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Reparação histórica: aprovados por cotas raciais compartilham percepções e reforçam caminho ainda a ser trilhado

Sensação de pertencimento e de alívio ao perceber que está em um ambiente acolhedor e que valoriza a diversidade. Estas são algumas das percepções compartilhadas pela servidora Luana Santos de Oliveira, recém-aprovada no último concurso da Casa pela sistemática de cotas raciais. Para começar, um adendo importante: trata-se de um momento simbólico, pois é a primeira vez que um certame do Senado tem reserva de vagas para concorrentes negros seguindo a previsão da Lei 12.990/2014.

Aos 35 anos, Luana viu sua vida se transformar desde a aprovação. E não foi só pelo novo emprego. Ela também precisou sair de Santa Catarina (SC), mais precisamente de Balneário Camboriú, e se mudar para Brasília. No setor público, sua jornada profissional é marcada por algumas aprovações: em 2008, aos 18 anos, ingressou na Prefeitura de Balneário Camboriú. Em 2012, foi aprovada para o cargo de agente da Defesa Civil na Prefeitura de Itajaí. Dois anos depois, ingressou na Câmara de Vereadores de Joinville, onde permaneceu até este ano, quando entrou no Senado.

Meu objetivo em tornar-me servidora da Casa é contribuir de forma positiva para o desenvolvimento das atividades do Parlamento em busca de melhorias para o Brasil — salientou a servidora, que está lotada na Secretaria de Atas e Registros.

Para conquistar a aprovação, o caminho foi repleto de desafios, afirma Luana: Foi um processo longo que iniciou em fevereiro de 2020 e se estendeu durante a pandemia até a data da prova. Uma dedicação diária que levou 3.171 horas líquidas de estudo pelo treino de 53.961 questões objetivas das variadas disciplinas cobradas e 40 questões discursivas”.

No vídeo a seguir, a servidora fala sobre a alegria de saber que o Senado já tem um trabalho assíduo em prol das temáticas da igualdade racial e de gênero.

Caminhos que levaram ao objetivo - Outro recém-chegado, o servidor Yuri Raion de Jesus Ramos, lotado no Núcleo de Gestão de Contratos de Terceirização, atribui a aprovação a diversos fatores colocados em prática ao longo dos últimos anos. Segundo ele, todo o processo envolveu dedicação, renúncias, constância e compromisso com os estudos, sem deixar de lado o equilíbrio na vida de maneira geral.

— Iniciei o meu processo de preparação direcionado ao Legislativo Federal efetivamente em 2017, quando pensei que poderíamos ter um edital publicado no médio prazo. Enquanto este momento não ocorreu, continuei construindo um material de revisão consistente, procurei me qualificar profissionalmente e não deixei de realizar outras provas que surgiram durante a jornada. Essas experiências contribuíram na construção da bagagem de conhecimento necessária para que eu tivesse o desempenho exigido para a aprovação no concurso do Senado — disse o servidor.

Sobre a importância das ações afirmativas como as cotas raciais, Yuri salienta que “considerando que vivemos em um país onde a desigualdade de oportunidades e o racismo estrutural e institucional, infelizmente, estão historicamente enraizados, acredito que as cotas raciais são de extrema importância para a população negra”.

Contudo, Yuri ressalta a importância de lembrar que a ação não sana todas as questões relacionadas à temática, mas funciona como uma das engrenagens de um conjunto de políticas públicas voltadas à promoção da inclusão social e ao combate à discriminação racial: “Penso que as cotas raciais figuram como uma janela de oportunidade mais equilibrada aos negros que buscam, através do estudo, uma mudança de vida”.

Antes de ingressar na Casa, a trajetória profissional de Yuri foi diversificada, com passagens na iniciativa privada exercendo funções de técnico em manutenção de computadores, hardware e sistemas, agente de segurança e de barman em navio de cruzeiros. Em 2014, tornou-se servidor concursado do Ministério de Trabalho, em 2020 foi nomeado como especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental do estado de Sergipe e, em 2021, assumiu o cargo de analista judiciário do TRF da 1ª Região.

No vídeo abaixo, Yuri comenta um pouco sobre suas percepções ao ingressar na Casa:

Persistência nos estudos – Aos 21 anos, Bruno César Gomes de Sá e Silva já estava por dentro do mundo dos concursos públicos. Sua primeira experiência foi no Ministério do Meio Ambiente, como agente administrativo. Depois, passou nos processos seletivos do DFTRANS – Transporte Urbano do DF e da Procuradoria-Geral do DF.

— As atividades nos órgãos variavam em algum grau, mas estavam relacionadas a fomento, articulação, assessoramento, planejamento, avaliação, coordenação, entre outras ligadas à Administração Pública. — afirmou.

Segundo Bruno, nos últimos anos, a dedicação aos estudos era uma constante: “Após a graduação e a pós-graduação, investi mais ainda os esforços para concursos de grande valia. Assim, fui aprovado como perito criminal da PCDF em 2016. Infelizmente (ou felizmente) não fui nomeado. Após a decepção da demora em ser chamado pelo órgão, voltei a estudar para outros concursos na área de auditoria. Eu esperava também pelo concurso do Senado, devido ao grande lapso temporal desde o último concurso. Além disso, sabia que havia área de Auditoria na Casa e que o Senado era um ótimo órgão”.

Para o servidor, os primeiros meses na Casa têm sido especial e superado as expectativas: “Fui surpreendido com a dedicação, o zelo e o cuidado dos colegas comigo na inserção do setor. Todos foram muito acolhedores. Além disso, há diversas soluções interessantes, como a Central de Serviços e o BASF. Assim, apesar de alguns problemas que todo órgão público tem, sinto que estou em um ótimo ambiente, com boas perspectivas para o futuro e espero contribuir para a Casa, agregando valor”.

Momento histórico - A coordenadora do Comitê Permanente pela Promoção da Igualdade de Gênero e Raça da Casa, Stella Maria Vaz, fala sobre o momento simbólico vivido pelo Senado: "É o primeiro concurso do Senado Federal com reserva de vagas para pessoas negras. Sabemos que as cotas raciais têm como objetivo reparar os 400 anos de escravização dessa população no Brasil, último país a abolir tal prática, que resultou em uma sociedade estruturada no racismo, discriminação e na privação e falta de acesso a oportunidades de educação e emprego".

Por isto, segundo Stella, tal ação afirmativa é fundamental para promover a igualdade de oportunidades e para reduzir as desigualdades sociais e raciais no país: "É importante lembrar que as cotas raciais não significam a exclusão de outros grupos, mas sim uma forma de garantir a inclusão de todas as pessoas".

Saiba como funciona a aplicação de cotas raciais em concurso:

A Lei de Cotas em Concursos (Lei 12.990/2014) é o instrumento legal para regulamentar as cotas raciais no âmbito dos concursos Administração Pública Federal direta e indireta, reservando 20% das vagas existentes em cada edital para negros e pardos. Esta legislação tem vigência até 2024, quando passará por avaliações e aprimoramentos.

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