir dai que surge a essência de uma espiritualidade, uma espiritualidade que acredita, uma espiritualidade que cuida da vida e uma espiritualidade que contempla toda a natureza humana”.
Ou seja, é a partir do Franciscanismo que surgiu a essência cristã, de acreditar na figura de Deus e no cuidado com a vida. Com o lema Franciscano “Paz e Bem”, o Centro Universitário Franciscano mantém essa doutrina com celebrações eucarísticas e grupo de oração universitária na Capela São Francisco de Assis, inaugurada no dia 18 de dezembro do ano passado. As missas, abertas ao público, ocorrem todas as quartas-feiras em dois horários: às 11h e às 17h30. Já o grupo de oração se reúne todas as quintas-feiras de manhã, das 9h15 às 9h40.
O QUE É SER UNIFRA?
Você já ouviu falar de pastorais universitárias? Sabe o que são e quais suas reais funções dentro de uma instituição? Nem todos os universitários tem conhecimento sobre as suas existências e seu funcionamento. Uma pastoral universitária é um espaço formado por estudantes universitários de diversos cursos que buscam compartilhar a fé, cultivar a espiritualidade e refletir sobre a vida através de encontros.
Fundada há cinco anos pelo Frei Valdir Pretto, surgiu a Pastoral Universitária do Centro Universitário Franciscano. Inicialmente chamada de Pastoral Universitária, mudou de nome para buscar uma maior identidade entre os acadêmicos. "A mudança aconteceu a partir de uma reunião das irmãs franciscanas e com o Frei Valdir, fundador da pastoral. Foi então que decidiu-se mudar o nome para Ser Unifra, para ter uma maior aproximação com os acadêmicos”, conta o filósofo Tércio Michael, secretário adjunto da Ser Unifra. Michael é responsável por organizar e agendar as missas semanais na nova capela da instituição, celebrações de formatura, além de promover grupos de encontro entre os estudantes na capela toda a quinta-feira. São encontros que oportunizam aos acadêmicos uma maior vivência dentro da instituição. A ideia é dar uma maior dimensão ao ambiente universitário, indo além da questão de estudos e pesquisas científicas, fazendo com que o estudante conheça melhor o seu lado humano e espiritual, além de proporcionar um espaço de reflexão e interação. Este é o papel da Ser Unifra.
Mesmo o Centro Universitário Franciscano sendo uma instituição católica, a Ser Unifra trabalha a espiritualidade como um todo, independente de sua religião. "A intenção é trabalhar o lado ecumênico, da espiritualidade, e não a religião. Não queremos levantar nenhuma bandeira, apesar de a instituição ser de religião católica. Queremos acolher a todos, independente da religião”, destaca Michael.