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Os novos caminhos da transmissão de futebol A passagem da analógico para o digital e o surgimento de novas alternativas para o público

Por Enrico Portugal, João Pedro Fonseca, João Vitor Costa, Lucas Guimarães, Pedro Ribeiro e Renato Vicente.

Segundo dados da Federação Internacional de Futebol (FIFA), o futebol emprega cerca de 270 milhões de pessoas ao redor do mundo. Com milhões de espectadores, a sua transmissão se adaptou ao longo das mudanças na sociedade. No Brasil, iniciou na década de 30, ainda na rádio, e chegou à televisão nos anos 50. Hoje em dia, com a forte influência da internet, sua exibição ganhou novas possibilidades que podem assumir o protagonismo em um futuro próximo.

Com a chegada da pandemia da COVID-19, as plataformas online se fortaleceram ainda mais. Segundo a Motion Picture Association of America, o streaming teve um aumento de 26% na assinatura dessas plataformas desde o mês de março de 2020, o que corresponde a 232 milhões de novos usuários. O aumento na receita foi de 34%, com valores de 14,3 bilhões de dólares. Com tamanho crescimento, novas alternativas surgem também para a transmissão do futebol, como canais próprios dos clubes, aplicativos de streaming e redes sociais.

Fotografia: Camila Lima / Portal Cultura. 20/03/2019

Da TV às mídias digitais

A televisão chega ao Brasil no início da década de 50, apresentada pelo jornalista Assis Chateaubriand. O aparelho foi um sucesso já no primeiro momento e não demorou para ser comprado por diversos brasileiros. Cinco anos após sua chegada, foi transmitido o primeiro jogo de futebol ao vivo, entre Corinthians e Palmeiras, pela TV Record. Ao longo do tempo, ela foi se adaptando à sociedade e se consolidou como um dos principais meios de comunicação. Tantos anos depois, a entrada da internet balançou os números obtidos pela TV e foi o estopim para diversas mudanças. Em 2014, a TV por assinatura somava quase 20 milhões de assinantes no país, já em 2020, o número era de 14,9 milhões. Nos primeiros quatro meses de 2021, a televisão fechada já perdeu mais de 521 mil assinantes, segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL).

Em quase duas décadas, a internet se consolidou no Brasil. De acordo com a Comscore de dezembro de 2020, cerca de 120 milhões de brasileiros estão conectados à internet no país. Segundo Djalma Augusto, produtor do SporTV, a televisão, atualmente, não é mais o foco do consumidor: “Não falamos mais de televisão. As TVs no Brasil tem vida útil de mais ou menos 15 anos. O streaming veio ocupar esse espaço.”

Djalma também acredita que os novos caminhos das mídias digitais são promissores, lucrativos e atrativos ao público. "É uma forma de aproximar ainda mais o torcedor do seu clube. Tem um lado super positivo para as ações e interatividade segmentada. Entendo que cada vez mais isso pode evoluir e crescer”, completa.

André Barros, fundador do Canal Desimpedidos no Youtube, aposta que o cenário televisivo deve-se tornar ainda mais descentralizado, e que o mercado está se adaptando aos interesses específicos de cada pessoa. Complementa que as novas gerações estão procurando pelo mundo virtual, como pode ser comprovado na pesquisa realizada pela TIC Kids Online na qual 86% dos jovens entre 9 e 17 anos alegaram ser usuários de internet.

A jornalista Vanessa Riche, apresentadora da VascoTV, acredita que um dos maiores benefícios do modelo de transmissão online é a possibilidade de interagir com os torcedores via rede social. Assim, eles contribuem com sugestões, críticas e comentários sobre o futuro do time. E todo o processo é feito de forma instantânea ao contrário da televisão. “É uma conversa bem franca e só a rede social permite isso. Quando eu comecei minha carreira na televisão você não tinha isso. Você não sabia a opinião de quem está assistindo. Eles ajudam a gente a construir esse conteúdo”, explica.

“Você falava e não sabia o que vinha do outro lado. Só ia saber no Ibope.” Vanessa Riche, apresentadora da VascoTV.
Fotografia: Tero Vesalainen. Banco de Imagens iStock. 02/07/2019

Streaming como alternativa

Streaming é o nome dado ao produto de transmissão de um conteúdo, em áudio ou vídeo, de um servidor para um aparelho, como celular ou computador. Com grande força na área do entretenimento, aplicativos como Netflix e Amazon Prime já se tornaram parte do dia a dia da população brasileira. Segundo relatório da Motion Picture Association of America (MPAA), o número de assinantes de serviços de streaming já superou o de TV a cabo, com crescimento de 27% na quantidade de assinantes em 2018. Já nos esportes, a transmissão ao vivo por meio desses serviços cresce em vários países. Nos Estados Unidos, por exemplo, HBO Max e ESPN+ já oferecem programações esportivas em larga escala e transmitem os principais campeonatos esportivos do país ao vivo.

Diante de um cenário de mudanças, plataformas que transmitem jogos de futebol começam a surgir. No Brasil, projetos como a DAZN, WatchESPN e MyCujoo apresentam iniciativas inovadoras que vêm ganhando espaço entre os espectadores brasileiros. Terence Gargantini, diretor da empresa portuguesa MyCujoo no Brasil, não descarta a importância da televisão aberta, mas realça o crescimento do streaming: “Não vejo nos próximos anos as TV’s abertas saírem de cena, mas com certeza, o streaming, não só no esporte, vem pegando uma fatia considerável do mercado”, afirma.

Terence explica também que a digitalização das transmissões esportivas foram impulsionada pela pandemia de COVID-19 e atinge um público-alvo mais jovem. A preferência pelas plataformas se dá devido à praticidade que o streaming pode oferecer: “A geração Z (grupo de pessoas nascidas a partir de 1995) se comporta completamente diferente no que se diz em consumo de conteúdo. O conteúdo é consumido na hora que eles querem e na palma de suas mãos”.

Fotografia: Rafaela Felicciano/Metrópoles.

Formas de investimento ampliadas

As dificuldades encontradas pela televisão com relação aos patrocínios foi um dos principais motivos para a ascensão das plataformas virtuais, que tem conquistado os mais diversos investimentos. Após 20 anos de parceria, a Ambev deixou de patrocinar o futebol da Globo. Ao mesmo tempo, a empresa destinou verbas de publicidade diretamente aos clubes brasileiros e a influenciadores digitais, como o ex-jogador Adriano “Imperador”, e os apresentadores do canal Desimpedidos: Fred e Alê Xavier.

Terence Gargantini, diretor da MyCujoo no Brasil, conta que a empresa, inicialmente, precisava de um fundo de investimento que sustentasse a operação. Hoje, o projeto já possui centenas de usuários ativos e conta com a verba de dezenas de empresas patrocinadoras: “No MyCujoo uma de nossas verticais de receita é o patrocínio. Buscamos empresas que querem se conectar com o consumidor apaixonado por futebol através de nossa plataforma”.

Com a popularização da plataforma, em 2019, a MyCujoo transmitiu ao todo 22 mil jogos e conquistou um público de mais de 26 milhões de usuários. No ano de 2020, após apresentar números atraentes, a empresa foi comprada pela Eleven Sports, uma rede de televisão a cabo portuguesa. A emissora busca expandir os seus serviços para plataformas online e estima ter um faturamento anual de mais de 300 milhões de dólares, conquistando a meta de 20 milhões de usuários e 30 mil horas de esportes transmitidas em tempo real.

Um exemplo de aplicação de capital com sucesso é a criação do Canal Desimpedidos na plataforma Youtube. André Barros, fundador do empreendimento, conta que foi procurado em 2012 pelo apresentador Luciano Huck e o grupo Joá Investimentos para criar o canal que, até o momento, é um dos maiores da América Latina, conquistando mais de 8 milhões de inscritos e 1,8 bilhão de visualizações. Além disso, ele afirma que para atrair futuros patrocinadores, consolidou um novo projeto para popularização do futebol feminino, selando acordo com a CBF para transmissão dos jogos.

Fotografia: João Pedro Fonseca. 30/04/2021

Plataformas próprias para ter autonomia

Com o surgimento de novas alternativas online, os clubes de futebol viram com bons olhos a criação de plataformas próprias. Times como Flamengo, Grêmio, Athletico Paranaense e Corinthians já lançaram seus canais online. Diante da queda dos números adquiridos a partir da transmissão via produtos analógicos, passaram a investir em seus próprios streamings. Os times têm lucrado com essa nova perspectiva e pensam em consolidá-las de maneira efetiva para os próximos anos.

Esse é o panorama do Athletico, que foi o primeiro brasileiro a levar os jogos aos produtos online, no dia 1° de março de 2017, transmitindo via Youtube e Facebook. A transmissão do clássico contra o Coritiba, que terminou 3 a 0 para a equipe alviverde, contou com mais de 3,5 milhões de visualizações. Perspectiva semelhante acontece no Flamengo, que rompeu contrato de transmissão do Campeonato Carioca com a TV Globo. O time visa investir nas mídias digitais, principalmente na FlaTV, e tem a expectativa de arrecadar pelo menos 15 milhões de reais por meio deste produto.

Uma das características apresentada por esse novo modelo é a aproximação com a torcida. O fato do torcedor ter a possibilidade de acessar uma página exclusiva e de seu interesse torna a sua experiência mais “calorosa”. Vanessa Riche, apresentadora da VascoTV, fala que esse formato traz aos torcedores, há mais de um ano sem frequentar os estádios, um pouco da emoção do jogo. “Esse momento é muito atípico porque o torcedor não tem acesso ao estádio, então foi uma oportunidade fantástica para os clubes. Levar um pouco dessa emoção que aproxima o torcedor que não tem mais aquela convivência da resenha no estádio, onde tinha a cervejinha com os amigos.”

Outro diferencial dessas transmissões está nas narrações. Emerson Santos, apresentador da FlaTV, afirma que a linguagem das transmissões televisivas são distintas das utilizadas na de clubes. “É uma linguagem diferente, eu acho que é bacana porque dá para o torcedor escolher, se quer algo mais imparcial ou passional”, conta o jornalista.

Em contrapartida, Renan Prates, editor da DAZN, acredita que os clubes foram precipitados ao ingressarem nesse novo mercado: “Acredito que os clubes entraram neste modelo muito por achar que era uma forma de ganhar bastante dinheiro de uma forma mais simples, mas agora estão vendo e entendendo que é um mercado mais complexo do que parece”.

A origem das transmissões de futebol no Brasil

https://www.cedem.unesp.br/#!/noticia/336/microfilmes-do-periodico-fanfulla-foram-digitalizados-pelo-cedem/ 19/12/2018

O jornal impresso chega no Brasil no período de transferência da Corte portuguesa para o país, no ano de 1808. Além de acarretar várias mudanças na estrutura da sociedade, também iniciou-se um processo de criação de jornais, tendo como primordial a Gazeta do Rio de Janeiro. Este era o jornal oficial de Dom João. O primeiro momento em que é citado o futebol nesse tipo de veículo foi no ano de 1910, no Fanfulla, em que foi apresentada uma proposta para criação de um clube formado por estrangeiros e pela elite na região de São Paulo.

Jornal dos Sports: http://memoriajs.blogspot.com/2009/10/as-mudancas-do-jornal-dos-sports_26.html / 26 DE OUTUBRO DE 2009 //// Mario Filho e Nelson Rodrigues: http://globoesporte.globo.com/futebol/100-anos-de-fla-flu/noticia/2012/07/o-fla-flu-como-ele-e-mario-filho-e-nelson-rodrigues-eternizam-classico.html / 06/07/2012

Em 1931 surge o Jornal dos Sports, fundado pelo jornalista Argemiro Bulcão. Esse diário de notícias esportivas ganhou força pelas suas páginas rosas, o que era algo inusitado na época. Ao longo da década de 30 se consolidou o chamado Jornalismo Esportivo "Romântico", que conta com nomes como Nelson Rodrigues e Mário Filho, que lança “O Mundo Esportivo''. Nessa mesma época, a Gazeta de São Paulo cria um periódico semanal voltado somente para esportes. No entanto, o futebol não é o principal esporte do país, este ainda se encontra atrás do turfe, porém, com a chegada do rádio, inicia-se o seu processo de consolidação.

Nicolau Tuma: https://www.futebolnaveia.com.br/conheca-nicolau-tuma-o-precursor-na-narracao-esportiva-no-brasil/#

O rádio surge na transição do século XIX para o XX. Sua primeira aparição no Brasil foi no Discurso de Epitácio Pessoa, no dia 07/09/1922. Apesar de no início ser voltado apenas para a elite, se popularizou rapidamente e foram criados diversos programas. No ano de 1931, ocorreu a primeira transmissão de uma partida de futebol por meio do rádio, o jogo entre as seleções de São Paulo e do Paraná foi narrado por Nicolau Tuma, na Rádio Educadora Paulista. Em 1936, durante uma das transmissão de de Gagliano Neto de uma partida do Campeonato Sul-Americano, o narrador decide inovar e ao invés de colocar as rotineiras músicas durante o intervalo, escalou Ary Lund para comentar sobre o confronto.

Já na década de 50, o futebol chega à televisão no Brasil, na TV Tupi. Em 1955, a Record transmitiu pela primeira vez um jogo de futebol ao vivo no país, entre Corinthians e Palmeiras, se consolidando como uma das mais importantes da década. Com o título da Copa do Mundo de 1958, o jornalismo futebolístico chega ao seu estopim em território nacional. Vários veículos voltados ao esporte surgem, como a revista Placar e o caderno de esportes do Estadão.

As revoluções apresentadas pela televisão na cobertura futebolística continuam nos anos seguintes. Em 1963 o programa “Grande Revista Esportiva” ficou marcado como o primeiro realizado no estilo mesa-redonda voltado para o futebol, modelo muito comum atualmente. Em 1978, o tradicional Globo Esporte vai ao ar pela primeira vez. Na década de 90, teve início a transição dos jornais impressos para a internet e o surgimento dos sites esportivos, como o Lance!, PSN, Placar e Uol. Além disso, a Rádio Pampa, de Porto Alegre, inovou ao se tornar a primeira emissora com programação completamente esportiva.

Globo Esporte: https://memoriaglobo.globo.com/esporte/telejornais-e-programas/globo-esporte/evolucao/

Atualmente, a internet já se tornou uma ferramenta consolidada na cobertura futebolística e está ganhando cada vez mais força no cenário nacional. Em 2014, surgiram as primeiras transmissões esportivas na web, com o fortalecimento do Youtube. O primeiro jogo transmitido no país via streaming, no Facebook e Youtube, foi realizado em 2017, entre Athletico Paranaense e Coritiba, terminando em 3 a 0 para o Coxa. Já em 2019, a partida entre Cruzeiro e Huracán foi a primeira de uma competição sul-americana transmitida no Facebook. A rede social fechou um contrato para garantir a transmissão da Libertadores e da Liga dos Campeões, e atualmente atinge milhões de espectadores durante os jogos.

Transmissão no Facebook: https://www.lance.com.br/cruzeiro/primeira-transmissao-facebook-teve-inicio-instavel-mas-agradou.html // 07/03/2019