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Avanço no saneamento gera desenvolvimento socioeconômico para população de Teresina A zona urbana de Teresina já não sofre com a falta de água desde 2020. Agora, o maior desafio é garantir a universalização do esgotamento sanitário na capital do Piauí

Por Jorge Machado e Emelly Alves

A desigualdade social pode se esconder em uma poça d’água. Um olhar mais apurado pode revelar o reflexo de quem convive diariamente com um esgoto na porta de casa. Ele é como um vizinho invasivo: entra na residência sem pedir. Em situações como essa, o simples ato de passear com a filha no carrinho de bebê se torna um problema.

Moradores da Terra Prometida convivem com esgoto a céu aberto (Foto: Jailson Soares/ODIA)

No Residencial Terra Prometida, localizado na Zona Sul de Teresina, quem empurra e pede ajuda com o carrinho em meio ao esgoto é Tainara da Silva, de 20 anos. Entre buracos lamacentos que tornam o caminho da Rua Andorinhas dificultoso, a jovem mãe comenta sobre o quão difícil é viver em uma situação que desafia a dignidade humana, o próprio direito de ir e vir e ter condições básicas - e vitais - para a existência.

Ao desabafar, Tainara destaca que já não sabe o quanto gastou com medicamentos por conta de enfermidades que são facilmente acometidas na região. Esgotos a céu aberto acabam tornando-se pratos cheios para Doenças de Veiculação Hídrica - no qual a água é um importante veículo de transmissão. Diarreia, malária, dengue e leptospirose, por exemplo, são consequências diretas da carência de um tratamento de esgoto adequado. Dados do DataSus revelam que, apenas em 2020, mais de 5 mil piauienses foram internados devido a essas doenças. Desses, 40 vieram a óbito.

Com apenas o esposo trabalhando de maneira informal, a jovem espera por dias melhores onde vive. “Eu passo todos os dias por aqui e sempre tem lama e esgoto para todos os lados. Essa mesma água cai no rio. Já gastei muito com medicamentos para o meu esposo por causa desse esgoto, já tive que ficar várias vezes na casa do meu avô, em Timon”, relata.

O saneamento básico é um importante elemento para o desenvolvimento socioeconômico de uma nação. No entanto, sua ausência em determinados locais é uma realidade que ainda desafia todo o Brasil. De acordo com dados da 14ª edição do Ranking do Saneamento, divulgado pelo Instituto Trata Brasil, 100 milhões de pessoas não têm acesso ao serviço no país. Já o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) aponta que, em 2020, 45% dos brasileiros não possuíam acesso à esgotamento sanitário.

Somente no Piauí, mais de 82% das famílias vivem em meio ao esgoto não tratado. Além de ser prejudicial à qualidade de vida e saúde da população, a escassez de coleta e tratamento de esgoto também afeta o meio ambiente, uma vez que, sem esses serviços, os dejetos são jogados diretamente na natureza.

Neste triste panorama, as famílias de baixa renda são as principais vítimas. Segundo um estudo realizado pelo Instituto Trata Brasil, 90% dos esgotos localizados em construções irregulares - como invasões, favelas e loteamentos - não são coletados. Esses locais, por sua vez, concentram as parcelas mais vulneráveis da população, que acabam não sendo contempladas com um direito fundamental quanto o saneamento.

Para a advogada especialista em saúde pública e saneamento básico, Maíra Barreto, a preocupação com o serviço deve ser uma prioridade nos locais periféricos das grandes cidades. “Esse é um direito primordial e não podemos permitir que seres humanos deixem de progredir por não ter um elemento básico como saneamento”, disse.

Na Terra Prometida, várias histórias de vida são impactadas pela falta de esgotamento sanitário. O soldador Maurício Carvalho Lima, de 35 anos, relata que a água suja já impediu sua filha de ir à escola e, consequentemente, afetou no seu estudo e produtividade.

Maurício Carvalho Lima relata dificuldades para transitar com a filha pequena devido à ausência de esgotamento sanitário (Foto: Jailson Soares/ODIA)

A educação infantil é um dos pilares impactados pela falta de saneamento básico. Um estudo divulgado pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) aponta que estudantes sem acesso a esses serviços geralmente têm atraso escolar. A pesquisa concluiu que o índice de alunos com este problema poderia ser reduzido em 6,8% a partir da universalização do esgotamento sanitário.

“Nunca faltou água aqui dentro de casa. Já do lado de fora, temos que lidar com muitas situações. Eu já tive que faltar ao trabalho para acompanhar minha filha ao médico e, em época de chuva, sair de casa por causa da enchente que se formou. Esse é um problema recorrente na região”,disse.

Falta de coleta de esgoto adequado prejudica educação infantil (Charge: JOTA A)

Complexos cenários como esse são comuns em todo o Brasil. Por isso, em 2020 foi sancionado o Novo Marco Legal do Saneamento Básico. A Lei de número 14.026 instituiu diretrizes para universalizar o saneamento básico em todo país: em 10 anos, 99% da população brasileira deverá ter acesso à água tratada e 90% à esgotamento sanitário.

Apesar de desafiadora, a meta tem impulsionado mudanças. Na capital do Piauí, a Águas de Teresina, empresa responsável pelo abastecimento de água e coleta de esgoto na zona urbana, universalizou o acesso à água potável em 2020. Hoje, mais de 1 milhão de teresinenses contam com o serviço. Agora, a concessionária tem como principal foco ampliar a cobertura de esgotamento sanitário. Desde que a companhia assumiu a gestão em 2017, o índice de esgotamento mais que dobrou, subindo de 19% para 42,6%. Com novos investimentos, o número deve crescer para 59% em 2024 e completar 90% em 2033.

“Agora nosso olhar está voltado para o esgotamento sanitário e já começamos um forte trabalho nessa área. Até 2033 chegaremos a universalização do tratamento e coleta de esgoto. Isso significa tudo, pois é uma melhora expressiva na qualidade de vida das pessoas, trazendo mais saúde, educação, dignidade, valorização, turismo e novos investimentos de indústria”, afirma o diretor presidente da Águas de Teresina, Jacy Prado.

De acordo com a empresa, garantir o acesso dos teresinenses à coleta de esgoto tem sido um dos maiores desafios. Hoje, a cidade conta com uma infraestrutura de 656,498 km de redes coletoras e, pensando na expansão, a Águas de Teresina tem investido mais de 80% dos seus recursos em obras de readequação das Estações de Tratamento de Esgotos (ETEs), com a reativação de geradores, instalação de equipamentos reserva e modernização das unidades.

Outra ação desenvolvida pela Águas de Teresina é o controle das perdas. A empresa tem buscado reduzir os custos gerados por vazamentos e, assim, usar os recursos para investir em outras áreas do saneamento. "Já contamos com equipamentos para identificar vazamentos não visíveis, debaixo da terra. Então imagina um ano de água sendo despedaçada? Gera um custo muito grande para a gente que poderia estar sendo aplicado em outro setor, como o da saúde, por exemplo. Com investimentos em equipamentos e tecnologia, desde de 2017, as perdas caíram de 60% para 40% e estamos trabalhando para diminuir ainda mais esse índice”, acrescenta Jacy Prado.

Além disso, recentemente a companhia inaugurou a Estação Elevatória de Esgoto (EEE) do bairro Itaperu, na zona Norte de Teresina. Este sistema tem importante papel nos locais em que há disponível de solo, visto que atua na transferência de desejos de um ponto mais baixo para um mais elevado. Assim, ocorre o tratamento de efluentes de forma correta. Atualmente, a capital possui 53 estações elevatórias e 21 estações de tratamento de esgotamento sanitário.

Criação da Estação Elevatória de Esgoto beneficia mais de 12 mil moradores da Zona Norte de Teresina (Foto: Assis Fernandes/ODIA)
“Nós temos um casamento de 30 anos com a cidade. É uma licença social que só acontece quando ouvimos os problemas das comunidades e nos aproximamos dela. Estamos buscando modernizar e ampliar o sistema de esgoto em cada uma das zonas da capital, o que irá impactar positivamente no seu desenvolvimento”, reforça o diretor.

Para que realidades como a do Residencial Terra Prometida possa mudar, é necessário que o poder público ande de mãos dadas com a iniciativa privada e também se responsabilize a atuar no avanço do saneamento básico em Teresina. Sobre o assunto, Jacy Prado ressalta que, muitas vezes, o trabalho da Águas de Teresina é confundido com áreas que são de competência de outros setores. A empresa não é responsável, por exemplo, pelos serviços de drenagem e pavimentação. “Apesar do nosso setor ser água e esgoto, somos confundidos com outros serviços que muitas vezes não temos responsabilidade, mas escutamos e explicamos para a população da melhor forma”.

Com a cidade saneada, abre-se um leque de possibilidades que a elevam o desenvolvimento socioeconômico da cidade. A partir destes investimentos, Teresina caminha para se tornar "a primeira capital do Nordeste universalizada no quesito saneamento", completa o gestor.

“Cuidar do saneamento é cuidar das pessoas e da natureza, preservando nossos recursos e tratando de maneira correta os dejetos. Queremos que a capital também seja referência em meio ambiente”, finaliza.

Valorização imobiliária e sua relação com o saneamento

Mais do que propiciar acesso à água e coleta de esgoto, o saneamento básico impacta em diversas outras áreas da sociedade, como educação, saúde, economia e desenvolvimento social. Além disso, ele fomenta o mercado imobiliário, visto que locais com tratamento de água e esgoto, limpeza adequada e outros serviços de saneamento são 16% mais valorizados que aqueles que não os possuem.

Mercado imobiliário é impactado diretamente pelos serviços de água e esgoto (Foto: Jailson Soares/ODIA)

No bairro Bela Vista, Zona Sul de Teresina, a doméstica Socorro Gomes, de 54 anos, viu a residência em que mora com o esposo e a filha triplicar o valor ao longo dos anos. “Minha casa valorizou e hoje vale três vezes mais do que no período que comprei. Acredito sim que esteja ligado a todos esses fatores, como água potável encanada e o esgoto sendo direcionado para o local correto. Isso tudo se alia, claro, a pavimentação da rua e iluminação”, conta a moradora.

Com melhor infraestrutura, bares, restaurantes e grandes redes de supermercados se instalaram na região - o que movimentou a economia do bairro.

“É muito bom ter comércio e supermercados próximos. Isso evita que a gente tenha que se deslocar para outras regiões tendo que gastar com transporte por aplicativo ou táxi para comprar alguma coisa. É uma evolução que beneficia a todos”, conta.

Nas ruas do Bela Vista, a estudante de Direito, Rayssa Luanna, de 21 anos, todos os dias sai para passear com seus dois animais de estimação. A jovem descreve que esse momento representa mais que lazer. E isso só é possível por causa do saneamento, uma vez que locais lamacentos, com buracos e outros problemas impossibilitam que as pessoas transitem normalmente pelas ruas.

“Sempre levo os meus cachorros para a pracinha aqui perto de casa. É um momento em que eles se sentem livres e conseguem brincar. Isso com certeza não seria possível sem o saneamento básico. Se a lama, esgoto e lixo afetam diretamente a nossa qualidade de vida, imagina a dos animais. Por isso , eu acho que saneamento também é saúde”, finaliza.

Para a Águas de Teresina, a valorização imobiliária é um dos principais indicadores impactados pelo avanço do saneamento na cidade. “Temos metas bastante assertivas no que diz respeito ao regulamento desse setor. Melhorias como essa são reflexos da expansão do saneamento na cidade e trazem uma vida mais digna as pessoas”, destaca o diretor presidente.

Turismo é impulsionado por melhorias no saneamento

O saneamento básico está conectado a todos os setores da sociedade, inclusive ao turismo, uma vez que a existência ou não de coleta de esgoto e acesso à água potável influencia na escolha dos visitantes. De acordo com levantamento do CEBD, o país deve lucrar R$7 bilhões em turismo com a universalização do serviço.

Na Zona Norte de Teresina está localizada uma das maiores expressões do artesanato piauiense: as cerâmicas. Artistas do Pólo Cerâmico do bairro Poti Velho recebem pessoas do mundo inteiro para conhecer de perto as cerâmicas de argilas. É exclusivamente dessa arte milenar que 284 artesãos, entre homens e mulheres, sobrevivem desde a década de 1960. O local conta com 51 unidades de comercialização de peças e hoje é considerado patrimônio cultural da cidade numa região em que, antigamente, existia apenas uma vila de pescadores.

A artesã e presidente da Cooperativa de Artesanato do Poti Velho, Raimunda Teixeira da Silva, conhecida como Raimundinha, é uma das pioneiras no Pólo Cerâmico de Teresina. Ela explica que a chegada do saneamento básico foi essencial para o crescimento do turismo na região. Segundo Raimundinha, ter água de qualidade para modelar as peças e a argila em boas condições retirada dos rios Poti e Parnaíba são essenciais para a continuidade do ponto turístico.

“É importante ter uma água de qualidade porque a nossa matéria prima precisa da água para poder modelar e ela é utilizada constantemente no nosso dia a dia. Graças a Deus , a gente aqui no Pólo Cerâmico, somos bem assistidos com água encanada e serviço de esgoto. Isso com certeza fortalece a nossa produção e também traz comodidade para que os nossos turistas e visitantes aqui de Teresina possam vir e ter um conforto maior”, ressalta.

Com mais de 30 anos de profissão, Antônio Carlos, de 45 anos, relata que não conseguiria viver sem produzir. Para ele, a argila está no sangue, faz parte do DNA. “A minha vida depende da arte e sem o artesanato eu não existo. Não consigo imaginar o que seria de mim sem a argila, sem meter a mão na massa, sem produzir as minhas especialidades que são as mandalas. Já vendi peças para pessoas de outros estados e até de outros países”, conclui.

Artesãos dependem exclusivamente do turismo para obter renda (Foto: Assis Fernandes/ODIA)
"Investir no saneamento básico é garantir a expansão de diversos setores da sociedade, como o turismo. Para isso, é necessário que as cidades contem com a estrutura necessária a fim de receber turistas e visitantes. Além disso, o turismo é extremamente importante para o desenvolvimento socioeconômico de uma região", diz a advogada Maíra Barreto.

Saneamento básico no combate às doenças

Para além de ter água saindo livremente pelas torneiras ou tratamento de esgoto adequado, o saneamento básico significa, no mais fiel dos sinônimos, saúde pública. É a consequência máxima do bem-estar físico, mental e social de um cidadão capaz de medir a evolução do homem no mundo.

Doenças de Veiculação Hídrica potencializam-se em ambientes não saneados (Foto: Jailson Soares/ODIA)

A ausência de água potável e esgotamento sanitário acentua a propagação de doenças que seriam mais facilmente controláveis em regiões saneadas. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a cada um dólar aplicado em saneamento básico, economiza-se quatro dólares em gastos com saúde pública. No Brasil, 4 de 5 doenças poderiam ser evitadas se existisse um tratamento de esgoto adequado.

“Nós temos a falta desses direitos básicos interferindo não somente no meio ambiente, como também na economia pública na saúde pública”, completa a advogada Maíra Barreto.

Na capital piauiense, os investimentos em saneamento básico por parte da empresa Águas de Teresina geraram impactos significativos na área da saúde como diminuição nos casos de dengue e internações hospitalares por diarreia que caíram em mais de 60% desde 2017. Além disso, durante o período mais crítico da pandemia da Covid-19 foi ampliada a cobertura de água - essencial no combate à doença nas zonas mais carentes da capital.

“As pessoas hoje não precisam estocar água em suas residências e isso evita água parada e qualquer tipo de contaminação. A diminuição nos casos de dengue e diarreia é também consequência da qualidade da água. A pandemia foi algo novo no mundo e tentamos fazer o possível que cabe a nós: levar saúde. A gente sabia que a população mais carente seria a mais afetada”, disse Fernando Lima, diretor executivo da Águas de Teresina.

Por ter efeito prático na saúde, sobretudo, na qualidade de vida das pessoas, uma das alternativas adotadas pela Águas de Teresina diz respeito à conscientização do saneamento básico. Falar sobre o problema também é uma forma de sensibilizar e chamar a atenção para a importância da gestão da água e tratamento de esgoto na cidade.

Diretor Executivo da Águas de Teresina reforça comprometimento da empresa coma saúde da população (Foto: Assis Fernandes/ODIA)

“Para além do trabalho de comunicação visual e matérias explicativas, temos programas que falam sobre saneamento. O Saúde Nota 10 com gestores que vão às escolas para falar sobre como funciona todo o processo de saneamento. Outro é o Portas Abertas que recebe estudantes e instituições de Teresina para conhecer tudo que envolve o tratamento de água e esgoto. Todo esse trabalho para explicar o saneamento também é para sensibilizar a sociedade. A população precisa estar ciente do trabalho que a gente faz”, conclui Fernando Lima.