Esse relatório tem como objetivo sistematizar os conhecimentos gerados pelos Projetos Referência dos grupos que passam pela Formação Integrada para Sustentabilidade no contexto do Mestrado Profissional em Gestão para Competitividade da FGV EAESP.
Formação Integrada para Sustentabilidade
MISSÃO . criar condições para fazer emergir um sujeito consciente e engajado consigo mesmo, na relação com os outros e com o todo, com sensibilidade, inteligência prática e fundamentação teórica em sustentabilidade.
Como a Formação Integrada funciona na prática?
Compreendemos que aprender é uma capacidade intrínseca e constantemente presente em nossa vida. Estamos sempre, como aprendentes, nos desenvolvendo, em constante processo de produção de nós mesmos num processo que se dá de maneira integrada: pelo o que nos acontece de fora para dentro, e pelo que percebemos, sentimos e compreendemos de dentro para fora. Visando a emergência deste sujeito mais integrado, nos baseamos em em princípios da Transdisciplinaridade, buscando combinar conteúdos e atividades que promovam:
Espaços para o processo pessoal de produção de sentidos de cada sujeito (autoformação), para troca e aprendizagem pelas relações do grupo (heteroformação) e para aprendizagem pelo contato com o ambiente e o conjunto de relações complexas que nele acontecem (ecoformação).
Condições para a vivência e a expressão do conhecimento por meio não apenas de conceitos e teorias (razão formal), mas também por meio de projetos aplicados, viagens de campo e outras experiências práticas (razão experiencial) e atividades de cunho corporal, artístico, reflexivo e contemplativo (razão sensível).
Nosso processo estrutura-se ao redor de dois eixos:
Projeto de Si Mesmo: atividades, vivências e conceitos que buscam provocar nos alunos uma percepção ampliada de si mesmos, dos outros e da realidade, ativando, expandindo e contribuindo com a apropriação do seu potencial sensível/perceptivo, reflexivo e criativo. Ao longo dos três semestres da Formação Integrada esperamos que os alunos possam:
- Desenvolver linguagem para perceber, abordar e atuar numa realidade complexa (multirreferencial e muldimensional);
- Integrar a dimensão subjetiva e sensível como fonte de conhecimento;
- Incorporar o diálogo como atitude de abordagem ética;
- Reconhecer a complexidade da realidade e identificar seus diferentes níveis e perspectivas/paradigmas.
Projeto Referência: projetos voltados a desafios reais, onde conhecimentos de gestão possam ser ampliados e aplicados sob a ótica da sustentabilidade. Os semestres I e II terão um Projeto Referência diferente, o qual será proposto e selecionado pelo próprio grupo. De maneira geral, o tema do PR deve estar relacionado à dimensão trabalhada no semestre e oferecer uma entrega prática e aplicável. Por seu caráter altamente prático e experiencial, o PR oferece uma oportunidade singular para o grupo entrar em contato direto com situações complexas, que envolvem diversas realidades, atores e variáveis, e onde não há respostas óbvias e prontas. Ao final do semestre, a entrega do projeto é apreciada por convidados externos e avaliada pelo próprio grupo e pelos professores da disciplina, conforme critérios de avaliação detalhados abaixo. Por meio do PR, esperamos que os alunos possam:
- Ampliar sua percepção sobre a realidade e suas relações, por meio do entendimento e da busca por soluções práticas a desafios reais da sustentabilidade;
- Conectar os conceitos e ferramentas que estão na fronteira do conhecimento em Sustentabilidade com suas práticas de gestão;
- Integrar conhecimentos dos diferentes temas da sustentabilidade e da gestão, com visão crítica e sistêmica.
- Atuar como agentes de mudança e transformação rumo ao desenvolvimento sustentável.
O percurso para este processo de trabalho é baseado na Teoria U: desenvolvida por Otto Scharmer e outros pesquisadores da área de Aprendizagem e Mudança Organizacional do MIT, “a Teoria U propõe que a qualidade dos resultados que obtemos em qualquer sistema social é consequência da qualidade de percepção e consciência a partir da qual operamos nestes sistemas.” (Presencing Institute) Trata-se de um framework; um método para liderar mudanças profundas; e uma maneira de ser – conectando aos aspectos mais autênticos e elevados do indivíduo.” Como processo, a Teoria U propõe três macro etapas: (i) Observar, observar, observar ("descida do U"): investigar e compreender um sistema de dentro dele, interagir com os stakeholders chave, abrir-se à escuta, sentir; (ii) Retrair e refletir ("meio do U"): silenciar para conectar-se consigo mesmo e com sua fonte sensível de percepção e criatividade (Presencing); e (iii) Agir em um instante ("subida do U"): deixar emergir resultados inovadores colocando em prática as soluções possíveis - ainda que em forma de protótipos - e aprendendo com elas.
SAIBA MAIS ACESSANDO NOSSOS VÍDEOS
Fashion Evolution
Disseminar princípios para “o futuro que queremos para a moda”, mobilizando e engajando blogueiras e coolhunters no diálogo sobre novas formas de consumo.
Integrantes: Carla Schulman, Carol Jungamnn, Daniel Perigo, Fernanda Carreira, Fernanda Ferraz, Marta Blazek, Michel Peroni, Rodrigo Oliveira e Simone Soares
Investigação e escuta
DE ONDE PARTIMOS
Enquanto a roupa simboliza o objeto que vestimos com a função de proteção, a moda traz consigo um significado simbólico com a identificação do que queremos ser, parecer e vestir para sentirmos: afeto, compreensão, aceitação, pertencimento, liberdade e prazer. Nesse contexto, a indústria têxtil é movida pela moda.
A associação entre a matéria (roupa) e significado simbólico (moda) é feita pelo design que tem como objetivo materializar em roupas formas, funcionalidade, durabilidade e qualidade emocional. O design traz consigo a responsabilidade de garantir qualidade e ser ético, o que por si só já está em desacordo com diversas formas de fazer moda como o fast fashion e a produção externalidades sociais e ambientais da moda.
O fast fashion tem sua origem no ciclo de vida de um produto da “moda”, que é compreendido por introdução, crescimento, desenvolvimento, maturidade e declínio, ou seja, as etapas entre a moda entrar e sair, que tem espaço de tempo cada vez menor. O marketing é o que alimenta esse processo, pois ajuda na criação de fantasias que a moda traz. Sendo que os recursos naturais são finitos, é comum pensar em como será possível que esses insumos suportem a moda nessa velocidade.
Em uma pesquisa divulgada pelo G1 – Portal de Notícias da Globo, a maioria dos consumidores não leva em consideração o impacto ambiental e social na hora de comprar roupas, sendo que as maiores preocupações são com os itens preço, beleza e qualidade.
Diante desse panorama, o grupo Fashion Evolution se propôs o seguinte desafio:
Disseminar princípios para “o futuro que queremos para a moda”, por meio da criação de hashtags, mobilizando e engajando influenciadores digitais no diálogo sobre novas formas de consumo.
Questões e inquietações iniciais
- Será que precisamos de tudo que temos?
- Será que podemos ser mais felizes vivendo com menos consumo e mais contato com a natureza?
- A promoção do algodão orgânico poderia gerar um modelo de desenvolvimento local que seja um modelo win win win?
- Como fazer o recorte de um tema tão extenso e com tanta informação? Muitos subtemas: impactos ambientais da produção e pós consumo (uso de agrotóxicos, uso de água, destinação de resíduos), impactos sociais na cadeia de produção (exposição à contaminantes, trabalho análogo ao escravo, trabalho sem condições mínimas), impacto nas passarelas (modelos), impactos do consumo (fast fashion, durabilidade das roupas)...
- Todos já ouviram falar dos aspectos negativos da cadeia da moda. Vamos fazer uma agenda positiva, que comunique com o público, com o consumidor. Vamos falar do que esperamos para o futuro, dos fatores positivos;
- Trabalhar com o macro (massa) ou micro (pontos de acupuntura)?
- Como atingir as blogueiras? Em geral elas cobram para atender, participar de eventos e postar.
- Entender de que forma as blogueiras (ou ampliando os conceitos, as digital influencers) são ou não são influenciadoras do consumo? Para qual faixa etária? Elas influenciam a indústria? Como é a relação entre marca e blogueiras?... Mesmo que em 10 anos elas possam não ser mais as grandes influenciadoras, hoje elas têm poder...
- Como influenciar as blogueiras para falar de questões como diminuir o consumo e repetir roupa? Sendo que elas vivem disso...
- Qual será nossa entrega? Tem que comunicar com o público consumidor de moda...não pode ser “ecochato”...deve ser positiva...tem que ser leve, vender estilo de vida, tem que ter glamour...
- Primeiro pensamento: manual dos 10 princípios da moda
- Segundo pensamento: manual de hashtags. Comunica com o público que queremos atingir. É digital. Pode ser viralizado. Vamos pensar em 10#?... Quantidade x qualidade... Vamos pensar em 5#?
Como criar o manual de hashtags (#)?
- Fazer evento com blogueiras para cocriação? (nomes: Fernanda Paes leme, Gloria Kalil, Lilian Pacem, Constanza Pascolato, Alexandre Herchcovitch, Marilia Gabriela). Depois montar vídeos (pílulas com temas)?
- Fazer entrevistas com digital influencers alfa e betha aplicando dinâmica com imagens para posterior criação de # e “lançamento” nas redes sociais?
Fontes de investigação (stakeholders envolvidos, bibliografias, dados secundários etc) e Formas de coleta de dados (kick off, entrevistas, observações)
NOSSO PROCESSO
Nosso percurso começou de fato com a realização de evento para Kick Off do projeto, com convidadas envolvidas na área da moda e realização de uma dinâmica que questionou:
- Como consumiremos moda na próxima década?
- Qual o papel das blogueiras no mundo da moda?
- Como falar de sustentabilidade sem falar sobre sustentabilidade? O que cola, no mundo da moda?
A partir das respostas que tivemos, o grupo levantou os principais impactos da cadeia da moda e as tendências que se apresentam como alternativa ao panorama atual. Utilizou-se de referências bibliográficas, participação em eventos como o Projeto Estufa (dentro da SPFW – São Paulo Fashion Week), relatórios, livros e também da pesquisa de notícias, incluindo as divulgadas em mídias sociais, relatando os principais achados no material a seguir.
Além disso, nosso projeto pensou em como trabalhar e disseminar o assunto para o público geral, sabendo que a mudança cultural é um processo longo e delicado, mas acreditando que podemos ser agentes de mudança a partir de uma pequena semente (pontos de acupuntura). Dessa forma, foram mapeadas influenciadoras digitais para contato e realização de dinâmica de entrevista. Para essa dinâmica, foram selecionadas fotos relacionadas ao tema sustentabilidade na cadeia da moda, que fossem ao mesmo tempo atrativas (belas) e que levassem à reflexão, sem uma interpretação de “certo” ou “errado” e que pudessem despertar no observador, sentimentos variados (que a princípio poderiam ou não estar ligados ao tema sustentabilidade, conforme a experiência e sensibilidade do influenciador digital ao assunto).
A dinâmica teve por objetivo coletar as principais impressões e opiniões das entrevistadas, da correlação que faziam à sustentabilidade e, por fim, o questionamento de quais as palavras chave que poderiam ser utilizadas para falar sobre sustentabilidade sem utilizar o termo propriamente dito. Além disso, o primeiro contato teve por objetivo, levantar a aderência ao assunto e verificar a possibilidade das influenciadoras digitais em propor e futuramente publicar as hashtags criadas para este trabalho, se tornando assim agentes de divulgação dos conceitos e alternativas estudadas.
Entrevistas com influenciadoras digitais
As influenciadoras digitais entrevistadas foram:
- Marcella Tranchesi (212 mil seguidores);
- Isabella Narchi (734 mil seguidores);
- Equipe de Helena Bordon (997 mil seguidores);
- Carol Celico (886 mil seguidores)
- Stella Jacintho (57,9 mil seguidores)
- Raquel Lucero (400 mil seguidores)
- Beatriz Koch (13,8 mil seguidores)
Durante as entrevistas, foram levantadas as seguintes premissas para a campanha:
- A campanha deve ser leve, divertida. A palavra sustentabilidade deve ser evitada;
- Um desafio seria uma boa proposta para levar ao público;
- O canal de comunicação é digital, em mídia social (Facebook e Instagram);
- Ter o apoio de uma marca ou de uma influenciadora digital amplia o alcance da campanha, alavancando uma reação em cadeia, levando a reflexão desejada para uma grande rede de pessoas;
As entrevistas possibilitaram a percepção do grau de sensibilidade desse público em relação à questão da sustentabilidade na cadeia da moda. A partir disso, pensar quais as melhores ferramentas e a melhor maneira de trabalhar os conceitos desejados, objetivando a sensibilização e a efetiva comunicação com as influenciadoras digitais e consequentemente com seu público.
Contar com o apoio das influenciadoras digitais alpha (ou seja, com mais de 500 mil seguidores) na campanha a ser lançada foi a forma pensada em termos um alcance significativo em pouco tempo.
Principais aprendizados e insights
O QUE PESQUISAMOS
Estruturamos a nossa pesquisa nas macro etapas do pensamento de ciclo de vida das roupas. Abaixo trazemos nos principais achados por etapa:
ORIGEM / PRODUÇÃO
- Setor Têxtil e de vestimentas é o segundo setor de consumo, atrás apenas do setor de alimentos.
- Cerca de 26,5 milhões de pessoas trabalham para a indústria têxtil (aproximadamente 1 a cada 6 trabalhadores da população mundial), a maioria em países asiáticos.
As fibras podem ser divididas em 3 grandes grupos:
- Fibras naturais - algodão, lã, seda, juta, coco, linho, sisal, entre outras - correspondem a 35% das utilizadas no mercado. O algodão, por exemplo, requer uso intenso de água e agroquímicos para sua produção, além de representar uma monocultura em grandes áreas e com problemas de trabalho infantil, exploração de mão de obra, desigualdade e pobreza.
- Fibras sintéticas - derivadas do petróleo - poliéster, nylon - correspondem a 59% das utilizadas no mercado. O poliéster não se decompõe na natureza e conforme e a cada lavagem, micropartículas são liberadas no ambiente. Apesar de invisíveis (muito pequenas), são partículas poluentes.
- Fibras artificiais - viscose, modal, fibras celulósicas - vindas da transformação química de matérias naturais (transformação química da celulose, por exemplo) - correspondem a 6% das utilizadas no mercado. A produção de fibras artificiais demanda grande gasto de energia, uso intensivo de água e de produtos químicos. O processo resulta em 65% da celulose em subproduto sob o risco da matéria prima (celulose) vir de cadeias de suprimentos que não utilizam florestas sustentáveis, causando desmatamento irregular em locais como a Indonésia. No ano de 2017, cerca de 120 milhões de árvores serão transformadas em camisetas, sendo que 40% devem ter suas origens em ambientes sensíveis e ecossistemas maduros, transformados em áreas de plantio de Acácias e Eucaliptos.
Além dos impactos já citados relacionados a produção de cada fibra, podemos destacar os seguintes impactos ambientais:
- Consumo de água – anualmente, a indústria têxtil consome 387 bilhões de litros de água. Uma camiseta de algodão consome 2.700l de água para ser produzida.
- Poluição das águas - A indústria Têxtil é responsável por 20% da contaminação das águas no conjunto de toda a atividade industrial do planeta, considerando os processos de extração e cultivo de matérias primas e de produção de fio, tecidos e roupas, tingimento, estamparia, lavagem, acabamento. Os impactos são gerados no local de produção e também em outros locais/países dependendo de onde as peças são utilizadas, lavadas e mantidas. Um país que utilize uma substância proibida no tingimento da peça, por exemplo, ao exportar o material e levar sua manutenção para outros locais do globo, causarão a contaminação das águas nos locais de lavagem e manutenção da roupa.
- Nesse sentido, a seleção de tintas, a restrição no uso de substâncias prejudiciais ao ambiente e à saúde desde a produção das fibras até o acabamento das peças é importante.
- Gases do efeito estufa – a indústria têxtil é responsável por 10% do total de emissões de gás carbônico em todo o planeta. A cadeia da moda é globalizada: o design da peça é feito em um país, a as áreas de cultivo do algodão (ou outra matéria prima) estão em outro país, a fibra é fiada em um terceiro, o tecido é lavado, alvejado e tingido do outro lado do globo e assim por diante. Essa operação logística, além de complexa, é grande emissora de gases de efeito estufa, sendo a segunda no ranking da etapa de maior emissão de Gases de Efeito Estufa (GEE). A primeira no ranking de emissões atmosféricas está relacionada ao gasto energético para manutenção das peças, sendo o maior “vilão” na emissão de gases dentro dessa cadeia produtiva.
- 58% das fibras têxteis produzidas mundialmente são derivadas do petróleo;
- Perda de biodiversidade e exploração de florestas - a produção de monoculturas (por exemplo, produção de algodão) leva à perda de biodiversidade. Esta informação não é de fácil mensuração e não está quantificada para a indústria têxtil. Para a produção de fibras artificiais (viscose, modal, fibras celulósicas) processos com grande gasto de energia, uso intensivo de água e de produtos químicos são necessários. O processo resulta em 65% da celulose em subproduto sob o risco da matéria prima (celulose) vir de cadeias de suprimentos que não utilizam florestas sustentáveis, causando desmatamento irregular em locais como a Indonésia.
No ano de 2017, cerca de 120 milhões de árvores serão transformadas em camisetas, sendo que 40% devem ter suas origens em ambientes sensíveis e ecossistemas maduros, transformados em áreas de plantio de Acácias e Eucaliptos (monoculturas).
- Resíduos - no Brasil, cerca de 175 mil toneladas de resíduos têxteis são descartadas por ano, sendo eu 85% desse material acaba em aterros sanitários;
- Condições de trabalho – o trabalhador que confecciona uma peça de roupa ganha entre 1% e 2% do preço de venda da peça. Por exemplo, uma camiseta vendida por R$20,00 representa entre 20 e 40 centavos para o trabalhador. Além da remuneração, as condições de trabalho são precárias (insalubridade e insegurança), e o setor se utiliza de mão de obra de menores de idade no setor têxtil.
- Em São Paulo, cerca de 350 mil imigrantes ilegais, em especial bolivianos, peruanos e paraguaios, trabalham para a indústria têxtil em condições análogas à escravidão em bairros como Brás e Bom Retiro e nas zonas Leste e Norte da cidade. Em 2017 grandes redes fecharam parceria com o poder público para que essas pessoas sejam regularizadas e assim, que seus filhos possam frequentar creches. No país há 22 mil confecções de roupa em funcionamento, sendo 97% delas de micro e pequeno portes, e concentradas nas regiões Sul e Sudeste. A estimativa é que 30% da produção de roupa no Brasil seja informal.
- Química – o uso intensivo de produtos químicos na produção de fibras e tecidos é uma ameaça à saúde. Por exemplo, as plantações de algodão ocupam 2,4% das áreas cultiváveis do planeta, mas são responsáveis por 16% do total de inseticidas. Uma gota de aldicarbe (pesticida comum na produção de algodão) se absorvida pela pele pode ser suficiente para matar um adulto.
- Doenças ocupacionais - o uso de técnicas específicas ou produtos químicos podem afetar a saúde do trabalhador, principalmente em países em desenvolvimento onde as regras trabalhistas podem ser mais brandas. Por exemplo, aplicação do sandblasting, jateamento da roupa com areia, propiciando seu desgaste. O processo pode causar a silicose, doença ocupacional.
Alternativas e tendências para origem/produção
Novos materiais e formas de produção:
- Fibras naturais ou ecológicas:
- Algodão orgânico;
- Algodão certificado pela Better Cotton Initiative (BCI) - associação da indústria têxtil que trabalha com a rastreabilidade do algodão da produção até a separação da semente. Atua em questões ambientais e sociais, mas aceita, por exemplo, uso de sementes geneticamente modificado; O Brasil é o principal fornecedor de algodão BCI, segundo a organização que certifica os produtores e produz cerca de 30% do algodão certificado no mundo. A meta da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (ABRAPA) é plantar 100% de algodão certificado até 2020.
- Algodão “made in África” (CmiA) - desenvolvida pela fundação Aid by Trade e trabalha questões ambientais e sociais junto aos agricultores africanos;
- Algodão Fair Trade - não é necessariamente orgânico mas leva em consideração questões sociais e ambientais na produção;
- Lã ecológica: sem uso de cloro para clareamento da lã das ovelhas. Lógica da produção artesanal com tingimento feito com plantas. As ovelhas não estão sob efeito de hormônios indutores do crescimento da lã e o número de animais é limitado por área;
- Recicladas: algodão reciclado (a reciclagem do algodão gera fibras muito curtas e, portanto, normalmente é misturado às fibras virgens na proporção de 20 - 30%, chegando até 50% de algodão reciclado quando misturado ao algodão virgem ou até 80% se misturado ao poliéster ou acrílico), lã reciclada;
Outras fibras:
- Lótus: tecido gerado a partir da haste da planta de lótus, produzida no Camboja pela empresa Samatoa. A flor já é produzida para comercialização, mas as hastes eram desprezadas. Agora, a empresa coleta as hastes para fazer um tecido sem o uso de produtos químicos ou agrotóxicos.
- Linho: para produção se utiliza pouca água e produtos químicos;
- Urtiga: produz uma fibra têxtil excepcionalmente forte, elástica, suave e naturalmente retardadora de fogo. O crescimento da urtiga não necessita de herbicidas ou pesticidas e utiliza pouca água para produção;
- Fibras sintéticas não renováveis (a forma tradicional seria oriunda do petróleo)
- Recicladas:
- poliéster – a reciclagem do poliéster reduz significativamente a necessidade de espaço nos aterros, além de reduzir o uso da matéria prima. Foi desenvolvido a partir do uso de garrafas PET. Sua forma mais comum de tecido feito a partir deste material reciclado é o Fleece.
- nylon – também reduz o uso de matéria prima (petróleo). O Econyl, por exemplo, é feito a partir de redes de pesca abandonadas e regenera 100% da fibra de nylon.
- biopolímeros: fibras que não utilizam o petróleo como fonte de matéria prima e sim fontes vegetais e biodegradáveis , conforme exemplos citados abaixo. Os maiores usos ainda não são para tecidos de roupas, mas podem ser utilizadas e evoluem para tal;
- I’m Green (Braskem - feito a partir da cana de açúcar)
- Sorona (Du Pont - feito a partir do milho);
- Ingeo (NatureWorks - feito a partir de plantas como milho, mandioca, cana de açúcar ou beterraba;
- Rilsan (Arkema - poliamida feita a partir de sementes de rícino);
- Fibras artificiais de fontes renováveis:
- Tencel (nome comercial) - obtido a partir da celulose do eucalipto, utilizando 20% a menos do que a produção normal da viscose.
- Lenzing modal (nome comercial) - biodegradável, obtida a partir de produção mais sustentável.
Um exemplo da aplicação de fibras alternativas, é o tênis da Reebok anunciado em 2017, feito a “base de plantas. O tênis foi criado a partir de uma parceria com a DuPont Tate & Lile Bio Products. O corpo é feito de algodão e a sola livre de petróleo e derivado de milho industrial. No final de sua vida útil, poderão ser compostados no solo conforme informações da empresa. Com isso, a marca está trabalhando 3 fases distintas do ciclo de vida: no desenvolvimento (uso de novas matérias primas), no uso (clientes querem produtos bonitos e confortáveis) e na destinação (fim de vida útil).
Já a Adidas, lançou um tênis que utiliza poliéster reciclado (resíduos plásticos retirados do oceano). Cada par de tênis possui material relativo a 11 garrafas plásticas. Foi desenvolvido em parceria com a empresa Parley for the Oceans.
Couro não animal
Nomeado como Wineleather® (Couro de Vinho), o material levou dois anos de estudos e testes para ser criado e já está sendo comercializado. Pode substituir o couro animal na fabricação de bolsas, calçados, revestimentos de móveis e nos demais usos do couro convencional. É tão maleável e durável como o couro, contudo é produzido a partir da prensa das fibras vegetais das cascas e sementes de uva (subproduto da indústria do vinho).
Outra alternativa para o couro, é um material oriundo de resíduos agrícolas e cogumelos. O que seria um resíduo vira matéria prima para a produção do material e é alternativa mais sustentável ao couro animal, com aparência e resistência parecidas. O couro animal demora três anos para ser produzido e gera aproximadamente 33 toneladas de CO2 para cada par de sapato. O couro vegetal é produzido em semanas e é neutro em carbono, segundo dados da empresa fabricante.
Tintas de baixo impacto
Evita o uso de substâncias restritas, livres de metais pesados, que precisam de menor quantidade de água para promover o tingimento da peça (uma peça tradicional precisa de 12 partes de água para 1 parte de tecido para que seja feito o tingimento. As tintas de baixo impactos precisam de 5 partes de água para 1 parte de tecido). Fábricas como Clariant, Dupont e Basf possuem tintas e maquinário de baixo impacto ambiental.
Tingimento com corantes naturais
Processo mais aplicável à produção em pequena escala e principalmente em fibras naturais. Contudo existe interesse e pesquisa nesse campo para busca de soluções e de maior aplicação de corantes naturais no processo de produção em larga escala. Um dos principais obstáculos que precisa ser superado para o uso de corantes naturais é seu baixo rendimento da extração. Contudo, estratégias adequadas de extração permitem a melhora de resultados. A manutenção do padrão de qualidade já alcançado pelos corantes sintéticos é outro desafio a ser superado para utilização dos corantes naturais em escala industrial. A utilização de tecnologias e produtos sustentáveis é uma tendência mundial e que está em pesquisa. Em 2012, a demanda mundial de corantes naturais era de, aproximadamente, 10.000 toneladas, o que representa 1% dos corantes sintéticos consumidos em todo o mundo.
Atualmente, uma pesquisa de mestrado no Laboratório de Tecnologia Têxtil do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) vem estudando o extrato das cascas de seis espécies de árvores nativas para aplicação como corantes em têxteis. O objetivo é encontrar alternativas para tingir tecidos e incentivar a produção local conforme a ocorrência das espécies arbóreas. O estudo tem previsão de finalização em 2018.
Exemplo de produção local de peças, com tingimento com corantes naturais de origem renovável, como cascas de árvore, frutos, folhas e raízes pode ser observado no trabalho da marca Flavia Aranha.
Desgaste a Laser
Podem ser adotados processos a seco do denim para desgaste, como forma de substituição ao processo de “sandblasting” e lixamento da peça.
Lavagens com ozônio (oxigênio ativo e ozônio)
Alternativo à lavagem com peróxido de hidrogênio (alvejante mais comum), não consome água e não utiliza produtos químicos. Embora a alternativa seja mais cara, analisando-se todo o processo, se comparado com o custo de químicos e tratamento dos efluentes, a proposta passa a ser interessante.
Amaciamento com nanobolhas
Tradicionalmente, o processo de amaciamento requer 3 etapas que demandam água e energia. O amaciamento com nanobolhas (alternativa) reduz o processo à apenas 1 etapa, utilizando menos água, eliminando a necessidade de centrifugação e reduzindo a secagem, resultando na economia de energia.
Tecnologia 3D
Essa inovação traz novas possibilidades no setor têxtil e está mexendo com conceitos clássicos da criação e produção no universo fashion. O material utilizado pelas impressoras 3D para a criação de peças de vestuário pode ser, por exemplo, o PLA, que é um plástico biodegradável à base de amido de milho, batatas, raízes, renovável em aproximadamente cinco meses. São degradáveis, em compostagem, por até 180 dias.
Assim, as mulheres poderiam ter um guarda roupa atualizado a cada 3 meses, sem gerar resíduos e oriundos de matéria prima biodegradável. Van Herpen (estilista) diz que o processo de criação e construção leva tempo e envolve vários profissionais, e que não se pode criar novos materiais para cada estação, mas que há capacidade de criar algo novo a cada um ou dois anos, então há mais controle do seu processo de design e o impacto que ele causa.
Impulsionando essa tendência, foi lançada pelo espanhol Gerard Rubio uma máquina de tricot digital, inspirada por impressão 3D. A máquina, somada à um software, possibilita as pessoas a criarem seus designs com exclusividade e no tamanho certo sem gerar o desperdício que as máquinas de produção em grande escala geram.
A marca Nike, por exemplo, está usando a tecnologia 3D para obter o desempenho desejado para calçados esportivos para jogadores de futebol americano, bem como a marca Adidas vem desenvolvendo um tênis onde o solado é produzido a partir da tecnologia 3D.
Faça sua própria roupa
Um retorno à produção de suas próprias roupas, criando laços afetivos com as peças, valorizando o trabalho manual e o fazer. Exemplos de incentivo à esta prática: Atelie Vivo em SP - o objetivo da Secretaria do Estado do Governo de São Paulo e apoio da Casa do Povo é de criar uma biblioteca pública de modelagem onde as pessoas possam intervir na lógica da indústria da moda retomando o conhecimento e a autonomia sobre a construção de uma roupa por meio de técnicas manuais.
CONSUMO
Fast Fashion – fast fashion tem como ponto de partida os dados sobre as compras dos clientes (dados de vendas). Os “best sellers” são produzidos em maior quantidade em menos de 20 dias e assim um novo produto (idêntico ou com pequenas variações de cor, detalhes, etc) para abastecer novamente o mercado e devem permanecer na loja por, no máximo 5 semanas. O objetivo final é vender mais. Ao mesmo tempo, se uma coleção não tem o sucesso esperado, o contratante pode diminuir a produção do seu fornecedor sem custo nenhum.
A Fast Fashion faz com que a empresa focal transfira a pressão de produção para seus fornecedores exigindo prazos curtos para entrega e uma logística complexa. Isso resulta, nos fornecedores:
- A necessidade de subcontratação de pequenas oficinas;
- No uso de funcionários temporários que não estão submetidos às mesmas regras de trabalho do que o funcionário fixo;
- Aumento na quantidade de horas extras sem aviso prévio;
- Salário insuficiente para satisfazer as necessidades básicas do trabalhador.
Alternativas e tendências
O Slow Fashion surge em oposição ao Fast Fashion. Neste formato, não há lançamentos constantes, as peças são perenes, com modelagens acertadas, design atemporal que persistem por mais de uma estação, uso de tecidos nobres, naturais ou eco inteligentes, sendo duráveis e de alta qualidade. Para a Slow Fashion aproveitar a mão de obra local, matérias primas e aspectos culturais da região, concentrar-se em uma logística consciente que pense em gastos de energia e gás carbônico é importante. Representa a possibilidade de uso de insumos ambientalmente mais adequados e o estabelecimento de uma relação ética com seus trabalhadores justa socialmente e economicamente, de forma a praticar o fair trade.
Conheça a origem da sua roupa, crie vínculos - Aumenta a durabilidade da peça com o consumidor. Diminui a necessidade de compra de novas peças a cada coleção.
Exemplo IOU Project - Conecta digitalmente o produtor (tecelão e /ou artesão) com o consumidor por meio de um código QR. Além da peça ter rastreabilidade, a criação de vínculo (laços emocionais) da peça com o consumidor é favorecida, fazendo com que a mesma dure mais no armário.
Exemplo Programa IntegrArte (governo do Panamá) – detentas do Panamá fazem sua coleção de roupas sendo um dos objetivos a ressocialização. Projeto apoiado pela ONU, os detentos que trabalham no projeto podem ter suas penas reduzidas e obter uma remuneração pela venda dos produtos. Conforme uma das detentas, “cada produto que desenvolvemos conta uma história da pessoa que o produz”.
Pensar no bem estar social
- Identificar marcas que levem em consideração as condições do sistema de produção, os impactos ambientais e sociais. Embora possamos pensar nesse aspecto como um aspecto da cadeia produtiva, cabe também ao consumidor final obter informações sobre o que está comprando. O consumidor deve visualizar suas responsabilidades além do simples consumo. Buscar informações, saber a origem.
Embora a indústria da moda empregue 25,6 milhões de pessoas. Muitos trabalhadores não conseguem garantir seu bem-estar a longo prazo pois estão sujeitos a salários abaixo do nível de subsistência, a ambientes insalubres e condições inadequadas de trabalho. Grande parte da indústria da moda transfere sua produção para países onde os salários são baixos, assim como as proteções trabalhistas, objetivando maiores lucros.
Produção Push para produção Pull
Tradicionalmente, as empresas pesquisam tendências, produzem e colocam seus produtos no mercado para venda (produção empurrada - push). O processo de produção da empresa começa antes mesmo da identificação da demanda. Depois que a produção estiver realizada ela é “empurrada” para as próximas etapas do processo, sem que a produção continue automaticamente. O controle do mercado é do produtor.
Na produção puxada (pull), o planejamento é realizado de acordo com o fluxo de materiais, dispensando “estoque em processo” do produto. A demanda do cliente é a força motriz do negócio e o controle de negócios da empresa é atribuído de maneira pensada a partir do cliente. Observa-se a quantidade de produtos vendida ao cliente e, posteriormente, se determina a quantidade que deve ser produzida. O controle do mercado é a necessidade do cliente. Nesse sentido, a produção Pull pode representar uma vantagem em sustentabilidade, uma vez que as peças serão produzidas conforme demanda, diminuindo desperdícios e produção, consumo de recursos e energia sem necessidade.
Um exemplo da mudança na forma de produção pode ser observado na DesFAZ ganhadora do Demoday do Lab Inovação na Cadeia da Moda. A DesFAZ é uma plataforma digital que cria e articula formas alternativas de produção e consumo da moda. Os clientes fazem o pedido às marcas que trabalham com moda consciente (pré-venda) e a partir daí é que a produção da peça se inicia, a partir de uma demanda mínima, invertendo a ordem de consumo. Algumas pré-vendas foram iniciadas pela plataforma, em parceria com as empresas Revoada e Envido. Outras empresas como Colibri e Instituto C&A estão envolvidas com o projeto.
Vendas on line/ Lojas - provador
Conceito que vem crescendo. Como nem todos os consumidores têm o hábito de comprar uma peça sem experimentá-la, on line, por exemplo, as lojas-provador seriam um ponto físico em que não se vendem peças, apenas se provam peças. Dessa forma, não há demanda por grandes estoques e grandes estruturas. A loja possibilita que o cliente efetivamente experimente uma peça, confirme sua numeração e o caimento do produto, mas que realize a compra posteriormente pela internet, otimizando os recursos de logística, entre outros recursos citados. Já está disponível em alguns países, a tecnologia de scanner para que o cliente se dirija até um shopping e tenha suas medidas escaneadas e sua imagem vestida com determinada roupa de uma marca seja mostrada a ele, favorecendo e facilitando a venda on line.
O site Stylourbano cita que em 2035 a moda personalizada será a norma no comércio e que para tanto, as grandes empresas de tecnologia já estão atentas as atuais transformações, inclusive de mentalidade da sociedade em relação fast fashion. Além de comprar on line você personalizará sua roupa e trocará a produção de Push para Pull, o que levaria à redução de impactos na cadeia a partir do momento em que a produção atende à demanda, sem gerar excedentes.
Escolha de peças básicas e versáteis
Na hora de comprar, o consumidor pode optar pela escolha de peças básicas (coringas), de boa qualidade. Assim, poucas peças podem gerar uma variedade de combinações, diminuindo a necessidade de compra. As mídias digitais apresentam muitos exemplos desse tipo de iniciativa. Embora a principal motivação tenha sido a economia, a internauta propõe 333 combinações diferentes para usar a partir de 28 peças de roupas, demonstrando que a compra responsável tem seu espaço mesmo quando se deseja um armário cheio de opções.
PÓS CONSUMO
Hoje, com o preço das roupas, a mudança rápida das coleções e consequentemente a troca constante do guarda roupa do consumidor, o destino da maior parte das peças é o lixo ou países em desenvolvimento.
Resíduos sólidos
Nos EUA, os resíduos da indústria têxtil representam 5% do total de resíduos produzidos pelo país. A mistura de fibras na produção têxtil dificulta o reuso ou a segregação no descarte.
Em 2010, foram exportados dos EUA para a América Central, cerca de 100 milhões de quilos de roupas usadas, ou seja, 28 kg de roupa/habitante se considerarmos Honduras como país receptor. Diariamente em Hong Kong são jogadas no lixo, 253 toneladas de produtos têxteis.
Além dos resíduos do produto em si, há também o resíduo gerado a partir das embalagens utilizadas no transporte e venda. Assim, embalagens também devem ser pensadas para redução de impactos (embalagens com segunda vida útil, redução da variedade de materiais na embalagem, favorecendo a reciclagem, uso de embalagens biodegradáveis, conscientização do consumidor em relação à necessidade de embalagens).
Alternativas e tendências
Desenvolvimento de sistema de coleta
Presente nos países europeus, empresas recebem as roupas usadas, que posteriormente são selecionadas, reparadas e destinadas conforme seu estado. As roupas podem ser revendidas em lojas de segunda mão, exportadas para outros países, vendidas a empresas de reciclagem têxtil (para virarem trapos industriais, por exemplo) ou seguirem para depósitos de lixo. Cerca de 50% das peças seguem para exportação. Isso mostra como na Europa, a reutilização de peças é uma questão a ser estimulada, pois essas peças poderiam voltar ao mercado europeu.
Sistema de devolução de peças
Iniciativas ocorrendo principalmente no mercado internacional. As roupas recebidas pelas lojas, são encaminhadas para empresas de resíduos que costumam dar 3 destinos às peças: uso industrial, reutilização ou reciclagem (transformação em novas matérias primas).
Sistema de reciclagem de tecidos
- Reciclagem mecânica: recuperar fibras a partir da manipulação mecânica (desfiar, desentranhar, triturar). Com menor impacto ambiental, mas não permite refiar fios finos.
- Reciclagem química: ocorre principalmente na Ásia. Compreende a regeneração química de fibras sintéticas. Gera fibras repolimerizadas que podem substituir as fibras virgens (químicas).
Upcycling
Reciclagem que cria materiais mais “valiosos”, por exemplo, garrafas PETs que viram peças de roupa, radiografias que viram camisetas, pneus reciclados que viram bolsas e sapatos.
Exemplo: Rede ASTA – Desafio Upcycling Têxtil – realizado em 2017, o desafio convida estudantes e profissionais para apresentar de forma criativa, ideias para reaproveitar roupas e uniformes profissionais usados.
Aluguel de peças
Além do aluguel de peças para festas, o mesmo conceito pode ser utilizado para outros tipos de roupa. Um exemplo: House of bubbles - assine a partir de R$50 e retire peças à vontade. A iniciativa se localiza em Pinheiros - SP e pretende expansão por outros locais do Brasil, incluindo um futuro Mini-Bubbles.LAB, acervo para bebês e crianças com higienização em lavanderia própria. No site trazem o seguinte mote: “queremos reduzir o consumismo, torná-lo eficiente. Um viva ao pós-consumismo”.
Consumo Colaborativo/ Troca de Roupas/ Venda de roupas usadas
- Butique Sustentável – objetiva mudar a lógica de consumo. Funciona como “feiras” de trocas (eventos marcados) onde você pode provar as peças, escolher com calma as que deseja e colocar sua intenção (nome na etiqueta) sobre as peças que gostou. Se houver mais de um nome na etiqueta de uma peça, ela será sorteada. Se houver apenas seu nome, a peça já é sua.
- Movimento Roupa Livre – “A gente não precisa de roupas novas. A gente precisa de um novo olhar”. O objetivo do movimento é criar alternativas à forma descartável de consumir roupas. Organiza, com o apoio de parceiros, oficinas, workshops, encontros de troca, bate papos.
Além dos movimentos específicos, diversos brechós estão espalhados pela cidade de São Paulo. Esses espaços funcionam dão destino a roupas usadas e em bom estado e são alternativas à compra de peças novas. Outro exemplo de como essa tendência vem crescendo no Brasil e no mundo são os mais diferentes sites e grupos de venda de roupas de segunda mão existentes na internet. Você pode montar um guarda roupa completo com roupas usadas, sem que nenhum novo recurso natural seja retirado do ambiente. Na Suécia, foi inaugurado um shopping com 14 lojas que só vende produtos de segunda mão, incluindo vestuário.
Design como forma de economia circular
Pensar uma peça de forma integrada, desde sua origem até seu destino (incluindo o reinício do ciclo do produto) traduz o processo de design para sustentabilidade (pensar na economia circular). O Design pode ser uma forma de buscar soluções para os problemas do dia a dia, combinando as alternativas e tendências apresentadas acima, integrando etapas e trazendo a sustentabilidade para a cadeia da moda.
Dentro do processo de design de uma peça, deve-se pensar em:
- Gestão de resíduos no descarte;
- Redução de perdas de tecidos. Quinze por cento do tecido utilizado pela indústria se tornam resíduos que acabam no chão das oficinas de corte das fábricas.
- Como desmontar a peça. Na seleção de materiais para a construção da peça, pensar no uso de um único tipo de fibras (100% algodão, 100% poliéster, 100% lã), usar acessórios que sejam fáceis de trocar e arrumar, aumentando a durabilidade da peça e que sejam de fácil remoção na desmontagem da peça;
- Criar laços emocionais entre peça e usuário;
- Bem estar social: a cadeia da moda é um dos setores que mais emprega no mundo, contudo, apenas o emprego não basta. Aos trabalhadores, deve ser garantido salário e condições dignas de trabalho, para que efetivamente seja gerado bem estar social a partir dessa cadeia.
- Durabilidade da peça. Pensar em qualidade para que as peças durem mais e em como facilitar o conserto da peça, caso necessário. Informar ao consumidor a melhor forma de manter a peça, como lavar, como secar. Utilizar produtos não tóxicos que possibilitem a diminuição na necessidade de lavagem da peça. Pensar no papel do usuário no uso e cuidado da peça e no pós compra. Cerca de 80% da energia é consumida na manutenção da peça. Aumentar a vida útil. Desenhar peças que sejam versáteis, que possam ser utilizadas de diversas maneiras (multifuncionais, modificáveis).
Em 2017 foi criado o primeiro centro de inovação da moda, com foco na economia circular. Localizado em Amsterdam, foi fundado com apoio da C&A Foundation e irá conectar marcas, instituições e organizações sociais que estão repensando todo o ciclo da moda, por meio do movimento Fashion for Good. Conta também com o apoio da Fundação Ellen MacArthur e as primeiras marcas a apoia-los são a Gucci e Puma (que fazem parte da holding Kering).
Desenvolvimento do produto final: agir em um instante
Processos de prototipagem
Campanha Digital
Com base no levantamento de dados bibliográficos, matérias, resultados das entrevistas, foram criadas hashtags (#) relacionadas ao tema. Cada # possui um conceito e mostra tendências sustentáveis na cadeia de moda, sem citar a palavra sustentabilidade. Para explanação dos conceitos das #, foi criado um e-book e disponibilizado nas redes sociais (Facebook e Instagram).
As hashtags criadas são:
#ModaCriaFuturo
A primeira hashtag é “guarda-chuva” e abrange o conceito geral da campanha. As demais #s representam as fases do ciclo de vida (origem de matéria prima/produção, consumo e pós consumo). A divisão do ciclo nessas três fases foi definida pelo grupo e é simbólica, já que muitos aspectos presentes em uma fase estão também presentes em outra.
#ModaComOrigem
Você sabe de onde vem a sua roupa? Ela foi produzida de forma justa e por marcas das quais você se orgulha? Conhecer a história da sua peça também é parte de uma escolha inteligente!
#ModaFeitaPraMim
Sabe aquela peça que tem a sua cara? Ela pode ter sido customizada para ou por você, ou foi amor à primeira vista na vitrine. O que vale é comprar e usar aquilo que você sabe que tem tudo a ver com você!
#ModaPraDurar
Aquele pretinho básico, o jeans que veste todas as situações ou ainda aquele casaquinho que vai com tudo. Peças-coringa e de qualidade são perfeitas para um armário escolhido a dedo!
#ModaPraCircular
Sabe aquela roupa que você já enjoou? Que tal doar para uma amiga, encaminhar para uma instituição ou aproveitar para criar um novo look? Roupa não foi feita para empoeirar no armário!
Para cada #, foram criados vídeos para publicação nas mídias sociais, sendo que para o lançamento das #s e vídeos, foi criado um Plano de Comunicação.
O lançamento da campanha aconteceu em 13/06/2017 e provoca o público a montar um “look” e publica-lo utilizando uma hashtag relacionada ao tema. A data de fechamento dos dados coletados durante a campanha aconteceu no início do dia 23/06/2017.
Produto Final
NOSSOS PRODUTOS E RESULTADOS
Os produtos obtidos ao longo das diversas etapas do trabalho foram:
- Material utilizado para dinâmica de entrevista junto às influenciadoras digitais;
- Registro dos principais pontos levantados durante as entrevistas realizadas com as influenciadoras digitais;
- Criação de Plano de Comunicação para campanha digital;
- Manual de hashtags, com os conceitos relacionados a cada hashtag (e-book):